Um garotinho nascido em Brasília foi batizado com um nome russo e cresceu ouvindo histórias sobre esse país distante e gelado. Na hora de escolher o destino para uma viagem longa, não teve dúvida: Yury Hermuche, 29 anos, editor de arte do site de Bons Fluidos, partiu para Moscou, uma cidade curiosa e multirracial como ele.
VIAGEM

Yury do Brasil vai à Rússia

"Minha viagem começou exatamente quando recebi este nome: Yury. Brasileiro e fruto de muita miscigenação – português, espanhol, negro, índio, japonês e árabe –, desde cedo fui uma incógnita para muita gente. Pessoas que me olhavam e falavam sobre o comunismo e a conquista do espaço, a Guerra Fria e os grandes enxadristas russos. Falavam sobre coisas que eu nunca tinha ouvido, sobre pessoas que só fui conhecer mais tarde, nos livros de história e no cinema. Meu nome, portanto, era uma chave para outro mundo, ou melhor, uma razão para ir até o outro lado do planeta e saber exatamente que imagens eram aquelas que meu nome suscitava em quase todos que conheci em minha vida.”

Chegar lá
“Em outubro passado, embarquei para a Rússia, passei 14 dias em Moscou. Estava finalmente no país do escritor Dostoievski, dos gênios do cinema Tarkóvski e Dziga Vertov, mestres que venerava desde a adolescência. A recepção foi a mais calorosa possível: já no controle de passaportes, as duas funcionárias olharam para mim e para meus documentos muito curiosas. E também vieram com a mesma pergunta, em inglês, com sorrisos adoráveis. “Mas como você se chama Yury?”, disseram, divertidas e confusas, pois nunca imaginaram que alguém tão diferente assim pudesse soar tão semelhante aos seus. Me desejaram boa sorte e foi exatamente com esse tom de simpatia que fui conduzido por esse país muito fascinante.

Um casal de amigos me hospedou. Ele, brasileiro, estudou em Moscou e agora vive entre os dois países. Ela, russa, viveu em Brasília nos anos 90 e, como o marido, é capaz de observações muito interessantes sobre a alma russa, o espírito brasileiro, as diferenças e sintonias entre os dois mundos, que eu julgava meus, ambos – um pelo nome, outro pelo sangue.”

"Minha viagem começou exatamente quando recebi este nome: Yury."

Surpresas no metrô
“Meu primeiro mergulho em Moscou, poucas horas depois de desembarcar, foi uma pequena viagem de metrô, na hora do rush. Com centenas de estações e milhões de passageiros, esses subterrâneos são um universo muito particular e palco de minhas primeiras grandes (e agradáveis) surpresas. Eu estava decididamente numa cidade multirracial. Gente de toda a Ásia, de vários cantos da Europa Oriental e da própria ex-União Soviética circulam pelos trens da capital. Indianos, africanos, árabes, chineses, mongóis, azerbaidjanos, georgianos, ucranianos, egípcios, cubanos, colombianos, moçambicanos... Enfim, gente de todas as cores, de todas as etnias convergiu para Moscou. E a programação cultural da cidade também espelha essa realidade.
Minha segunda surpresa: os russos lêem muito. Demais. Nunca imaginei ver 15 pessoas lendo grossos volumes em uma viagem de metrô. Minha amiga diz que atualmente preferem histórias de detetive, romances melosos e livros escolares, universitários ou técnicos. Foi-se o tempo em que os clássicos russos freqüentavam mais esses trens...”

Até na estação do metrô de Moscou, a arquitetura lembra a riqueza da época dos czares.

Três símbolos em um só lugar
“A praça Vermelha (foto acima), que eu só vira antes nos noticiários de TV quando mostravam as paradas militares durante a Guerra Fria, era uma imagem carregada de conotações negativas: a possibilidade de um conflito nuclear, a divisão do mundo em dois lados antagônicos, a sensação de insegurança em todo o planeta. Mas sabe de uma coisa? Andando pela praça é impossível não gostar daquele lugar. Ela é linda, limpa e tem tudo para ser uma festa.

