QUITUTES E COLO
Foi por meio dos encontros, pautados pela amizade, que um grupo de comissárias de bordo conseguiu superar um momento difícil para todas: a demissão em massa de funcionários de uma empresa aérea há pouco mais de dois anos. No início, as reuniões eram discretas e, digamos, tradicionais. Eram al moços esporádicos. Foi quando a comissária Dayse Borges Gonçalves, 51 anos, que percebeu o baixo-astral entre as amigas, e teve a idéia de estender os encontros gastronômicos.

Apartir de então, elas passaram a se ver todos os meses, na casa de Dayse, com data marcada e tema predefinido – sempre algo que está incomodando, como a tristeza, a ansiedade e as dificuldades em lidar com família e com as novas perspectivas profissionais. Essas conversas são regadas a quitutes e refrigerantes.
O grupo, que começou com seis participantes, já conta com 13. É Dayse quem coordena as conversas. “Acredito na cura através do amor e do humor. Quando conseguimos rir de nossos problemas, eles acabam ficando menores. E esse é um dos objetivos desses encontros em minha casa”, afirma ela.
No entanto, algumas resistiram à proposta. “Eu não participei no início. Não era fácil sair de casa para falar de temas tão desconfortáveis para mim. Eu preferia ficar em silêncio”, lembra Claudia Mendes, de 47. Mas, com o tempo, Claudia foi chegando e, aos poucos, aprendeu a ouvir. “Preciso da troca que acontece lá. As reuniões são uma oportunidade de acrescentar novas idéias, um lugar para concordar e discordar também”, afirma.
Para ela, quando ouvimos outras pessoas falando de problemas parecidos com os nossos, passamos a enxergá-los de outra perspectiva. Já Dayse percebe esses momentos como uma grande troca de afeto, um espaço para encontrar colo, só que aqui é colo de amiga. “O que confirmo com esses encontros é da nossa valor amizade. É sem dúvida o bem maior que podemos ter, os amigos. Afinal, eles são os irmãos que escolhemos”, resume Dayse.
A CONFRARIA DO NHOQUE

O curso de comunicação social foi palco para o início da amizade de sete garotas nos idos de 1989: Ana Centrone, 36 anos, Débora Olivato, 36, Fátima Torres, 36, Mônica Genaro, 36, Karen Halley, 36, Gisele Kakuta, 36, e Maristella Escobar, 46. Ao se formarem, os encontros começaram a ser menos freqüentes. “Casei e acabei me afastando do grupo. Além disso, a intensidade do trabalho e o mestrado em andamento contribuíram”, relembra Débora Olivato.
Quando estava concentrada na redação do tal mestrado, Débora percebeu o quanto estava longe das antigas amigas de faculdade e a falta que sentia delas. Foi quando teve a idéia de usar uma tradição de sua família para um encontro: uma reunião, todo dia 29, para comer nhoque – reza a lenda que saborear a massa nesse dia traz sorte e também ajuda nas finanças.
Os primeiros encontros foram atrapalhados, mas deixaram boas lembranças. “Era dia de semana e fomos para a casa da Débora preparar nosso nhoque. Fizemos a massa enquanto assistíamos a novela. Sempre tinha alguém que corria para a sala de TV. Resultado: espalhamos farinha por todo o apartamento, a massa ficou mole e comemos só depois da meia-noite”, conta, divertindo- se, Mônica Genaro.
O nhoque virou, assim, o elo de ligação entre elas. Aliás, elas passaram a se auto-intitular a Confraria do Nhoque – chegaram até a ter aulas de culinária e aprenderam a fazer quatro tipos de nhoque e molhos diversos.
Mas, com os anos, os temas das reuniões ganharam variações: elas já fizeram um sarau, passaram um dia num spa e realizaram até uma celebração ao luar. A reunião aconteceu na cobertura do apartamento de uma delas. Em roda e com velas acesas, cada uma tirou uma carta do Oráculo da Deusa. Ao fim, fizeram orações. O que as mantém assim, tão próximas? Elas acreditam que esses encontros programados fortalecem a amizade e as ajudam a não perder a outra de vista. É uma união que permanece.