ESPIRITUALIDADE

Meditação, aliada de toda hora

Meditar é uma estratégia de sobrevivência nestes tempos que exigem clareza de pensamentos e emoções. Pela simplicidade e eficiência, essa prática vem ganhando milhares de adeptos, que conseguem manter o equilíbrio mesmo em meio a muita instabilidade. Veja o que dizem mestres e praticantes e não hesite: agora é sua vez!

Encontrar uma posição confortável, silenciar, prestar atenção na respiração e observar, com calma, o que se passa dentro de você. Para meditar não é preciso mais que isso. Essa prática começa e termina em seu interior, seja nos picos nevados do Himalaia, seja no engarrafamento da avenida Paulista.

É essa combinação de simplicidade e eficiência que tem levado milhões de pessoas a encontrar na meditação a saída para uma vida mais equilibrada e feliz.

Ordem no caos
Em um mundo tecnológico e acelerado como o nosso, meditar, para muita gente, virou um instrumento poderoso e acessível para driblar o estresse e as tensões. É o caso da artista plástica Paula Gama, 32 anos, que medita há 12. “O estado de relaxamento que alcanço meditando permite que eu fique bem-disposta o dia todo. Quando sinto que estou perdendo pique ou começando a me irritar com alguma situação, paro o que estou fazendo, onde estiver, confiro dentro de mim o que realmente estou sentindo, respiro várias vezes e me refaço”, revela.

Para Paula, meditar trouxe ainda um benefício adicional: a regularidade da prática a livrou de uma alergia crônica, que resistia a vários tratamentos. “Era de fundo emocional e relacionada a estresse. A meditação ajudou e ajuda a regular minhas emoções e minha saúde. Troquei os medicamentos por esse método fisiológico e sem efeitos colaterais”, comemora.

Antidepressivo natural
Se, durante muitos anos, a meditação teve ares de prática restrita a quem desejava se isolar do mundo para alcançar a iluminação ou se reencontrar com Deus, sua disseminação recente a tingiu de novas aplicações e funções. Em muitos países, inclusive no Brasil, é usada em escolas, hospitais e até prisões. “A meditação melhora a memória, a atenção, a agilidade motora e reduz o estresse. No Hospital São Paulo, a adotamos rotineiramente para tratar pacientes com ansiedade e depressão. Os resultados são muito bons”, afirma o psicólogo José Roberto Leite, chefe da Unidade de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à qual o hospital é ligado.

Descobertas interiores
Isso não quer dizer que a meditação não seja uma alternativa para quem tem motivação espiritual ou religiosa. Todas as religiões do mundo, do cristianismo ao islamismo, têm práticas meditativas que deram origem às técnicas ensinadas atualmente. “A meditação é um processo de descoberta dos recursos interiores. Em seus níveis mais profundos, pode revelar a essência divina que cada um possui e que é fonte inesgotável de poder, força, paz e conhecimento”, observa o professor de meditação swami Nirmalatmananda, diretor da Ordem Ramakrishna (ordem hindu), em São Paulo.

O principal atrativo, no entanto, para um grande número de adeptos ocidentais da meditação é o autoconhecimento, a possibilidade de se relacionar de forma mais harmoniosa consigo mesmo, com outras pessoas e situações. “Ninguém ensinou como melhorar nossa atenção, o impacto das emoções em nossa vida, o que fazer para acalmar corpo, coração e mente, como integrar nossas energias. Não fomos alfabetizados sobre nós mesmos. Com a meditação, temos a oportunidade de contatar e compreender nosso mundo interior, de criar um eixo”, descreve Lia Diskin, coordenadora da Associação Palas Athena Centro de Estudos Filosóficos, que promove cursos de meditação.

Construa seu eixo

Para acessar e consolidar esse eixo interior, basta pouco tempo diário. Cerca de 15 minutos, duas vezes por dia, são suficientes para iniciar mudanças na vida dos praticantes. Para quem tem disponibilidade para meditar mais, melhor ainda, de preferência duas vezes por dia. “A meditação transforma: as pessoas ficam mais tranqüilas, mais fortes e libertam-se de emoções destrutivas (como medo, raiva, preocupação) e passam a agir com a atenção focada no presente”, resume swami Nirmalatmananda.

O tempo que esses efeitos levam para ocorrer varia de pessoa a pessoa e tem pouco a ver com a duração da seção. O que conta, dizem os especialistas, é a firmeza de propósito, a disciplina e a constância. “Meditar é como um exercício físico. É melhor fazer 15 minutos todos os dias do que duas horas no fim de semana”, orienta Walter Morita, professor de meditação do Centro Shambhala Brasil de Meditação e Estudos Budistas.

