AUTO-CONHECIMENTO
Crise = oportunidade
Sempre é possível descobrir
caminhos promissores mesmo que eles estejam escondidos em momentos
desfavoráveis. Isso é o que diz a milenar sabedoria
chinesa, em que crise e oportunidade se complementam na mesma
palavra, formada pelos dois ideogramas acima.
Texto: Wilson F. D. Weigl
Ideogramas escritos por Ana Chen
Assim como o diamante está contido na pedra bruta, em
certos momentos a vida nos propõe superar obstáculos
até encontrar algo precioso. A empresária Leila
Matheus, de Campinas, São Paulo, era recém-formada,
estava sem emprego, casada e com uma filha de colo. Ficava em
casa roendo as unhas, dominada pela ansiedade, pois não
podia ajudar o marido a sustentar a casa. E nada de trabalho.
“Quando vi uma reportagem na TV sobre unhas de porcelana,
achei que era a solução para parar de roê-las.
Liguei na mesma hora para a produção do programa
e peguei o telefone do salão, que ficava em São
Paulo, e fui até lá”, conta Leila.
De volta a Campinas, ela teve um estalo: poderia aprender a
confeccionar essas mesmas unhas. “Dias depois, comecei
o curso e uma nova etapa muito próspera. Com muita dedicação
e força de vontade, montei o salão. E hoje, 12
anos depois, posso dizer que venci. Além dos tratamentos
para unhas, serviço em que me tornei a número
um, incluo os de cabeleireiro, podólogo, estética
facial e depilação”, conta a empresária.
Histórias como a de Leila atestam que é justamente
nos momentos de crise, aperto financeiro e falta de perspectiva
que se deve estar atento ao que realmente nos estimula e às
saídas que a vida nos mostra. Às vezes, elas ficam
ocultas pela inércia, pela desesperança ou pelo
medo. “Numa época desfavorável, temos a
chance de escolher: ou renascemos da crise ou nos afundamos
nela”, diz Amalia Sina, executiva, professora universitária
e escritora, de São Paulo.
Chance de autodescoberta
Um antigo ditado diz: “Se a vida der a você um limão,
faça dele uma limonada”. Mesmo quando a oferta
de trabalho e o saldo bancário diminuem, não fique
tentando justificar a situação apenas com fatores
externos, como a conjuntura, a falta de sorte, o pouco espírito
de colaboração dos outros. Isso você não
pode resolver, mas pode sim tomar as rédeas do próprio
destino. “A crise é uma porta para a autodescoberta.
Somos forçados a buscar soluções, a rever
posições, a arriscar e conquistar novos territórios.
Não porque queremos, mas porque não existe outra
possibilidade”, afirma Amalia.
Em seu livro Crise e Oportunidade – Em Chinês e
Nos Negócios Essas Duas Palavras São Uma Só
(ed. Saraiva), a executiva ressalta que, na língua chinesa,
a mesma letra (chamada ideograma) expressa essas duas situações,
que, para os ocidentais, parecem antagônicas. “A
pressão emocional dispara dentro de nós o instinto
natural de lutar para vencer. Nas adversidades, desenvolvemos
a força interior, responsável por nossas vitórias.
Sem crise, a vida seria como o mar sem as ondas”, frisa
Amalia.
Momentos difíceis são propícios para desenvolver
talentos adormecidos e investigar possíveis áreas
de atuação a curto ou longo prazo. “Todos
nós somos donos de vários talentos”, continua
a executiva Amalia Sina. “Quando estamos disponíveis,
podemos testar habilidades, o que seria impossível se
estivéssemos trabalhando. A hora do desemprego pode ser
o momento, por exemplo, de concretizar um antigo sonho ou mesmo
se aventurar em áreas inusitadas.”
Olhos no futuro
É bom ter em mente que hoje a faculdade é apenas
o ponto de partida para o sucesso profissional e não
a garantia de vencer na vida como no tempo de nossos pais. Um
em cada quatro brasileiros formados no ensino superior, nos
últimos dez anos, não está empregado ou
trabalha em funções abaixo de sua qualificação,
como revelou um recente estudo da Secretaria do Desenvolvimento,
Trabalho e Solidariedade do município de São Paulo.
O emprego tradicional, com carteira assinada e salário
depositado todo fim de mês, está mais raro e essa
tendência deve se acentuar, já que as empresas
estão cada vez mais enxutas e empregando os serviços
terceirizados.
“Seguro está apenas quem confia nas próprias
capacidades e busca o aperfeiçoamento constante. Nenhum
emprego fixo é certeza de estabilidade, pois o mercado
é complexo, instável e está em constante
mutação”, lembra Eline Kullock, presidente
do grupo Foco de Recursos Humanos, empresa especializada em
colocação profissional, de São Paulo. “Precisamos
ser cada vez mais empreendedores e donos do próprio nariz.”
