Um livro aberto para a vida
VIRANDO A PÁGINA
Colocar no papel a própria história. Foi isso o que fez a terapeuta familiar Magdalena Ramos, professora da PUC de São Paulo. Em 1976, ela deixou a capital argentina para viver no Brasil por conta da repressão política em seu país. Aqui, ela passou a ter que conviver com uma língua estranha e uma cultura diferente. Todas as dificuldades que enfrentou ficaram guardadas no baú da memória, até que, no ano passado, Magdalena resolveu publicar o livro Sou Daqui e Sou de Lá – Autobiografia do Exílio (ed. Ágora). “Eu sempre lamentei o fato de meus avós dos dois lados, que eram imigrantes, terem morrido quando eu era pequena sem contar sua história. Assim, quis registrar meu passado para que minhas filhas e meus netos possam saber de onde eu vim e como foi a minha vida”, conta.
Segundo ela, o registro possibilitou enxergar o passado com outros olhos: “Escrever o livro serviu para que eu elaborasse melhor minhas vivências, resolvesse questões pendentes, me perdoasse por meus erros e agradecesse aos brasileiros que tanto me ajudaram nesse período. Senti como se tivesse conseguido virar a página de meu passado”.
Na visão da especialista, a experiência de contar sua história, por meio da fala, da escrita, da pintura ou qualquer outra forma de linguagem, sobretudo muito tempo depois dos fatos, permite que se olhe para eles com certo distanciamento, com mais maturidade, tolerância e compreensão sobre si mesmo e sobre os outros envolvidos. “Reavaliar a vida nos ajuda a entender melhor o que passamos e a aceitar o que nos aconteceu sem ressentimento ou culpa”, finaliza Magdalena.
O mais interessante é que narrar o passado funciona como uma possibilidade de refazer a trajetória sob outra luz, outro ponto de vista. O resultado é sempre positivo: nos faz entender melhor os caminhos percorridos e aquilo que nos tornamos. Nos ajuda a perdoar – o outro e a si mesmo –, a agradecer e, principalmente, a se ver de uma maneira mais inteira. E tem muitas maneiras de fazer isso... Vale escrever no papel, na esfera virtual, gravar fitas, colar fotografias. O que você vai encontrar aqui são pedaços dessas histórias, cenas da vida de pessoas como eu, você, enfim, todos nós. Exemplos para a reconstrução das suas próprias páginas.