Respirar, sentir, movimentar-se. Assim, cada um de nós intensifica o contato com o corpo e o ajuda a liberar emoções reprimidas e dores físicas. Essa foi a conclusão de ALEXANDER LOWEN, pai da bioenergética, uma corrente de terapia corporal para a qual o corpo sempre fala a verdade.
Preste atenção em sua respiração. Você inspira pelo peito ou pelo abdômen? Como solta o ar? Rápida ou lentamente? É isso mesmo. As pessoas quase nunca observam como inspiram e expiram.
Essa análise do corpo humano é um dos pilares da bioenergética, uma linha de psicoterapia criada pelo médico americano Alexander Lowen entre as décadas de 1940 e 50. Para ele, ter o corpo vibrante e saudável é a chave de uma vida feliz. E isso na da tem a ver com malhação ou condicionamento físico orientado por caminhadas e exercícios aeróbicos e anaeróbicos.
O que Lowen descobriu é que toda musculatura contraída tem uma emoção guardada. E por isso, quando o corpo é exercitado e relaxado, ele consegue liberar emoções reprimidas, minimizando também os medos, as inseguranças e até a dor física. O resumo deste trabalho, que revê a importância do corpo, acabou de sair em livro no Brasil: é a autobiografia de Lowen, Uma Vida para o Corpo (ed. Sum mus). A obra foi concluída em 2004, antes de o médico sofrer o derrame cerebral que tirou boa parte de sua fala e mobilidade aos 96 anos.
O QUE O CORPO ENSINA À MENTE, E VICE-VERSA
Antes da bioenergética propriamente dita, nasceu a terapia corporal pelas mãos do psicanalista húngaro Wilhelm Reich, ex-discípulo de Freud (o pai da psicanálise), que resgatou a importância do corpo para a compreensão das emoções e dos sentimentos. “Freud se preocupava com o que o paciente falava e Reich observava como ele falava, analisando sua respiração e expressão corporal”, diz o médico e psicoterapeuta Ricardo Amaral Rego, diretor do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica.
Reich rompeu com a separação entre corpo e mente, tão comum nas terapias de então. Ele compreendeu que o que afeta o corpo repercute na mente, e vice-versa. Também passou a estudar como o corpo é regido e conduzido por uma energia que ele batizou de orgônio – conhecida por ch’i na medicina tradicional chinesa e por prana pelos hindus. O trabalho de Reich era inovador para a psicanálise e para a sociedade ocidental, pois defendia que a vitalidade dessa energia contribui para o bem-estar do ser humano. Empolgado, ele mergulhou em pesquisas para descobrir a origem dessa energia e deixou aberto o campo para estudos da correlação mente/corpo. “Nesse vácuo, Lowen, ex-paciente e aluno de Reich, encontrou espaço para sistematizar o trabalho do mestre”, explica o psicoterapeuta Rubens Kignel, de São Paulo.
ENERGIA VIBRANTE
Lowen partiu do princípio de que a boa relação entre corpo, mente e energia é a base para uma vida plena. Na prática, se a pessoa está triste devido a uma perda, ela se sente enfraquecida para reagir porque o organismo não produz a energia de que ela precisa para se animar. Por isso, o terapeuta acredita ser difícil alguém deprimido ficar bem e pensar positivamente se seu nível de energia estiver baixo. Aí entra a análise bioenergética: para resolver o descompasso.
A fórmula conta com um equilíbrio na equação mente/corpo/energia, com base no estudo dos estados emocionais e energéticos do corpo.
Numa sessão de bioenergética, além de conversar como em qualquer outro tipo de psicoterapia, o terapeuta pede que o paciente faça alguns exercícios físicos. O objetivo é destravar tensões musculares – geradas por estresse, tristeza, ansiedade e problemas psicológicos – e levar a pessoa a respirar livremente, já que a emoção interfere no fluxo respiratório. “Por conta dos seus problemas emocionais, um paciente pode aprisionar a respiração, isto é, entrar num padrão de inspirações e expirações curtas e apressadas, que tensionam os músculos e distanciam o indivíduo do contato com o seu corpo”, afirma Liane Zink, diretora do Instituto Brasileiro de Análise Bioenergética, ex-aluna de Lowen. Os exercícios da bioenergética colaboram para a respiração fluir novamente.