A dose certa das coisas
Os excessos são desvendados pela filosofia, pela ciência e pela sabedoria popular. Cada uma, a sua maneira, diz: para tudo é preciso encontrar
Texto: Tatiana Bonumá e Ana Holanda
Por que algumas pessoas não se atrevem a dar um passo sem antes consultar um oráculo e seguem à risca o comando que vem de fora? Que exagero! Por que outras precisam consumir e comprar e consumir e comprar... e nunca ficam satisfeitas? Que exagero! Por que há gente que se prende à palavra divina tão literalmente que perde de vista a multiplicidade de expressão do sagrado? Isso gera intolerância. Que exagero!
Vamos então entrever o que pode estar por trás de atitudes assim. Se oferecemos ao outro – seja um vidente, seja um oráculo de plantão – o pleno poder de decidir nosso destino, então nos eximimos de responsabilidade. Esse é, no mínimo, um mau uso dessa alternativa de autoconhecimento. Quem desenvolve um trabalho sério na área de astrologia ou tarô, por exemplo, garante que o mapa astrológico e as cartas sinalizam apenas possibilidades e não cristalizam destinos. Ou seja, a escolha é sua, e isso é um tesouro a ser defendido. Os consumistas desenfreados podem estar em freqüência semelhante ao dos crédulos dessa natureza. Buscam fora o preenchimento de um vazio que, às vezes, nem eles mesmos sabem definir qual seja. Então o passo essencial para evitar radicalismos é sempre voltar-se para si.
“CONHECE-TE A TI MESMO”
Essa célebre frase repetida pelo grego Sócrates (470- 399 a.C.) é uma das pérolas do conhecimento universal. Mas ela não se encerra aí. O filósofo também alertava: “Mas nada em excesso”. E aqui vale a pergunta: o que o excesso significava naquela época? “Exceder era se deixar levar pelas paixões, agir sem racionalidade e sem inteligência, perder a autonomia das situações”, explica Luiz Felipe Pondé, professor de filosofia da Fundação Armando Álvares Penteado. E por que é tão importante ter autonomia? Porque ela sinaliza que estamos usufruindo da liberdade com responsabilidade, o que significa se sentir dono das próprias decisões, arcando com os riscos e as conseqüências, sejam bons ou ruins.
Vamos além: a autonomia é sinal de paz interior, um sintoma de que se está à vontade consigo mesmo. “E essa autonomia está relacionada com a maturidade e o sentimento de realização. Porém nada disso é estático. Maturidade não é algo que a gente conquista e tem para sempre. Todos nós passamos por fases mais maduras e autônomas e outras mais vulneráveis e frágeis”, lembra a psicoterapeuta Ana Tereza Camasmie. É justamente nesses períodos de fragilidade que, por vezes, deixamos de confiar em nossa percepção e duvidamos de nossa capacidade de lidar com as situações. Pronto! Essa é a cena perfeita para cair em tentação e procurar fora ou delegar ao outro a decisão de qual a melhor trilha a seguir e, daí, fazer plantão na porta de algum vidente, por exemplo.
Diante disso: calma nessa hora, res pire profundamente e não salte para o extremo oposto, se culpando por ser frágil e indeciso. “Ser maduro é também trocar de papéis e poder sentir-se frágil por uma fase – desde que se consiga fazer o caminho de volta. Apenas se essa fase for longa demais, a ponto de comprometer o dia-a-dia tanto seu quanto dos que o cercam, a ajuda de uma terapia é bemvinda”, arremata Ana Tereza.







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