A catedral de São Basílio, também na praça Vermelha, o mais famoso cartão-postal da cidade, foi construída em 1560, quando o Brasil ainda engatinhava. Dizem que o arquiteto italiano contratado para erguer o exuberante edifício foi cegado por ordem do czar Ivan IV logo após a conclusão da catedral. O motivo? Bem, é que ele não queria ver nenhuma outra catedral parecida em nenhum outro lugar do mundo. Ah, Ivan IV também é conhecido como Ivan, o Terrível.

Senhoras andando são uma imagem muito comum em Moscou. De chapéu e sobretudo da mesma cor, caminham sempre com suas sacolinhas, lentamente, de um lado a outro da cidade.”

A catedral de São Basílio e a velha senhora carregando uma sacola: imagens marcantes na Praça Vermelha.

Faces da história
“Na Galeria Tretyakov – a maior de Moscou e a segunda maior do país –, centenas de retratos exibem uma cultura em desenvolvimento, no meio do caminho entre a Ásia e a Europa. São pessoas que viveram nos últimos quatro séculos, muitos Yurys, Tatianas, Natachas e até o retrato mais famoso de Dostoievski.

Pela manhã, havia visitado a praça Vermelha e achado tudo lindo. À tarde, na galeria, aprendi um pouco mais sobre o lugar e também que, por trás da beleza, existem histórias trágicas.
Em uma das mais de 50 salas do prédio, encontrei um quadro terrível: retratava a praça no século 16. No centro dela, até hoje há uma espécie de palanque ou elevado por onde os turistas passam enquanto se deslocam entre os prédios que delimitam a praça. Pois bem, esse palanque era retratado no quadro como local de execução pública. A praça tão pacífica hoje já foi banhada por sangue, vermelho, intenso.”

A entrada da Galeria Tretyakov.
A suntuosa catedral de Arcangel.

Táxi!
“Uma coisa divertida em Moscou são os táxis. O serviço é largamente efetuado por motoristas comuns, como eu e você, atrás de alguns rublos para aumentar o orçamento. Se você está na rua e precisa de um, é só estender a mão e aguardar um pouco. Só que, como não há taxímetros nesses carros, é preciso chegar a um acordo com o motorista sobre o preço justo para o percurso. Essas negociações em geral são rápidas, mas há situações em que a conversa pode acabar em caretas e portas batendo com desprezo!”

Um entre os muitos carros particulares que funcionam como táxis.

Felizes para sempre
“Na manhã gelada de um sábado, peguei um táxi em direção ao centro da cidade. No caminho, notei que circulavam muitas limusines e veículos decorados com flores e fitas coloridas. Pois é, sábados e domingos são dias de casamento em Moscou. Depois de casar no cartório, cada casal com sua trupe sai pela cidade, visitando monumentos históricos e outros pontos turísticos. É uma tradição russa fazer fotografias de casamento à frente de tanques de guerra, estátuas de heróis nacionais etc. Parei em um dos pontos que oferecia vista da cidade e, em apenas 20 minutos, mais de 12 casais passaram por ali. Bebem, riem muito, dançam, quebram taças, libertam pássaros, voltam aos automóveis e seguem para o próximo lugar. O ritual dura o dia inteiro, com muito champanhe.”

O ritual dura o dia inteiro, com muito champanhe.

Gingado russo
“Visitar uma roda de capoeira em plena Moscou foi um ponto final exemplar para a viagem. Tocavam-se berimbau e pandeiro, cantava-se em português, sem um único brasileiro entre eles. Apenas 60 jovens russos, curiosíssimos com minha presença. Mas não mais do que eu, pois não conseguia acreditar como haviam absorvido tanto nossa capoeira sem nenhum de nós entre eles! Julguei extremamente cosmopolita esse interesse por algo tão distante e específico. Os russos, como os brasileiros, transformam tudo o que tocam. Prova disso foi a apresentação que o mestre fez de mim aos alunos: ‘Pessoal, hoje temos uma visita ilustre. Este é o Yury do Brasil, e esta é a capoeira da Rússia’. Eu me senti em casa...”

No outro lado do mundo, um gostinho do Brasil

Depoimento à Liliane Oraggio
Fotos: Yury Hermuche / Arquivo

MARÇO 2004

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