Compreender o sentido de nossa função, e nosso papel na imensa cadeia da prosperidade, é fundamental para superar os desafios diários
ESPIRITUALIDADE

Bendito ofício
de cada dia


Nem só de eficiência, firmeza e responsabilidade se constrói o sucesso profissional. Veja por que valores humanitário como amorosidade, tolerância e compaixão, são cada vez mais importantes e devem ser tão priorizados quanto concluir uma tarefa urgente ou atingir as metas da empresa


A culpada deve ter sido a serpente: não fosse por ela, Adão e Eva não provariam a maçã e desfrutariam eternamente a boa vida do jardim do Éden, sem ter de conseguir sustento à custa do “suor do próprio rosto”. Para nós, que vivemos tão longe do Paraíso, o trabalho concentra a maior parte de nossa energia e passamos mais tempo com os colegas (não escolhidos) do que com a família ou os amigos. Só agruras? Não, é o trabalho que nos faz prosperar e aprimorar a maneira de estar no mundo.
Às vezes fica difícil, porém, sentir que nosso ofício ou emprego estão conectados a aspectos subjetivos muito importantes. “Boa parte das pessoas encara o trabalho como algo distante do coração. E não precisa ser assim”, diz Elizabeth Mattoso Maia, gerente de recursos humanos da Cia. Caminho Aéreo Pão-de-Açúcar, do Rio de Janeiro, que observa o desempenho dos funcionários pela ótica dos valores humanitários.

Para manter o eixo

Por mais que nossa profissão seja prazerosa e recompensadora, nunca é algo que nos realiza totalmente. Sempre existem aspectos que provocam tédio, irritação, cansaço. O próprio dicionário Aurélio define trabalho como “tarefa, obrigação, responsabilidade, esforço incomum, luta, faina, lida”... Ufa, que angústia!
O primeiro passo para aliviar essa sensação de peso é estar consciente de que o desempenho profissional é quase um teste permanente para nos mantermos no eixo, suportando, muitas vezes, condições ruins de trabalho, má vontade dos colegas, cobranças do chefe exigente. Ao mesmo tempo, devemos dar o melhor de nós, para continuarmos trabalhando e também por que somos pagos para isso. “No começo, eu achava que o trabalho deveria ser o paraíso, e o convívio com os colegas uma espécie de casamento”, conta a editora de arte Sonia Regina Aversa, de São Paulo. “Com o tempo, percebi que cada pessoa tem seus valores e o quanto é necessário ser flexível para conviver com as diferenças.”
Essa sabedoria vale na hora de disputar uma vaga no mercado de trabalho: “Ao contratar, deve-se levar em conta não apenas o conhecimento técnico do funcionário mas também a facilidade de relacionamento, a capacidade de comunicação e a auto-estima equilibrada”, observa Alkíndar de Oliveira, consultor na área de comunicação, diretor da Escola de Líderes, de São Paulo, e autor do livro Espiritualidade na Empresa (ed. Buterfly). “As empresas estão apostando na diversidade, por acreditar que, quanto mais variadas forem as formações e crenças no quadro de empregados, mais haverá criatividade e inovação”, relata Alkíndar. “Como conseqüência, temos a nossa volta pessoas muito diferentes de nós e precisamos desenvolver as habilidades da boa convivência para sermos bem-sucedidos.” (veja o quadro na próxima página.)
“Antigamente, eu passava por muitas situações de estresse ao querer que os outros vissem as situações de meu jeito”, lembra a educadora e terapeuta Kátia Rêgo, de Recife. “Participando de grupos de estudo de espiritualidade e autoconhecimento, aprendi a exercitar a inteligência e a competência sem esquecer de praticar a paciência e a tolerância com os colegas”, diz.

Sabedoria na rotina

“Nas asperezas do presente, na frustração do trabalho diário é que encontramos o divino”, afirma o engenheiro americano Les Kaye, que durante 30 anos uniu a prática do budismo zen (escola fundada no Japão no século 13) com a carreira de alto executivo na IBM e escreveu o livro Zen no Trabalho (ed. Cultrix). “Percebi que as virtudes enfatizadas no zen não eram diferentes das qualidades que a IBM incentivava nos funcionários: integridade, moralidade, disciplina, disposição de aprender, atenção aos detalhes, responsabilidade e perseverança.”
Outro engano comum é acreditar que o desempenho profissional nos obriga a professar valores opostos a nossa maneira de ser e pensar. “Somos levados a crer que eficiência, competitividade e firmeza são mais importantes que valores humanitários, como amorosidade, doçura e compaixão”, observa Cominato. Segundo o executivo, certas pessoas, para exercer liderança, se mostram impositivas, controladoras, sisudas. E reprimem sua verdadeira natureza, afetiva, aberta, com medo do risco das puxadas de tapete. “Pessoas de sucesso são as que sabem oferecer um sorriso, um gesto de colaboração a quem quer que seja”, ressalta.
“Quando conseguimos dar um sorriso no meio de um conflito, com certeza o caminho fica menos árduo”, observa Sonia Aversa.

