Às vezes, também é preciso ficar triste
EXIGÊNCIA DE SUCESSO
Proibir a tristeza provocada por uma ruptura amorosa, pela perda de alguém próximo, por uma decepção pessoal ou por um problema profissional é banir um sentimento normal, que deve ser vivido, inclusive, para que possa ser superado. Para Allan Horwitz, duas tendências sociais colaboraram para que atingíssemos esse estágio. A primeira é a imperativa busca pelo sucesso em todas as áreas da vida, forçando as expectativas de performance individual. “A segunda é uma crescente intolerância com sentimentos tristes, fazendo com que as pessoas esperem ser felizes todo o tempo. Isso contribui para o forte desejo pela procura de remédios antidepressivos para aliviar o sofrimento, não importa o quanto normal ele possa ser”, diz. Wakefield acrescenta que o foco na felicidade constante por meio de medicamentos libera a sociedade da responsabilidade de promover as mudanças que poderiam, de fato, proporcionar o bem-estar do indivíduo.
Em 1956, um em cada 20 americanos utilizava algum tipo de tranqüilizante. Em 1969, o Valium era o calmante mais prescrito nos EUA. Os anos 1990 marcaram a invasão dos antidepressivos, principalmente dos chamados inibidores seletivos de captação de serotonina (SSRI). Em 1994, o Prozac, batizado de “pílula da felicidade”, se tornou o segundo medicamento mais vendido do planeta, seguido de perto pelo Paxil e pelo Zoloft. Entre 1996 e 2001, o número de consumidores de SSRIs e outros antidepressivos dobrou: de 7,9 milhões para 15,4 milhões. No Brasil, no ano passado foram vendidos 24,4 milhões de comprimidos antidepressivos, um aumento em relação a 2006 (23,3 milhões) e 2005 (20,6 milhões). O investimento em publicidade também é pesado: no início deste século, a indústria farmacêutica estava investindo cerca de US$ 2 bilhões.
PSIQUIATRIA COSMÉTICA
Ao mesmo tempo em que dispara o número de gente que faz uso de antidepressivos, decresce o de pacientes em psicoterapia. A chamada psiquiatria cosmética dos medicamentos, porém, tem sido questionada. Uma pesquisa britânica da Universidade de Hull, publicada na revista Public Library of Science Medicine (Biblioteca Pública da Ciência Médica), mostrou que antidepressivos não são mais eficazes do que o placebo nos casos de depressão leve.
Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, até 2020, a depressão se tornará a segunda doença causadora de incapacidades, atrás apenas dos problemas cardíacos. Horwitz se diz chocado com a previsão, que julga influenciada pelas distorções de diagnóstico da doença. “A OMS não só acredita que 10% da população sofre de depressão profunda como também que todas essas pessoas têm uma condição equivalente em gravidade à paraplegia e à cegueira. Por tudo isso, eles estão revisando seus critérios, e esperamos que a nova fórmula seja mais realista”, diz.
A dor faz parte da emotividade humana e a tristeza não é, necessariamente, uma doença, clamam os autores. Distúrbios depressivos, esses, sim, devem ser tratados diferentemente de estados de tristeza gerados por um contexto específico. Na Antigüidade greco-romana, médicos como Hipócrates (460-377 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) já faziam a distinção entre “distúrbio da tristeza sem causa” e “tristeza normal com causa”. O escritor francês Victor Hugo (1802-1885) definiu a melancolia como “a felicidade do estar triste”. Em 1958, o cirurgião-geral L. E. Burney já alertava que os “problemas do cotidiano” não podem ser “solucionados com uma pílula”.
Para Horwitz e Wakefield, o homem moderno esquece a sabedoria do passado e se engana não somente de tristeza, mas de felicidade também. Quando organizou a enorme exposição sobre a melancolia no Grand Palais, em Paris, o historiador de arte francês Jean Clair disse: “A infelicidade da época atual é a de desejar uma existência atonal, plana, em uma linha horizontal, sem depressão, mas também sem exaltação. Uma perpétua linha de homeostasia, que se obtém graças ao Prozac e às moléculas químicas. Está-se sempre com o mesmo humor, mas um humor constante não produz nada. O que produz o som é a vibração”.
A Morte de um Caixeiro Viajante
NA PEÇA DE ARTHUR MILLER Willy Loman é um caixeiro-viajante nos Estados Unidos. Como um típico americano de classe média da primeira metade do século passado, acreditava ser possível alcançar o sucesso pelo esforço pessoal. Alegre, bem casado e com dois filhos, o personagem experimentou muitas vitórias até que, depois de 34 anos de estrada, quer parar mais em casa – o país mudou, o sistema comercial tornou-se impessoal e não há mais estima nas relações cultivadas pelo caminho. Aí, começam os problemas do personagem: o patrão em vez de premiá-lo pelo es forço de anos, decide demiti-lo. Numa cena antológica, Willy diz: “Você não pode chu par uma laranja e jogar o bagaço fora porque um homem não é um pedaço de fruta”.




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