Por trás dos círculos castanhos, verdes, azuis, milhares de terminações nervosas e células sensíveis à luz trabalham sem parar. Nesse complexo jogo de focos e cores, os olhos norteiam nossos passos, estruturam nossa postura e dão foco à realidade.
BEM-ESTAR

No seu olhar eu vejo...

O ato de abrir e fechar os olhos é aparentemente simples, mas envolve uma cadeia de complexas reações: a cada segundo, eles enviam bilhões de informações para o cérebro. São fragmentos luminosos que convergem à mente como imagens, que se traduzem em impressões sensoriais, moldando nosso comportamento, e marcam nossa alma.

Além disso, nossos olhos são um mecanismo fantástico, capaz de captar cerca de 10 bilhões de gradações de luz e 7 milhões de diferentes matizes de cor. Pode ser difícil imaginar, mas tudo isso está acontecendo a olho nu, agora mesmo, enquanto você lê esta reportagem.

As chamadas janelas da alma também são responsáveis por cerca de 75% de tudo o que percebemos. “São a linha de frente do corpo”, resume a psicóloga e terapeuta ocular Irene Cardotti, de São Paulo, que trabalha com o self-healing (linha de terapia ocular criada pelo israelense Meir Schneider). Os olhos são aberturas pelas quais entramos em contato com objetos, lugares, pessoas. Eles delimitam o espaço por onde trafegam nossas referências. De acordo com Irene, é a visão que orienta os passos, o movimento dos braços, direciona o corpo e deixa as emoções transparentes por meio do choro, do olhar assustado, preocupado, triste, raivoso e brilhante de felicidade ou paixão. “Só se vê bem com o coração”, era o que dizia o Pequeno Príncipe, no livro do escritor francês Saint-Exupéry.

Espelho meu
Há ainda as mil facetas subjetivas do olhar, que dizem respeito à percepção que temos do mundo e de nós mesmos. Fisicamente, os olhos captam o que está a nosso redor, mas também transmitem percepções. “O olho funciona como um projetor de imagens”, compara Iole Lebensztajn, médica e terapeuta paulista de jin shin jyutsu (técnica de harmonização corporal japonesa), que estudou os aspectos físicos e emocionais que envolvem nosso olhar.

Segundo o jin shin jyutsu, o corpo reflete a forma como cada um usa os olhos para perceber o espaço ao redor. “Se me olho no espelho e só vejo defeitos, a tendência é ver defeitos nos outros e na vida”, exemplifica Iole. A visão da tristeza é interpretada como o olhar sobre o que não tenho ou perdi. “Isso corresponde a uma percepção da realidade que pode ser limitada ou falsa”, acredita ela. Quando emoções assim se cristalizam, acontece uma espécie de cegueira da alma, uma incapacidade de enxergar as possibilidades à frente. Aí vale tatear no escuro até recuperar a confiança na capacidade de superar as dificuldades – e desenvolver um novo olhar sobre os mesmos fatos.

Na leitura do olhar pode-se decifrar muitos sentimentos. Na literatura, por exemplo, olhos vermelhos são sempre relacionados à raiva. O que tem fundamento na medicina chinesa. “Para os orientais, os olhos estão relacionados à energia do fígado, ao elemento fogo e aos impulsos de raiva”, confirma o médico acupunturista Marcius Ribeiro Luz, de São Paulo.
Já quando os olhos brilham, é sinal de amor e paixão. O escritor Machado de Assis, em seu romance Dom Casmurro, se perdia nas palavras para descrever os “olhos de ressaca” de Capitu. Um olhar feminino, acreditava ele, é capaz de seduzir e aprisionar o coração masculino.

Em foco
Como diria o escritor alemão do século 19 Johann Wolfgang Goethe, em sua Teoria das Cores, sobre o ato de olhar: “O mero olhar as coisas a nada conduz. Todo o olhar se transforma em considerar, em meditar”. Para ele, um retrato carrega em si não só a imagem do modelo mas também a imaginação de quem vê.

O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, um dos grandes artistas do século 20, avesso às entrevistas e à fama, não gosta de chamar a atenção, como uma forma de manter o foco no outro e não em si mesmo. “Treinei durante toda a vida para passar despercebido com o objetivo de ver melhor”, diz Cartier-Bresson. Para ele, fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.

Por trás da armação dos óculos há quem se surpreenda com o exercício do olhar. A dentista Roseli Masi, de São Paulo, míope desde a infância, preferia ver as imagens sem nitidez a fechá-las por trás da armação. Feita a cirurgia, que corrigiu o problema, seu horizonte se ampliou. “Quando tirei o curativo, a primeira coisa que vi foi a luz de mercúrio do poste em frente a minha casa. Aquele brilho, que foi sempre um vulto, agora estava nítido, me parecia lindo e cheio de cor”, conta.