Sua bagagem
De todo conhecimento que se adquire, nada fica perdido. O cearense
Francisco Antonio Nilber Santiago Barroso, por exemplo, usou
toda a bagagem profissional construída em anos de trabalho
no mercado financeiro, em Fortaleza, para fazer deslanchar a
pousada que sua mãe tinha em sua cidade natal, Canindé.
“Resolvi aderir ao programa de demissões voluntárias
do banco, montei uma locadora de vídeo com o dinheiro
da indenização, mas o negócio só
durou nove meses”, conta Nilber. “Depois, tentei
a área de contabilidade, mas não me adaptei à
burocracia.”
Na mesma época, ainda enfrentou uma crise emocional que
culminou com o fim do casamento, mas não esmoreceu. Novamente
em Canindé, na casa da mãe, Nilber aplicou na
pousada sua experiência em administração
de empresas e ciências contábeis. “Expandimos
muito, o negócio deu certo e ainda há mais pela
frente.”
Foco positivo
Boa parte das chances de sucesso se apóia no otimismo
e na forma de olhar as crises. “Metade do caminho está
percorrida se mantivermos o foco positivo na resolução
dos problemas e no aprendizado que está embutido na experiência
ruim, como a cultura oriental, especialmente a chinesa, ensina
há milênios”, lembra Amalia Sina.
Outro cuidado é nunca esquecer de suas muitas qualidades
e não deixar que a auto-estima fique abalada pelas dificuldades
financeiras. Segundo a executiva, o trabalho contribui para
a realização e a sensação de sermos
úteis à sociedade, mas não deve ser a única
fonte de afirmação de nosso valor pessoal. “Precisamos
saber perder, saber ganhar e, acima de tudo, distinguir as duas
coisas. E não há nada de mal em ficar duas jogadas
sem jogar”, diz. “Pode-se ter a impressão
de estar retrocedendo, perdendo o pé, mas muitas vezes
esse é um estágio necessário para tomar
fôlego e ir em frente. Volta-se um passo atrás
para depois saltar dois à frente”, finaliza Amalia.
A chance vem de onde você
menos espera
As oportunidades que surgem são fruto de nosso empenho,
talento, motivação e capacidade de agir e ir à
luta? Sim, sem dúvida. Mas vale também dar crédito
à sorte, que nos coloca no lugar certo, na hora certa,
junto às pessoas certas. “As oportunidades aparecem
em nossa vida como coincidências, que se apresentam de
forma simples. Por exemplo, podemos de repente conhecer alguém
que nos dê uma chance que nunca pensamos ser possível.
Ou encontrar numa reunião alguém que pode representar
muito para nossa carreira”, diz o economista e professor
americano Tom Monte no livro Determine a Sua Própria
Sorte (ed. Cultrix).
Para Monte, essas coincidências afortunadas não
são apenas um mero fruto do acaso: “A rede da vida
parece ter uma memória longa e um alcance ainda mais
longo e traz a nós a sorte, dependendo das sementes que
plantamos”.
“Em outras palavras, faça muitos amigos ao longo
do caminho. Parece básico, mas inúmeras pessoas
esquecem isso por causa da competição”,
conclui o economista.
Cinco passos para atrair o
sucesso
Olhar atento, mente aberta, planejamento e estratégia
são requisitos fundamentais para atrair boas e rentáveis
oportunidades. Eline Kullock e Leyla Galetto, respectivamente
presidente e diretora técnica do grupo Foco de Recursos
Humanos, de São Paulo, destacam atitudes para perceber
novos caminhos.
1 – Lembre-se: o trabalho é apenas uma entre as
várias áreas da vida. Você certamente tem
motivos, mesmo que pareçam triviais, para comemorar em
outros setores: saúde, família, afetos. Isso eleva
sua auto-estima e não deixa que as dificuldades passageiras
afetem seus relacionamentos.
2 – Valorize suas conquistas e não superdimensione
os obstáculos. Olhe para tudo de positivo que conseguiu
e tenha em mente que o desemprego ou a falta de dinheiro são
fases.
3 – Busque sempre o aperfeiçoamento profissional.
Um bom caminho é freqüentar cursos e seminários.
Diversos órgãos e escolas oferecem programas gratuitos
em todo o Brasil. Informe-se:
Sebrae: www.sebrae.com.br
Sesc: www.sescsp.com.br;
www.sescrj.com.br.
Senac: www.senac.br
Senai: www.sp.senai.br;
www.rj.senai.br;
www.df.senai.br;
www.pr.senai.br
4 – Converse com gente que atua na área. Além
da possibilidade de fazer novos e ricos contatos, trocar idéias
com profissionais que trabalham nos setores de seu interesse
ajuda a conhecer o que há de positivo e negativo no mercado.
Às vezes, estamos simplesmente idealizando algo fora
da realidade. Daí, é melhor mudar de rumo antes
de investir tempo e energia.
5 – Investigue quais são seus talentos adormecidos.
Comece fazendo uma lista de tudo em que você gostaria
de trabalhar. Quem sabe você descobre um ou vários
novos talentos, que podem levá-lo a uma nova área
promissora?