Encontre um oásis no olho do furacão
O objetivo da meditação não é esquecer os problemas, fugir do mundo, se trancar no quarto para se proteger da realidade e criar uma ilha de paz. O ritual que as várias escolas de meditação usam, como sentar com a coluna alinhada, prestar atenção na respiração ou repetir mantras – sons circulares sagrados —, é importante porque ajuda você a se disciplinar e sua mente a se concentrar.

Porém a meditação não se restringe a isso. A idéia é aplicá-la no dia-a-dia, usá-la para ficar alerta, bem-disposto e lidar melhor com os desafios. É manter um centro de paz e equilíbrio no olho do furacão. “Meditar é como encontrar um oásis no deserto. Bebo dessa fonte e me renovo, não para ficar parada ali o resto da vida, mas para seguir adiante. A meditação ideal deve durar 24 horas”, afirma a monja Coen, fundadora da comunidade zen-budista Zendo Brasil.

Segundo ela, o segredo, quando surgirem estresse ou irritação, é prestar atenção na respiração e no corpo e se manter presente no que está fazendo – atender ao telefone, levar o cachorro para passear ou ir ao supermercado... “Isso pode ser feito no trânsito, ao caminhar, em qualquer lugar. É uma questão de exercitar a atenção. Se for beber água, sinta a textura do copo, ouça o som da água, sinta o sabor e a temperatura em sua boca. Isso não dura mais que quatro segundos. E é pura meditação”, ensina.

Para limpar sua mente
Há muitas técnicas que conduzem a mente à tranqüilidade. Elas podem ser divididas em quatro grupos com diferentes focos.

• Foco em objeto, imagem ou som. Há as práticas hinduístas e budistas que utilizam como foco sons (mantras), cores ou formas geométricas. Os praticantes focalizam um ponto e fazem com que pensamentos e emoções se direcionem a ele.

• Foco no corpo. É o caso das técnicas que se concentram na respiração, nas batidas do coração ou na pulsação do corpo. Por exemplo, no zazen, do budismo japonês, os praticantes focalizam a atenção na entrada e na saída do ar. No tantrismo, prática hinduísta, se concentram nas pulsações e, no taoísmo, baseado na filosofia chinesa, no batimento cardíaco.

• Foco na reflexão. Os praticantes meditam a respeito de determinadas qualidades, como perdão, compaixão e amor incondicional.

• Foco na devoção ou na fé. O foco da meditação são divindades, o próprio Deus, orações ou textos sagrados. Exemplo: meditação cristã e bhakti-ioga.

Um passo-a-passo para começar já
O primeiro passo para quem deseja começar a meditar é ter a motivação para se tornar uma pessoa melhor. O segundo, estar disposto a manter o mínimo de disciplina para não deixar outras coisas interferirem nesse propósito. O terceiro é criar referências que ajudem a recuperar o eixo durante o dia. A receita é de Lia Diskin, coordenadora da Associação Palas Athena Centro de Estudos Filosóficos, de São Paulo. “Deixe para si mesmo pequenos lembretes que o ajudem, durante o turbilhão do dia, a retornar a seu centro, como uma frase inspiradora na agenda. Por exemplo, o líder espiritual hindu Mahatma Gandhi grudava frases e pensamentos edificantes no espelho do banheiro. Eles funcionam como monolitos em sua paisagem interna”, ensina Diskin.

Veja abaixo outras recomendações – muito práticas – de Walter Morita, professor de meditação budista, e de swami Nirmalatmananda, diretor da Ordem Ramakrishna, para quem deseja meditar.

Escolha um horário que não atrapalhe seu cotidiano nem sirva de desculpa para não meditar. As melhores opções são antes do nascer e do pôr-do-sol, porque nesse momento as energias são mais tranqüilas e favorecem o trabalho interior. Se não forem viáveis, escolha outra hora. O importante é manter a regularidade.

Reserve um espaço apenas para meditar, nem que seja um pequeno canto. Crie um ambiente inspirador, que o motive a retornar para meditar. Se desejar, monte um pequeno altar com imagens de divindades ou símbolos significativos, flores frescas, incenso, o que agradar. Esse é o espaço de seu encontro consigo mesmo.

Se possível, tome um banho e vista uma roupa limpa. Separe uma roupa apenas para praticar meditação. Evite o pijama porque ele sugere sono.

Faça alguns alongamentos antes de sentar-se com a coluna, a cabeça e o pescoço alinhados. Apóie as mãos sobre as coxas. Sinta-se confortável na posição. Use uma almofada firme, que dê a sensação de estabilidade – cadeira, poltrona, o que quiser, mas evite meditar na cama.
Mantenha os olhos fechados ou semi-abertos. Se sentir sono, abra-os. A meditação é para despertar, não para dormir.