Um novo olhar
Para a terapeuta ocular Irene Cardotti, de São Paulo, o olho comanda o corpo, e até quem faz uma cirurgia de miopia e deixa de usar óculos passa por um processo de mudanças internas. “Minha vida se divide entre antes e depois da cirurgia. Hoje me sinto mais segura porque consigo ver a expressão no rosto do outro. A sensação que tenho é que, antes, minha vida era um projetor sem foco”, resume Roseli Masi.

Jóias no escuro
Para quem não vê cores e imagens, a referência passa pelos outros sentidos – audição, olfato, tato e paladar –, que se aguçam para suprir a falta do quinto sentido. “As pessoas não lembram qual foi a primeira vez que comeram sozinhas, deram o primeiro passo ou leram o primeiro livro. Eu lembro”, conta a nutricionista Glenda Felipe dos Santos, que perdeu a visão há oito anos, quando tinha 19. Sem os olhos para guiar, a mente perde suas referências, mas o corpo se adapta. “Reconheço uma pessoa pelo cheiro, pela voz, o jeito que ela me toca”, diz Glenda.

O que agora lhe parece belo também passou por uma mudança de valores. Para Glenda, que aprendia braile quando conheceu seu atual marido, a beleza deixou de ser física e não estruturou os caminhos da paixão – muitas vezes por meio de estereótipos. “Só percebi como meu marido é fisicamente depois que começamos a namorar, porque foi quando nos tocamos”, lembra.

Alex José Correia, deficiente visual, resume bem o que é reconhecer as pessoas e ambientes sem auxílio da visão: “Cego percebe, sente”. Alex conheceu a linguagem braile na Laramara, instituição paulista que completou 12 anos recentemente. Lá, quem não enxerga começa a aprender a ganhar novas referências pelo “corredor das sensações”, lugar onde o chão tem diferentes níveis e passa das pedras à areia. Ali, os deficientes visuais descobrem que vão precisar se guiar com a ajuda de uma bengala e com seus instintos.

Ver e enxergar
Elvira Maria Mugia, que dá aulas de violão e cavaquinho para deficientes visuais, aprendeu com eles a perceber um mundo além da capacidade de seus olhos. Elvira desenvolveu técnicas para ensinar melodias mostrando a textura das cordas. E, ao final da aula, ela acredita que também ganha conhecimento.

Um ano e meio depois da primeira experiência de ensinar música a quem não vê, Elvira tem a certeza de que está mais desafiadora e que seus objetivos se multiplicaram. Ela pretende, por exemplo, ajudar deficientes visuais a ingressar na faculdade de música. “Aprendi a ouvir mais, como eles fazem, e a sentir mais os cheiros”, diz. São as sutilezas entre o ver e o enxergar. Como gosta de dizer o fotógrafo Cartier-Bresson, o olhar é sobretudo uma questão de sensibilidade.

Olhos e emoções
Em seu livro Visão Consciente (ed. Mercuryo), o fotógrafo americano e doutor em optometria Roberto Kaplan faz uma relação entre problemas físicos de visão e emoções. É claro que essas informações não bastam para definir seus traços de comportamento, o que exige análise individual e profunda, porém são mais uma maneira de fazer a auto-análise dos sentimentos que incomodam.

Miopia: o comportamento míope, de acordo com Kaplan, pode ser considerado uma forma de personalidade excessivamente voltada para o olhar. São pessoas que querem compreender tudo, buscar explicações e falar sobre o que vêem, mas que, assim, acabam reprimindo muito suas emoções. Isso gera medo, como o medo da intimidade, de ter confiança nos outros e de se comprometer.

Astigmatismo: aqui, a distorção está ligada a sentimentos reprimidos. O astigmatismo é um mecanismo por meio do qual a mente evita olhar informações que estão no inconsciente. Kaplan acredita que o astigmatismo é uma forma de se defender da mágoa e da dor.

Hipermetropia: o campo de visão de quem tem esse problema é uma projeção para fora. Sonha com o futuro e tem dificuldade em lidar com o dia-a-dia. Para Kaplan, a hipermetropia é uma reação às emoções, como a raiva. O desafio é reconheccer e lidar com ela.

Uma foto ou uma pintura revelam o olhar do artista sobre a paisagem
Alfabeto do toque
Os pontos que você vê ao lado formam as palavras “Muitas Felicidades” e são os símbolos do alfabeto braile, usado pelos deficientes visuais. Apesar de não apresentarem conexão lógica para a visão, os pontos em alto-relevo são decofificados por meio do tato. A escrita braile é composta por seis pontos, que formam 63 combinações e representam letras, números, sinais matemáticos, pontuação e notas musicais. A leitura é feita com o toque da ponta dos dedos, que sentem saliências no papel, no teclado de computador ou em lugares em que a informação escrita se faz necessária. As mãos abrem caminho para a mente, permitindo aos deficientes visuais ter acesso ao conhecimento.

Texto: Ana Holanda

Março 2004

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