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ESPIRITUALIDADE
Porque o budismo encanta o Ocidente?
Um monge budista, um teólogo
católico e uma intelectual respondem essa intrigante
questão
Por Monge Daiju
O budismo surgiu há 2,6 mil anos, mas
só a partir dos meados do século 20 começou
a ser difundido entre os ocidentais. Até então,
manteve-se restrito ao mundo acadêmico e às colônias
de imigrantes orientais.
Entre os inúmeros fatos que contribuíram para
esse despertar, podemos citar as traduções para
o inglês da obra do professor japonês D. T. Suzuki,
que viveu no século 19. Quase simultaneamente, ocorreu
a vinda para os Estados Unidos e a Europa dos primeiros monges
missionários. O que possibilitou a transmissão
dos ensinamentos por meio da prática, de coração
a coração.
A partir desse momento, vários centros de prática
foram fundados nas grandes metrópoles do Ocidente, despertando
o interesse de intelectuais, estudantes, artistas e espiritualistas,
permitindo o acesso a uma ampla bibliografia.
O que mais impressiona nesse processo, e merece estudos, é
a maneira informal e poética como tem ocorrido. Quase
imperceptível, sem conflitos.
Quando falamos no encantamento dos ocidentais pelo budismo,
não podemos deixar de citar a figura carismática
do dalai-lama – autoridade máxima do budismo tibetano,
líder religioso exilado que recebeu o prêmio Nobel
da Paz e conseguiu dar voz, no cenário internacional,
aos apelos de paz e tolerância que permeiam as diferentes
escolas e interpretações da doutrina de Buda.
O mundo globalizado, o acesso fácil aos meios de comunicação,
o desenvolvimento da ciência e da tecnologia – são
muitos os instrumentos que têm facilitado a nós,
ocidentais comuns, a intimidade com os ensinamentos milenares
do budismo. Além disso, o que tem contribuído
de forma sustentável para seu enraizamento é o
benefício que cada um tem recebido individualmente por
meio da própria prática.
A forma direta e objetiva da prática, circunstanciada
no cotidiano, é de uma simplicidade extrema: se tem fome,
come; se tem sede, bebe.
A cada dia mais pessoas de vários credos têm meditado
à procura dessa liberdade, dessa autonomia dos adornos
que tornaram a prática espiritual elitista e distante
do mundo real.
As ferramentas budistas estão na compreensão de
que tudo é impermanente, na interdependência entre
todas as coisas e todos os seres e no fortalecimento da compaixão:
amar todos os seres e todas as coisas – mesmo as desconhecidas
– como a si mesmo.
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“Monge
Daiju é capixaba, pertence à Escola Soto Zen
do Budismo Japonês. Ordenado no Japão, dirige
o Mosteiro Zen do Morro da Vargem, em Ibiraçu, Espírito
Santo |
Por Frei Betto
O budismo faz tanto sucesso no Ocidente porque
tem características que correspondem às tendências
da pós-modernidade neoliberal. Num mundo em que muitas
religiões se sustentam em estruturas autoritárias
e apresentam desvios fundamentalistas, o budismo apresenta-se
como uma não-religião, uma filosofia de vida que
não tem hierarquias, estruturas nem obedece a códigos
canônicos.
No budismo não há a idéia de Deus nem de
pecado. Centrado no indivíduo e baseado na prática
da ioga e da meditação, o budismo não exige
compromissos sociais de seus adeptos nem a submissão
a uma comunidade ou crença em verdades reveladas. Há,
contudo, muitos budistas engajados em lutas sociais e políticas.
Nessa cultura do elixir da eterna juventude, em que envelhecimento
e morte são encarados não como destinos, mas como
fatalidades, o budismo oferece a crença na reencarnação,
hoje abraçada por Norman Mailer – escritor americano
que criticou com rigor o estilo de vida da sociedade americana,
autor de Os Nus e os Mortos (ed. Record), duas vezes vencedor
do prêmio Pulitzer de literatura.
Acreditar que será possível viver outras vidas
além dessa é sempre consolo e esperança
para quem se deixa seduzir pela idéia da imortalidade
e não se sente plenamente realizado nessa existência.
Outro aspecto do budismo que o torna tão palatável
no Ocidente é a sua adequação a qualquer
tendência religiosa. Pode-se ser católico ou protestante
e abraçar o budismo como disciplina mental e espiritual,
sem conflitos.
Mesclar diferentes tradições religiosas é
uma tendência crescente para quem respira a ideologia
pós-moderna do individualismo exacerbado, segundo a qual
cada um de nós pode ser seu próprio papa ou pastor,
sem a necessidade de referências objetivas.
Como método espiritual, o budismo é de grande
riqueza, pois nos ensina a lidar, sem angústia, com o
sofrimento, a limpar a mente de inquietações,
a adotar atitudes éticas, a esvaziar o coração
de vaidades e ambições desmedidas, a ir ao encontro
do mais íntimo de nós mesmos, lá onde habita
aquele Outro que funda nossa verdadeira identidade.
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“Frei
Betto é mineiro, frade dominicano, teólogo,
antropólogo e escritor, autor de Gosto de Uva (ed.
Garamond), entre outros livros |
Por Dulce Critelli
Não podemos fazer do budismo uma experiência
de raiz porque ele faz parte de uma cultura estrangeira, mas
nem por isso o vemos como algo folclórico ou exótico.
O budismo nos toca como um aroma, cuja maior qualidade é
despertar nossos anseios e nossas necessidades mais essenciais.
Aqueles aos quais a cultura ocidental não dá atenção.
Penso, de imediato, em alguns modos de viver de que nos sentimos
altamente privados: uma vida sem ansiedade, o apoio da tradição
e ter no cosmos um lar.
Para nós, apenas o futuro e a novidade de fato importam
e têm valor. Agimos como se os que nos antecederam, prepararam
e nos legaram não nos pudessem iluminar, alimentar, dirigir
nossa existência.
Mas, assim como a história de nossos pais não
é propriedade exclusiva deles, mas parte de nossa história
pessoal, também nossa tradição faz parte
de quem somos, nos dá identidade. Quando rompemos com
a tradição, nos separamos de nossa própria
origem. Não reconhecemos o lugar que ocupamos na trama
de nossa existência nem a bagagem e as ferramentas (as
heranças) com que começamos nossa vida.
A tradição nos oferece um chão sólido
e firme. Sem ela, tentamos nos equilibrar numa corda fina sobre
um abismo – a ansiedade. O que nos salva, acreditamos,
é o próximo passo, o inusitado, que pode até
não acontecer. Ele nos salva porque nos faria saltar
o abismo rumo à novidade e ao futuro. O que é
um paradoxo, pois, quando todo apoio nos vem do que ainda não
é, permanecemos sobre o abismo.
No horizonte do budismo, pertencer à tradição
também implica em pertencer ao cosmos. Ao mostrar nossa
ligação com tudo o que existe, além de
estarmos integrados ao Universo, o budismo nos dá um
lar. Outro chão que nos abriga de qualquer ansiedade,
pois nunca estamos sós nem relegados a nossa mera individualidade.
Penso que o budismo atrai o Ocidente porque nos ajuda a ver
que a ansiedade, a ruptura com a tradição e o
individualismo são males de nossa civilização.
Males que nos afastam do que é o mais essencial para
nossa simples condição de humanidade.
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Dulce Critelli
é professora doutora de filosofia da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, coordenadora
do Existentia Centro de Orientação e Estudos
da Condição Humana e autora de Educação
e Dominação Cultural (ed. Cortez), entre outros
livros |
ABRIL 2004
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