Preste atenção na respiração. Sinta o ar entrando e saindo pelas narinas, o trajeto dentro de você, a temperatura. Apenas observe, sem alterar o ritmo. Quando pensamentos vierem à mente, volte a se concentrar na respiração. Você pode imaginar que, ao inspirar, a pureza entra em seu corpo e, ao expirar, as tensões são liberadas.

Faça isso por 15 minutos ou até sentir que a mente se aquietou. Aumente o tempo gradualmente.

Encerre com um agradecimento ou uma oração pela saúde de todos os seres humanos e da natureza. Mexa braços e pernas devagar e volte para sua rotina.

A saúde agradece
Meditar não é bom apenas para a mente – ela também melhora a saúde. É o que demonstram mais de mil estudos sobre essa prática milenar realizados em alguns dos mais expressivos centros de pesquisa científica do mundo, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a Universidade de Harvard e a Universidade da Califórnia. Eles comprovam que meditar...

• Reduz o risco de infarto e derrame cerebral.

• Reforça o sistema imunológico.

• Reduz ainda emoções destrutivas, como medo e raiva.

• Aumenta a produção de hormônios calmantes e reduz o nível de cortisol, o hormônio do estresse.

• Alivia a insônia.

• Melhora a percepção e a memória.

Oito presentes da meditação
“Somos como uma princesa que se perdeu na floresta e não conseguiu retornar ao palácio. Ela ficou na companhia de animais selvagens, aprendeu a linguagem deles e se esqueceu de quem era. Foi o que aconteceu com todos nós.” Essa é a imagem que o iogue BK Nirwair, secretário-geral da Universidade Espiritual Mundial Brahma Kumaris, utiliza para ilustrar o alcance da meditação. O mestre indiano acredita que um dos principais méritos dessa técnica milenar é ajudar a reencontrar o eu verdadeiro – a parte nobre que existe em cada um e que abriga os pensamentos, sentimentos e ideais mais elevados.

Outro grande benefício da meditação, aponta ele, é reativar o contato do praticante com o Universo, com o Cosmo ou com Deus, como ele prefere designar, e ajudá-lo a extrair desse relacionamento a matéria-prima para se transformar. “Usamos a mente e os pensamentos positivos para elevar nossa consciência e melhorar a qualidade das emoções e dos padrões de pensamento. Ficamos mais pacíficos e adquirimos o autocontrole para lidar melhor com a complexidade do mundo”, explica o mestre Nirwair, que esteve aqui participando da comemoração dos 25 anos de atividades da Brahma Kumaris no Brasil.

A meditação ensinada pela organização (que não tem fins lucrativos e é sediada na Índia) é baseada na raja- ioga e não inclui posturas físicas nem exercícios respiratórios. Os praticantes sentam com a coluna alinhada e voltam a atenção para seu mundo interior. Em seguida, criam pensamentos positivos baseados em atributos como amor, felicidade e paz. O objetivo é transpor essas qualidades para o dia-a-dia. “Quando adquirimos uma consciência mais elevada sobre nós mesmos, ganhamos força interior”, ensina Nirwair.

Pela ótica da Brahma Kumaris, a prática regular da meditação promove o desenvolvimento de oito atitudes ou poderes principais:

Poder de introspecção – Revela a beleza interior e ajuda a desenvolver a auto-estima.

Poder de tolerância – Aumenta a capacidade de manter o equilíbrio diante de desafios externos e internos.

Poder de ajustamento – Aumenta a flexibilidade, a capacidade de lidar com mudanças e com as diferenças entre as pessoas.

Poder de discernir – Expande a capacidade de fazer escolhas afinadas com os valores e princípios internos.

Poder de decidir –
Agiliza as escolhas e facilita assumir a responsabilidade pelos resultados

Poder de enfrentar – Ajuda a lidar com os desafios sem fugir ou protelar.

Poder de cooperar –
É a capacidade de apreciar o valor único de cada pessoa.

Poder de empacotar –
É a capacidade de se libertar do passado, deixar de lado o fardo das mágoas e ressentimentos, abrir-se para o presente e recriar o futuro.

Quando os pensamentos perturbarem sua mente, volte a atenção para a respiração
Encontre um oásis no olho do furacão
Meditar relaxa o corpo e deixa a mente e os sentidos mais despertos
“Quem conseguir ver o que está por trás da alegria e da tristeza vislumbrará a grande paz”
Mestre budista Hsing Yün, autor do livro Purificando a Mente (ed. Editora de Cultura)
Meditar faz bem para o corpo e para a saúde.

Texto: Fanny Zygband

Agosto 2004

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