Amar, verbo em transição
O amor é poderoso. Mesmo quando não estamos sob seu jugo nos mobilizamos para reencontrá-lo. Mas a que preço? Vale a pena tanta expectativa? O romantismo é a melhor receita? Chegou a hora de se surpreender com a capacidade humana de inventar e reinventar esse sentimento.
Direção de arte • Camilla Sola Texto • Raphaela de Campos Mello
Ilustração • Adriana Alves
As mulheres ocidentais protagonizaram uma saga e tanto nos últimos 50 anos. Num período muito curto aos olhos da história, deixaram pa ra trás um script pré-fabricado por suas antecessoras, no qual o único caminho possível para a felicidade era casar, ter filhos e viver feliz para sempre, e embarcaram, no final da década de 60, numa missão exploratória inédita. Queriam conquistar uma condição nunca antes experimentada, a de existir com autonomia.
Queimaram sutiãs, aderiram à pílula anticoncepcional e, com muita elegância e competência, ocuparam seus assentos no mercado de trabalho, apesar de muitas ainda lutarem pelo reconhecimento de seus talentos. Foram adiante. Abandonaram relações insatisfatórias, assumiram produções independentes, sentiram no rosto, enfim, a brisa fresca da liberdade.
Atualmente, trabalham, estudam, curtem os amigos, a família, frequentam a academia, praticam ioga, têm seus passatempos e ainda assim não são poucas as que se sentem incompletas, e continuam na esperança de encontrar uma metade capaz de gerar o encaixe perfeito. A solidão, antes distante ou difusa, hoje dá as caras e assusta. O que desejam, então, as mulheres da atualidade, filhas das ideias revolucionárias e dos contos de fadas?
“Hoje, queremos tudo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade”, analisa a historiadora carioca Mary Del Priore, autora do livro A História do Amor no Brasil (Contexto). Segundo ela, a trajetória feminina recente se deu a passos muito acelerados e, ao pisar em solo ainda movediço, essas gerações tiveram de lidar com um acúmulo de novidades que acabaram sendo mal digeridas. No plano individual, isso favoreceu a perda do equilíbrio e do distanciamento crítico. Duas ferramentas fundamentais para se safar das armadilhas que nos afastam de nós mesmas.
Sim, as arapucas existem aos montes e nos seduzem sem grandes esforços. Estamos falando, por exemplo, do narcisismo exacerbado e levado às últimas consequências por algumas de nós. “Hoje, muitas mulheres estão ressentidas porque o casamento não deu certo, sobrecarregadas pelo acúmulo de tarefas e ainda se deixam manipular pelos apelos da vaidade e do individualismo”, aponta a historiadora, referindo-se às novas formas de opressão feminina, entre elas, o culto excessivo ao corpo e à juventude eterna, ao desempenho sexual e ao prazer, procurado nas mais diferentes esferas da vida, quase como uma obsessão. Comportamentos que “solaparam os aspectos positivos da luta feminina”, na opinião de Mary. Essa mistura de ingredientes resultou, na visão da historiadora, numa grande “desordem amorosa”. Onde antes se erguiam castelos cor-de-rosa, hoje sobram queixas e frustrações. “Há um número crescente de pessoas sozinhas e também uma enorme dificuldade em se doar.”
“Queremos o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade. No entanto, há uma enorme dificuldade em se doar”
Mary Del Priore, historiadora