Grandes recompensas esperam quem se
dispõe a ouvir com atenção. A alma se enriquece no silêncio
da escuta. Em troca, o outro oferece seu coração.
Sete passos para você ouvir atentamente
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Não há delícia maior do que perceber alguém
nos escutando, com toda a atenção. É um prazer encontrar uma
pessoa que acompanhe cada palavra do que estamos dizendo e é
capaz de nos compreender - com todo o coração. Se é bom ser
escutado, também é ótimo escutar, estar disponível para o outro,
com toda a tranqüilidade. "Não é bastante ter ouvidos para ouvir
o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma",
escreveu o poeta português Fernando Pessoa sob o pseudônimo
de Alberto Caiero.
É isso - silêncio dentro da alma. Não dá
para escutar ninguém se os pensamentos estão nos atropelando
sem cessar, se estamos pensando no que temos de fazer daqui
a pouco. É preciso estar calmo, aberto, atento ao momento presente
para poder ouvir com atenção. "Escutar é uma experiência transformadora.
É testemunhar a existência", diz o psicólogo e professor paulista
Miguel Perosa. Ele garante que aprendemos muito sobre nós mesmos
ao ouvir os outros. "É uma forma de nos aproximarmos da nossa
alma. No fundo, as necessidades e buscas humanas são muito parecidas
em sua essência", concorda Silvana Lancia Osti, também psicóloga
de São Paulo.
Algumas pessoas percebem claramente a vantagem
de escutar. "Quando a gente ouve alguém com atenção, dá o sinal
verde para a pessoa se abrir. A relação de troca que se forma
então é muito mais rica e profunda", garante o publicitário
paulista Fernando Montessanto.
A arte da "escutatória"
Escutar é mesmo um grande exercício - que
poucos dominam. "Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado um curso de 'escutatória'. Todo mundo quer
aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir", escreveu o
escritor e psicanalista paulista Rubem Alves no livro O Amor
que Acende a Lua (ed. Papirus). "Saber escutar é esquecer um
pouco de si mesmo enquanto o outro fala", resume com sabedoria
a dona de casa paulista Maria Vaz de Souza, considerada ótima
ouvinte pelo marido e por seus oito filhos. E também quem aprendeu
a ficar quieto esperando o que outro tem para dizer. "Quem fala
demais não deixa o outro falar. E, é claro, não abre espaço
para ouvir", sentencia a experiente Maria. Ela diz, brincando,
que só desenvolveu a arte de escutar porque, quando criança,
jamais comeu carne de xanxã, nome popular de um pássaro preto
de bico vermelho, muito comum no interior de São Paulo. Segundo
a lenda caipira, quem come daquela ave torna-se um falante inveterado.
E um péssimo ouvinte.
Para desenvolver esse silêncio interior,
tão necessário para o florescimento dessa arte, existem vários
caminhos. Alguns podem aprender a escutar ouvindo com atenção
os sons da natureza: o murmúrio de um rio, o barulho da chuva...
O compositor carioca Tom Jobim, por exemplo, aprendeu a ouvir
com os pássaros. Ele costumava se embrenhar pelas matas brasileiras
munido de gravador e flauta transversal. Queria justamente atrair
a atenção dos passarinhos para depois escutá-los com calma.
Jobim acreditava que as aves emitiam o
canto mais sagrado da natureza. Para ele, todas as melodias
provinham daquele cantar. Escutar os pássaros, então, funcionava
como um exercício de refinamento interior, além de aprimorar
o ouvido. Diante deles, a ansiedade desaparecia para dar lugar
ao encantamento. Finalmente, conseguia ficar silente, sem dar
um pio. E depois aplicava esse aprendizado ouvindo atentamente
as pessoas.
Uma pequena resposta
E ainda há aqueles que irão cultivar a
calma interna por meio da meditação. Para aqueles que escolhem
esse caminho, o mestre tibetano lama Gangchen Rimpoche dá um
conselho: parar com nossa mania incessante de fazer perguntas.
Bel César, psicóloga paulista e sua discípula, transcreve no
livro Autocura - Proposta de um Lama Curador (ed. Gaia) um trecho
de conversa de seu mestre com uma de suas pacientes. Depois
de o bombardear com uma série de perguntas insistentes, lama
Gangchen disse a ela: "Hoje você não fará mais perguntas. Amanhã,
também não fará perguntas. Depois de amanhã, a mesma coisa.
Se, no dia seguinte, continuar a não se questionar, é possível
que encontre dentro de você uma pequena resposta. Se continuar
a não perguntar, a cada dia essa resposta irá crescer, e crescer.
Por isso não posso te responder agora. Nesse momento sua mente
só está ocupada com perguntas. Não há espaço para respostas".
Texto: Liane Camargo de Almeida Alves
Reportagem: Lina de Albuquerque
Ilustração: Regina Stella
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