FENG-SHUI

Tudo azul
O primeiro pigmento azul foi criado pelos egípcios. Garrafas de leite pintadas da Jacaré do Brasil, almofadas da Larmod e cortina do Espaço Til.


A cor do planeta, do céu e do mar é a preferida da maioria das pessoas e já foi multiplicada em infinitos tons, que vão do suave ao mais profundo. Seja qual for a nuance, quando tinge objetos, roupas e ambientes, o azul vibra serenidade e afeto.

Essa cor que azuleja o dia, como já disse Djavan, azuleja também a alma. Pacifica. Estar tudo azul é estar tudo bem – vestir-se com uma peça dessa cor é intencionar que assim seja. Quando trazemos o azul para perto em roupas, objetos e acessórios, um pouco de afeto vem junto. O azul aquieta e equilibra. Talvez por isso tantas pessoas a escolham como cor preferida.

Entre elas está a artista plástica baiana Viga Gordilho. Ela defendeu uma tese de doutorado sobre o azul em 2003. Cantos, Contos e Contas: uma Trama às águas como lugar de passagem é o resultado de quatro anos de pesquisa, em que Viga relacionou lugares, céus e rios e a memória que esse azul traz.

Da Bahia a São Paulo, Espanha, Alemanha e África do Sul, passando pelos rios Paraguaçu (na baía de Todos os Santos, em Salvador), Tietê (São Paulo), Turia (Valência), Reno (Hagen e Essen) e Orange (na província de Mopu-Malanga), respectivamente, a pintora circulou pelo mundo procurando pigmentos naturais e observando a influência emocional dessa cor. “Para mim, o azul é o território da afetividade. Lembra a água que, no caso dos africanos, representa a dor de atravessar o mar como escravo rumo a outro continente. Mas também é a água que faz sonhar com o regresso a terra mãe”, diz.

Azul na arte
Em sua pesquisa, Viga descobriu que o primeiro pigmento azul foi desenvolvido no Egito antigo. Era o lápis-lazúli, um dos mais belos azuis do mundo, conhecido também como ultramarino porque era extraído no Afeganistão e no Egito e atravessava a Rota da Seda (caminho por terra que ligava a China e a Índia aos portos do Mediterrâneo) e o mar até chegar à Europa. Esse tom, igual ao da pedra anil, foi redescoberto nas obras de um dos maiores expoentes da pintura: o italiano Ticiano (1477-1576).

Cor para sempre
Em um trabalho minucioso, pesquisadores da National Gallery, em Londres, removeram o verniz que cobria quadros do pintor e encontraram o azul de Ticiano tal qual ele era no princípio. Em parceria com a empresa de tecnologia em imagem e impressão Hewlett-Packard, o museu conseguiu eternizar essa cor. A obra foi arquivada em um servidor gigante da HP de forma que as gerações futuras possam apreciar essa tonalidade mesmo que o tempo desgaste a obra-prima original.

O azul vai além da beleza para o artista plástico francês Yves Klein (1928-1962). Ele enxergou a essência da cor. Suas imensas telas monocromáticas já foram comparadas a plataformas de meditação. Basta observá-las por um tempo prolongado para entrar em estado de quase transe. Para Klein, o azul unifica céu e terra, diluindo a linha do horizonte e expandindo o infinito. Antes de o primeiro homem ir ao espaço, Klein já tinha declarado, em 1957, que a Terra é azul. O astronauta soviético Yuri Gagarin confirmou isso quatro anos depois.

Azul na natureza
A maneira como o azul se expressa na natureza é infinita e rara ao mesmo tempo. Parece que ele se contenta em representar o planeta, o espaço, o céu e o mar e por isso só irá aparecer em pouquíssimas flores e nenhum alimento. “O azul nutre apenas a alma”, enfatiza a pintora Viga, que também é professora da Universidade Federal da Bahia.

Tom espiritual
O tom celeste evoca a pureza. “Digo para meus alunos que, se os anjos existem, estão no céu em um dia limpo e claro”, conta a professora.

“Não é à toa que essa cor está associada a nossa porção mais divina, aquilo que transcende o material e se torna imaterial”, diz o arquiteto João Carlos Cesar, de São Paulo.

Hoje essa cor está no jeans, mas o azul já foi associado à nobreza e à sabedoria, justamente por vir do alto. “Em geral, o conhecimento vem de planos superiores”, justifica o arquiteto. Ele lembra que a lenda do pássaro azul, metáfora da felicidade inacessível, nasceu dessa analogia da cor azulada com o inalcançável. Por que o azul? Quem sabe porque é a cor do sentimento profundo. Aquela que faz a gente compreender que tudo é uma questão de ponto de vista.

E de dose. “Segundo a cromoterapia, o azul diminui o ritmo respiratório, reduz a tensão e acalma. Mas em excesso, leva à fadiga e à depressão”, recorda a artista plástica Sandra Tucci, professora de teoria da cor do Senac, de São Paulo.

Em inglês, a expressão “I’m blue”, que ao pé da letra quer dizer “eu estou azul”, significa na verdade um estado melancólico. “Senti essa tristeza às vésperas de uma exposição para a qual tinha produzido 18 telas azuis”, lembra Viga Gordilho. “A solução foi pintar todas as telas de branco e, com um estilete, raspar os trabalhos. Assim, eu redescobri o azul e me reencantei com ele.” Porque o azul é ternura...

Sacola do Ateliê Kozman, camisa British Colony do Clube Chocolate, calça da Levi’s, vestido da Desde Ásia.
A pedra lápis-lazúli deu origem aos primeiros pigmentos azuis. Porta-retrato da Conceito: Firma Casa e tecidos da Larmod.
Toalha da Casa Almeida, sousplat e bowls da La Provence, pratos da L’Oeil, guardanapos de Jorge Elias.
O azul-claro evoca a pureza.
Toalha da Casa Almeida, luva para banho e sabonete da Originallis, escovinha e xampu de algas marinhas da Olfateria.
Máquina antiga da Singer.
Manta de lã xadrez da Trousseau, fronha listrada da Casa Almeida, manta do Espaço Til e lençóis do Mundo do Enxoval.
Em roupas e objetos o azul marca presença.
Bandeja de Jorge Elias, copos e Jarra da Arango, camisa do Clube Chocolate, pulseira da Conceito: Firma Casa.
Almofadas da Larmod (listrada e estampada), da Cor do Sol (pequena azul), da L’Oeil (de seda), do Espaço Til (com bolas), manta da Trousseau (ao fundo).
Na vida, essa cor sempre pacifica.
Manta da Cor do Sol, pratos de Jorge Elias, galocha à venda em lojas de materiais para construção ou jardinagem.


Texto: Kátia Stringueto
Reportagem Fotográfica: Camile Comandini
Fotos: César Cury

MAIO 2004

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