Altos e baixos
Há momentos em que as coisas dão errado, mas a resistência ao sofrimento pode ser o maior obstáculo à paz

por Adriano Quadrado

Nunca conheci alguém que fosse feliz. A frase pode soar exagerada, mas o fato é que não conheço ninguém que corresponda ao ideal que se vende de felicidade. Dizem que há pessoas "felizes" por aí, mas a mim elas nunca foram apresentadas.

O que conheço, aos montes, são pessoas que se impõem a obrigação de uma felicidade perfeita. Eu mesmo, vira e mexe, sou assim. Querendo um conto de fadas, corremos às prateleiras em busca de prozacs e manuais de auto-ajuda. Desejamos passar pela vida flanando, nos divertindo, vencendo sempre. Acontece que a trajetória do homem neste planetinha azul não é assim.

A vida é algo que inclui altos e baixos, necessariamente. Isso faz parte do show. Há momentos em que as coisas dão errado de verdade. Pode ser no trabalho, na vida sentimental, na família. Pode ser tudo ao mesmo tempo agora. E, nesta hora, o comum é a gente espernear.

Mas espernear de nada adianta, só faz a coisa piorar. A resistência ao sofrimento, no fim das contas, acaba sendo o maior obstáculo à paz. Para os espiritualistas, o sofrimento é a própria resistência e não a experiência desagradável em si. Ou seja, a gente sofre porque quer que a vida seja diferente do que ela é.

Claro que há certas coisas que realmente nos chateiam. Ficar numa boa em meio a dores físicas ou a grandes perdas é coisa para homens santos. Mas a gente pode começar a caminhar nessa direção, pode começar a aceitar que o sofrimento também faz parte da vida.

Por exemplo, aquela fila no banco -uma simples fila de banco- que nos tira toda paz, que nos dobra e nos faz adiar o projeto de felicidade perfeita. Ora, ser feliz é saber conviver com a imperfeição de nosso destino. Ser feliz é, em grande parte, permitir que as infelicidades da vida também aconteçam. E que depois passem.

Viver de maneira honrada e com bom humor, fazendo graça das pancadas que a vida nos dá. Isso todos podemos. Assim, quando a gente for ver, vai perceber que deu até para dar muita risada pelo caminho.



Adriano Quadrado é jornalista e tem 33 anos, portanto já teve tempo suficiente de tomar várias rasteiras da vida (e sabe que ainda tomará outras), mas continua sorrindo até hoje. www.quadrado.com