Sem confiança, a vida se torna solitária. Até as mais duras traições podem ser superadas e dá para resgatar e alimentar o sentimento de certeza e segurança em você mesmo, nas relações profissionais e nas afetivas também.
Confiança. Saí da redação com esta proposta: falar sobre a força desse sentimento. Isso em um mundo tão ditado pela desconfiança. Os caminhos que fui traçando para este dossiê não se mostraram claros logo de cara. Na dúvida, olhei no dicionário e encontrei palavras como crédito, força interior, segurança, crença na moral e também fé – aliás, essa é uma das primeiras.
Indaguei o que confiança teria a ver com fé. A conversa que desatou esse nó aconteceu dias depois. Em uma das entrevistas, já no fim, quando o papo fica mais solto, ouvi o seguinte relato da psicóloga Lidia Aratangy: “A pior perda de confiança é quando se deixa de confiar na vida. Tive um genro que morreu cedo – ele tinha apenas 30 anos e sofreu um acidente de carro. Minha filha ficou arrasada e passou anos sem confiar na vida. Foi preciso tempo para que ela resgatasse isso. E aconteceu. Ela casou de novo e, este ano, me deu mais um neto”.
Naquele momento, eu tive a certeza de que, sim, confiança é também fé. E de que, todas as manhãs, independentemente do caos montado lá fora, precisamos acreditar na vida por si só. Essa é apenas uma coisa que aprendi, mas é o início das outras lições de confiar.
O AFETO É O COMEÇO
A confiança germina quando somos ainda bebês. É o que os psicólogos chamam de “confiança básica”. É aquela que está no inconsciente porque foi desenvolvida nos primeiros meses de vida, tem a ver com o afeto recebido e, à frente, direcionará os relacionamentos.
Abandono na infância ou, o contrário, superproteção podem determinar as dificuldades de autoconfiança futura. E isso se mostra em pequenos gestos. “A criança começa a fazer o laço no tênis e a mãe se adianta. Essa atitude passa a noção de que se é incapaz de fazer aquilo. Isso vale ainda para o excesso de críticas. A confiança é estruturada quando temos a possibilidade de viver experiências e aprender com elas”, conta a psicoterapeuta Patrícia Gebim, autora do livro
Gente Que Mora Dentro da Gente (ed. Pensamento).
Aliás, confiança também tem tudo a ver com auto-imagem, boa parte dela estruturada até os 6 anos. Sabe aquela garotinha de cabelos encaracolados que cansou de ouvir “prende esse cabelo, menina. Está parecendo uma louca!”? A chance de ela ter problemas em relação à aparência de seus fios é enorme. Nunca vão estar bonitos o suficiente – na percepção dela, claro. Se você acredita que não vai conseguir algo ou que algo em você não é belo, fatalmente isso se concretizará.
VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?
Toda semana, a publicitária Luceli Kerikian reúne um grupo de até 12 pessoas em um trabalho chamado PathWork (trabalho do caminho, em inglês). O método foi organizado pela bailarina austríaca Eva Pierrakos e tem como objetivo o bom e velho “conhece-te e a ti mesmo” por meio de conversas informais, dirigidas por um mediador. Um grupo que Luceli coordena tem como foco a autoconfiança. “Para isso, é preciso saber ouvir sua intuição e não acreditar apenas em fantasias e conceitos prontos, como os jargões ‘a vida é difícil’, ‘os homens não prestam’, ‘não dá para confiar em ninguém’. Se você faz isso, não está prestando atenção em quem você é, mas em uma ilusão”, diz.
O caminho para sair da eterna posição de quem não confia em nada ou ninguém é fazer uma auto-análise. E começar listando seus medos porque são eles que barram a sua crença em você e no outro. Mas nem pense em atacar seu maior medo logo de cara. Tem pânico de falar em público e planeja fazer uma palestra? Comece treinando em frente ao espelho, depois para um grupo de amigos até atingir seu objetivo. “Uma idéia é listar o que assusta você, classificando do maior medo ao menor, e enfrentar cada um dos desafios aos poucos”, ensina Patrícia Gebim. Ou seja, a confiança começa mesmo em você.
QUANDO A CRENÇA É CEGA
A psicóloga Andreia Isabel Giacomozzi, da Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisa a confiança nas relações em tempos de aids. Isso lhe rendeu uma tese de mestrado e doutorado – além do livro
Casamento e Aids: uma Questão de Confiança (ed. Mackenzie). Por que ela enveredou por esse caminho? A aids, doença sexualmente transmissível, colocou em xeque a confiança entre os casais. O número de mulheres contaminadas e que estão em um relacionamento estável, com parceiros supostamente exclusivos, só
cresce, segundo dados levantados pela própria Andreia.
Para a pesquisa, a psicóloga entrevistou 40 mulheres, entre solteiras e casadas, portadoras do HIV. Elas contaram saber que a única forma de prevenção era o uso da camisinha, mas foram contaminadas porque, confiando no parceiro, não usavam o preservativo. “O que indica a ausência de um diálogo franco”, diz Andreia. E a psicóloga continua: “Numa relação, não há espaço para a cegueira. A confiança é importante, porém o relacionamento precisa ser honesto e responsável”, finaliza.
TRAIÇÃO: MOMENTO EM QUE O ELO SE QUEBRA
“É impossível viver se não confiar.” A frase é da terapeuta de casal Lidia Aratangy, autora do recém-lançado
O Anel Que Tu Me Deste (ed. Artemeios). Lidia trabalha com casais há mais de três décadas. E a confiança vem sempre à baila nas conversas. “Você tem que acreditar no parceiro e não há outro jeito. Provar que se é desonesto é muito fácil. Vai provar que alguém é honesto”, diz.
O medo aqui é o da traição, quando a confiança se desfaz. Mas existem também as pequenas deslealdades: uma mentira tola aqui e outra acolá. Quando isso acontece, dói, dói demais. Os psicólogos costumam dizer que a infidelidade pode ser tão intensa quanto um luto. E é também uma ferida na vaidade. Muita gente acredita que o seu amor é único, especial, indissolúvel. Exceções à parte, Lidia argumenta que vivemos guiados pela fantasia – do príncipe encantado, da transparência nas relações. “A gente não é transparente nem para a gente mesmo. Antes de entrar numa agonia, da desconfiança, da deslealdade, pergunte para ooutro o que ele queria dizer quando fez aquele gesto e tente se colocar no lugar dele”, ensina Lidia.
Ao fazer esse exercício, as possibilidades de reatar os elos e a crença no parceiro aumentam. “A pessoa descobre outra realidade, menos fantasiosa. E aí eu acredito que muitos casais – e só aí – têm a chance de fazer um vínculo verdadeiro, pautado nas pessoas como são e não como as idealizamos. Se ela entrar nessa de “não confio em mais ninguém”, corre o risco de só estabelecer relações descartáveis. O que é uma pena porque viver desse jeito é meia vida”, arremata Lidia.