Esse casamento aconteceu por acaso. A ceramista paulista Caroline Harari colecionava rendas e resolveu imprimir uma delas na argila, só de brincadeira. Essa paquera deu certo e elas ficaram unidas para sempre em peças delicadas e resistentes.
HARMONIZAÇÃO

A renda casou com o barro

Um encontro e tanto aconteceu na vida da paulista Caroline Harari. Ela é historiadora, especializada em arqueologia e restauração e, com olhar de pesquisadora, observava o artesanato e colecionava rendas e bordados de todas as épocas e partes do mundo. Chegou até a catalogar centenas de exemplares e organizou várias exposições no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

Paralelamente, começou um curso de cerâmica. Aprendeu várias técnicas, mas não conseguia nem a simplicidade e precisão das peças feitas pelos orientais nem tinha jeito para fazer os efeitos geométricos empregados por outros artistas. Ela confessa que foi por essa inabilidade que descobriu um estilo próprio e original. “Um dia peguei uma das rendas e imprimi na argila, usando uma antiga técnica dos índios e dos africanos. Deu certo e encontrei meu caminho entre a história e esse artesanato tão rico e apaixonante”, conta Caroline.

Já com a renda decalcada, a argila vai ao forno a temperaturas que variam de 0 a 1300o C. Assim a peça ganha resistência sem perder a delicadeza.

Sempre impecáveis
“Com o tempo as rendas ficam vulneráveis, mancham, emboloram. Quando viram cerâmica, suas belas tramas se revelam e não precisam ser alvejadas ou engomadas. Estão perfeitas, práticas, duradouras”, diz a artista. “E elas nos impõem uma viagem ao romantismo do passado, nos lembram que muitas mulheres imigrantes chegaram ao Brasil apenas com suas agulhas e aproveitavam o tempo mais lento para bordar e adornar os tecidos. Assim os muitos saberes do Oriente e da Europa se juntaram nas rendas e nos bordados, que hoje deixam de ser utilitários para serem emoldurados como arte”, conta Caroline.

São muitos os tipos de renda e também as cores da argila – no Brasil são encontrados 275 tons diferentes, que passeiam pelos ocres, laranjas, amarelos, crus. O que provoca infinitas combinações.

Agora, Caroline se prepara para representar o Brasil na Bienal Internacional de Design, em Saint Etienne, na França, com mais delicadezas. “Estou fazendo cântaros de argila terracota brasileira, adornados com os principais tipos de renda nacional.”

Ela também se dedica a transportar para a cerâmica a variada textura de cestos indígenas feitos de palha. “A argila é barro com água e, quando é esticada por dentro dos cestos, imprime a textura deles e, quando seca, solta naturalmente da fôrma”, explica Caroline. E assim ela segue casando os materiais e resgatando as raízes de nossa cultura.

Caroline prepara, em seu ateliê, cântaros com rendas brasileiras para expor na França.
No Brasil, existem 275 tipos de argila de cores diferentes, como a terracota (alaranjada) e a amarela do bowl ao lado.
As tramas dos cestos indígenas, trançados com palha, dão relevo à cerâmica.
Depois de amassar bem a argila, a ceramista carimba a renda no barro e corta as laterais para dar o contorno. Então, transporta para uma fôrma de gesso, pressiona bem, retira a renda e, depois de 15 dias de secagem, leva ao forno a 1 3000 C, o que confere resistência à peça.


Texto: Liliane Oraggio
Reportagem Fotográfica: Samir Zavitoski
Fotos: César Cury

MAIO 2004

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