BEM-ESTAR
Em grupo, tudo fica mais fácil


Doenças graves, dependência química, compulsão por compras ou comida, perda repentina de entes queridos. Esses são apenas alguns dos temas discutidos nos grupos de auto-ajuda, que provam: compartilhar a dor com quem vive o mesmo problema é fonte de cura e coragem.
Os primeiros grupos de auto-ajuda surgiram na Inglaterra, no final do século 19. Mas foi na década de 1930 que a prática de juntar forças em torno de um problema comum ganhou fôlego, com a fundação dos Alcoólicos Anônimos (AA) nos Estados Unidos, que estabeleceu os parâmetros de formação de todas as irmandades que levam a palavra anônimo no nome. Baseada em 12 passos - o primeiro deles é admitir que se tem um problema -, a estrutura proposta pelo AA foi adaptada para as mais diferentes causas e hoje serve a quem tem compulsão por comida, envolve-se em relações destrutivas ou é muito tímido, entre outras vertentes. Tamanho sucesso se deve à identificação: é um alívio encontrar pessoas que vivem o mesmo problema e estão dispostas a partilhar experiências de igual para igual. Os participantes passam a se conhecer melhor, a gostar de si mesmos, a ter ânimo para vencer. Mas a dinâmica só funciona para quem vai às reuniões por vontade própria. Não adianta forçar.

Nos encontros, ninguém dá palpite na vida alheia. Cada um relata suas experiências, vitórias e derrotas, e os demais identificam-se com as situações e acham caminhos para as próprias dificuldades - é o que se chama de terapia de espelho. "Foi um alívio entrar para o grupo. Nele tive certeza de que não era culpada por meu marido beber demais. Ele tinha uma doença", conta Maria do Carmo, vo-luntária do Al-Anon, que reúne os familiares de alcoólatras, de São Paulo.

Anonimato garantido

Manter o anonimato (o próprio e o dos outros) é o compromisso básico entre os participantes, que temem o preconceito. Mas isso não quer dizer que as pessoas se tratem como estranhas. "Fiz muitas amizades. Nós nos falamos fora das reuniões, existe a liberdade de ligar para as companheiras quando dá vontade", conta Rita, do grupo Mulheres que Amam Demais. Além disso, depois de algumas reuniões, cada freqüentador ganha um padrinho, a quem recorre quando precisar. Estabelece-se uma vínculo informal. Não há cobranças nem exigências - mas um comedor compulsivo vai pensar várias vezes antes de engolir uma caixa de chocolates se tiver de chegar à próxima reunião e confessar sua falha. "O grupo funciona como suporte emocional. Não é psicoterapia porque não trabalha com conflitos nem costuma ter profissionais especializados", explica Ricardo Moreno, professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo e fundador da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata).

Para dar suporte emocional a pessoas que ficaram doentes ou sofreram tragédias, existem grupos particulares, como o Casa dos Anjos, em São Paulo. "Quando meu filho morreu, passei dois anos muito mal, e meus amigos me carregaram no colo", relata a psicóloga paulista Ligia Abs André. "Quando melhorei, na intenção de retribuir todo apoio que recebi, fundei o grupo, com duas amigas na mesma situação."

Em São Paulo, o Centro Oncológico de Recuperação e Apoio (Cora) tem experiências muito bem-sucedidas no apoio a pacientes, ex-pacientes e familiares. Como conta Josefina Maria Dias Gomes, que teve câncer de mama em 1995: "O grupo me ajudou a lidar com o medo da doença, com a ansiedade quando vou pegar o resultado de um exame. Mas o principal foi dividir as experiências. Agora conheço meus limites, sei achar tempo para mim mesma, o que evita desgastes que comprometam minha saúde". Na hora de escolher um grupo, você precisa conversar com o responsável, para ver se o perfil corresponde a suas expectativas, ou experimentar mais de um para descobrir qual é o mais adequado a seu caso. E sempre é bom estar atento: se o condutor das conversas desviar do assunto ou der ênfase a seus pontos de vista pessoais, o grupo não estará cumprindo sua função, que é discutir especificamente um tema coletivo.

