Sentimentos como alegria, tristeza e mesmo raiva influenciam a conta bancária mais do que se imagina. O vai-e-vem financeiro, aliás, diz muito sobre quem você é e como lida com as questões práticas. Entender essa aritmética o ajuda a fazer compras com maior consciência, levando apenas o que cabe no bolso: das necessidades aos pequenos desejos. No fim dessa conta, você descobre que é possível multiplicar o dinheiro e assim financiar seus sonhos – sem dívidas!
Dinheiro traz felicidade?” É com essa pergunta que a psicóloga Fernanda Patriarca começa suas palestras sobre dinheiro e felicidade no Instituto Evoluir, em São Paulo. Diante do questionamento, as pessoas se intimidam. Ninguém se sente lá muito à vontade para falar de questões financeiras. Mas elas estão ali, fechadas em uma sala, em pleno fim de semana ensolarado, exatamente porque querem aprender a lidar melhor com isso. Dá para entender o porquê quando levantamos alguns dados de como anda a finança dos brasileiros: cerca de 40% da população tem alguma dívida.
Ao término da palestra, muitos percebem que para sair do saldo negativo não basta apenas entender de cálculos. A forma como eles lidam com o dinheiro tem tudo a ver com a maneira como se relacionam com seu dia-a-dia. É a viagem que nunca sai do sonho porque o salário escorre nas comprinhas extras – seja por falta de planejamento, seja pelo consumo movido a impulso. E mais: para ser alguém próspero, é preciso olhar para nossas raízes familiares, nossa cultura e principalmente para quem somos e como fazemos nossas escolhas. “Planejar seu dinheiro é planejar sua vida”, resume Fernanda Patriarca.
POR QUE É TÃO DIFÍCIL LIDAR COM DINHEIRO?
Os cálculos dessa equação de perdas e ganhos começa a ficar claro quando nos damos conta do porquê de tanta dificuldade em lidar com
dinheiro (administrar, falar sobre o assunto, planejar seu orçamento). Essa questão virou objeto de estudo da socióloga Glória Garcia Pereira. Há 12 anos, ela investiga os motivos pelos quais alguns povos prosperam e outros nem tanto. Ela pesquisou e viajou em busca de respostas. E, em um happy hour, comentou com uma amiga sobre suas descobertas. A amiga, fascinada, pediu que Glória lhe ensinasse mais. Resultado: o que era um hobby virou trabalho e hoje ela dá cursos sobre educação financeira. Mas não pelo viés da matemática, mas da história, em que está boa parte das respostas.
Todos os povos colonizados por portugueses e espanhóis têm a mesma dificuldade de prosperar financeiramente. O motivo: quem era colonizado não podia ficar rico ou acumular ouro porque ele pertencia à coroa. Quem desobedecesse a essa regra morreria. Isso influenciou o não demonstrar a riqueza. “Outro componente forte é a origem indígena. Os índios não eram ligados a dinheiro porque seu ganho vinha da terra. Quando ela se esgotava, eles mudavam, já que o território é grande”, conta Glória. Por conta disso, os índios não praticavam o escambo com freqüência. Do outro lado, temos os negros, que, como eram escravos, também não podiam acumular riquezas. “Veja que cultura complexa é a nossa. Essa é a base do inconsciente coletivo”, analisa a socióloga.
Além disso, no século 20, o país passou pelo processo de industrialização, quando o ideal de sucesso era ser empregado. “Só que no século 21, vivemos a era das empresas globais, a do dinheiro virtual, ou e-money, e da escassez de empregos. As pessoas, então, precisam ser empreendedoras”, conta Glória, cuja crença é que 60% dos endividados têm dificuldade em lidar com o dinheiro. E a saída está na educação financeira.
Foi pensando nisso que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) criou há um ano vários cursos gratuitos para quem tem de 11 a 70
anos. Por quê? Em 2002, a Bovespa lançou um programa de popularização do mercado de ações, feito para quem tinha vontade de investir, mas com poucos recursos. O resultado não foi o esperado. “Precisávamos dar um passo atrás e ajudar as pessoas a organizar as finanças para depois pensar em investir”, conta Luis Abdal, diretor de marketing e comunicação da bolsa. Luis exemplifica a importância de cada um se render ao entendimento do “economês”: por que algo que acontece na China tem impacto aqui? Como pensar na aposentadoria planejada? Como fazer o salário render e até se multiplicar? “Nos cursos, todos aprendem o que a administração do dinheiro tem a ver com sua vida e os ganhos que isso pode proporcionar”, acredita Abdal. A contabilidade é positiva, com mais de 100 mil alunos já educados financeiramente.
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CONSUMO COM CONSCIÊNCIA
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