Tarefa de formiga

Há um ditado budista que diz: “Antes da iluminação, corte lenha e carregue água. Depois da iluminação, corte lenha e carregue água”. Ou seja, mesmo com um nível de entendimento mais elevado, nada garante que as tarefas cotidianas se tornarão menos cansativas ou entediantes. A experiência do cansaço, do tédio ou da frustração poderá continuar, mas terá uma qualidade mais consciente e sintonizada com seus valores internos.
O consultor Alkíndar de Oliveira cita uma frase do escritor americano Po Bronson no livro O Que Devo Fazer da Minha Vida? (ainda inédito no Brasil): “Os que encontraram seu lugar no mundo não costumam dizer apenas que seu trabalho é excitante e desafiador. Em vez disso, dizem o quanto encontram nele sentido e capacidade de proporcionar realização pessoal”.
Toda tarefa, por mais maçante e repetitiva, tem um sentido maior. Como exemplo, o consultor Alkíndar conta sobre um workshop que deu recentemente em uma empresa que produz chapas de aço para fogões e onde havia conflitos causados pela falta de motivação dos funcionários. “Disse a eles o quanto os fogões são importantes no processo de transformação dos alimentos para a manutenção da vida. Isso os motivou”, lembra.
“Meu trabalho é igual todos os dias”, diz a bancária Jaqueline Braga Medeiros, de São Paulo, que faz desbloqueio e venda de cartões de crédito. “Chego, entro no sistema, vejo os clientes pendentes, ligo para eles e encontro pessoas grosseiras do outro lado da linha... Às vezes, essa rotina me desanima. Mas logo reflito que meu trabalho de formiguinha se soma ao de todos os outros colegas da agência.”
Com esse tipo de consciência, questões secundárias já não incomodam tanto e as pequenas disputas diminuem, acredita a gerente de recursos humanos Elizabeth Mattoso Maia. “É claro que existem pessoas que não se adaptam a determinadas tarefas. Nesse caso os valores espirituais ajudam a ter clareza e ousadia para largar o que não serve e traçar novos rumos.”

Um sorriso, uma gentileza fazem toda a diferença no trabalho

Oito atitudes para melhorar seu dia-a-dia
A chave para mudar o padrão das relações viciadas ou desgastadas, transformar a rotina e recuperar o espírito de entusiasmo e cooperação está em cultivar atitudes baseadas na espiritualidade. Veja as sugestões do consultor Alkíndar de Oliveira, de São Paulo.

• Procure em seu trabalho um sentido maior do que apenas um meio de sobrevivência. Por menos gratificante que seja sua função, ela é um elo na imensa cadeia de trabalho que traz prosperidade e bem-estar coletivos.
• Identifique seus dons e habilidades. Ter consciência de que você é a pessoa certa no lugar certo é fundamental para a realização. A competência tem relação direta com o prazer. Avalie se sua função preenche sua necessidade de satisfação pessoal. Se não, é hora de começar a pensar em mudar de emprego ou profissão.
• Aceite e compreenda as diferenças. Procure ver os aspectos positivos que todos nós temos e exercite a capacidade de perdoar e se colocar no lugar das outras pessoas. Isso evita atritos e desgastes desnecessários.
• Aprenda com a diversidade de pontos de vista. Pessoas com formação cultural, idade ou nível social diferentes do nosso têm muito a nos acrescentar. Tente se abrir para quem parece diferente de você.
• Exercite o afeto e a gentileza com chefes e colegas. Um sorriso ou um gesto atencioso são suficientes para tornar as relações mais amistosas e produtivas. Seja como um ponto de luz no seu ambiente de trabalho.
• Acredite que você tem vasto potencial a ser explorado. Às vezes perdemos chances de expansão ou mudança na profissão por não apostar em nós mesmos. É o caso de quem acha não ser capaz de aprender outro idioma.
• Viva o momento presente. Um dos princípios do budismo destaca a importância de estar sempre focado no momento presente e fazer todas as coisas como se fosse a primeira vez. Isso nos dá motivação e nos conecta com nosso foco.
• Equilibre trabalho, família e espiritualidade. Dê a devida atenção a cada uma dessas áreas da vida, sem achar que uma é mais importante que outra.

Será egoísmo
“Redesenhar” pensamentos e ações a todo momento é o segredo para viver de modo autêntico, mesmo que as circunstâncias não sejam (ou não pareçam) favoráveis, segundo o psicólogo holandês Robert Happé. “Se raciocinamos de uma forma egoísta, nos isolamos dos outros colegas, estimulamos a má competição e nunca conseguimos a cooperação alheia. É preciso transformar o controle em confiança, a competição em cooperação, o conflito em negociação”, diz ele.
Pois, assim como na natureza existem as polaridades — a luz que dissipa a escuridão e o conhecimento que diminui a ignorância —, é possível amenizar problemas recorrentes buscando seu aspecto oposto. Veja as sugestões de Happé e do executivo Marcos Cominato.

Onde existe
• Conflito pratique a cooperação
• Confronto pratique a negociação
• Resistência pratique a aceitação
• Rotina pratique a criatividade
• Marasmo pratique a dinamismo
• Ganância pratique a caridade
• Controle pratique a confiança
• Cobrança pratique a flexibilidade
• Medo pratique a esperança
• Ressentimento pratique o perdão
• Competição pratique o
compartilhamento

 

Texto: Kátia Stringueto
Ilustração sobre foto de Sérgio de Diviitis / Ilustração sobre foto de Paschoal Rodrigues

ABRIL 2004

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