ALCOOLISMO

  • Alcoólicos Anônimos - O pioneiro das irmandades anônimas também é o que tem um programa mais definido: sugere que, nos primeiros três meses, o dependente de álcool participe de reuniões diárias - mas nada é obrigatório. O número de mulheres participantes está crescendo e, nas reuniões, são acolhidas pessoas de qualquer idade, até mesmo crianças. Para entrar em contato: . Belo Horizonte: (31) 3224-7744; . Porto Alegre: (51) 3311-0104; . Rio de Janeiro: (21) 2253-9283; . Salvador: (71) 322-7797; . São Paulo (e outras localidades): (11) 3315-9333; . Via internet: alcoolicosanonimos
  • Al-Anon - Pessoas que convivem de perto com alcoólatras muitas vezes acham que têm uma parcela de culpa no problema. Aqui, aprendem que não adianta tentar controlar o vício alheio e que também não é bom encobrir faltas no trabalho ou pagar as dívidas feitas por causa da bebida. Há também grupos de atendimento a crianças e adolescentes filhos de alcoólatras. Para entrar em contato: . Belo Horizonte: (31) 222-4425;

    . Porto Alegre: (51) 3311-6315; . Rio de Janeiro: (21) 2220-5065; . Salvador: (71) 240-9055; . São Paulo: (11) 228-7425; . Outras localidades: (11) 222-2099; . Via internet: al-anon .

    CO-DEPENDÊNCIA

  • Mulheres que Amam Demais - Baseado no livro de mesmo nome, da terapeuta conjugal americana Robin Norwood (ed. Mandarim), esse grupo reúne mulheres com relacionamentos destrutivos - e isso não vale só para os parceiros: pode ser com pais, irmãos, amigos, filhos, patrões etc. A lição que fica para as participantes é a importância de valorizar a si mesmas sem querer agradar demais aos outros. Para entrar em contato: . Rio de Janeiro: av. Ataulfo de Paiva, 527. Reuniões às terças, às 19h30; . São Paulo: r. Sampaio Vidal, 1055, Pinheiros. Reuniões às terças e quintas, das 20h30 às 22h30, e aos sábados, das 18h30 às 20h30; . Via internet: geocities ; e-mail: grupomada@uol.com.br .

    NEUROSES

  • Neuróticos Anônimos - Muitas das pessoas que chegam a esse grupo já tentaram ou pensaram em suicídio. Os freqüentadores sofrem de distúrbios diversos, como depressão, síndrome do pânico, ansiedade, dificuldade de relacionamento, solidão, insônia, fobia. Para entrar em contato: . Belo Horizonte: (31) 3222-2957; . Porto Alegre: (51) 3212-0129; . Rio de Janeiro: (21) 2233-0220; . Salvador: r. Ceará, s/n, na Escola N. Sra. da Luz, e r. Campinas de Brotas, 731, no Mosteiro N. Sra. da Conceição; . São Paulo: (11) 229-7523; . Outras localidades: (11) 228-2042; . Via internet: neuroticosanonimos .

    CÂNCER

  • Adama - Associação dos Amigos da Mama - Desde 1996, essa organização promove encontros entre pacientes de câncer de mama, que trocam experiências para o resgate da auto-estima. Há ainda reuniões mensais para familiares e palestras em que se discutem temas relacionados ao controle da doença (alimentação, hábitos) e ao universo feminino (osteoporose, violência doméstica). Para entrar em contato: . Niterói, RJ: (21) 2612-8060; . Via internet: adama e e-mail: adama@adama.org.br .
  • Cora - Centro Oncológico de Recuperação e Apoio - Atende aos que convivem com todos os tipos de câncer. Nas reuniões, abertas, há a participação livre de pacientes, ex-pacientes e familiares. Para entrar em contato: . São Paulo: (11) 3813-0927.

    RELAÇÕES

  • Introvertidos Anônimos - Específico para quem tem problemas de relacionamento, foi inventado no Brasil em 1997. No final das reuniões, é proposto um passeio - ir ao shopping ou ao cinema -, que serve como o primeiro passo para retomar a integração social. Para entrar em contato: . Belo Horizonte: Igreja São José, prédio anexo, 2º andar, sala 6, Centro; . São Paulo: (11) 3112-2445; . Via internet: introvertidos .

    CIGARRO

  • Nicotina Anônimos - O nome oficial do grupo americano é esse, mas alguns se denominam Fumantes Anônimos ou Tabagistas Anônimos. Como a irmandade não está organizada em todo o Brasil, há uma pessoa que centraliza as informações e pode ser contatada por e-mail. Para lugares onde não existem reuniões, há três anos a lista de discussão na internet Nicaport ajuda a parar de fumar. Para entrar em contato: . Porto Alegre: av. José Bonifácio, 753, Bonfim; . Rio de Janeiro: r. Senador Vergueiro, 141, Flamengo; . São Paulo: r. Sampaio Vidal, 1055, Pinheiros; r. dos Jornalistas, 201, Jabaquara; r. Capitão Pacheco Chaves, 115, Vila Prudente; . Via internet: e-mail: companyeronica@yahoo.com .

    PERDA DE FILHOS

  • Casa dos Anjos - Inspirada no trabalho da organização americana Compassionate Friends ( compassionatefriends ), há cinco anos a psicóloga Ligia Abs André fundou um grupo para quem perdeu um filho, como ela. A Casa dos Anjos reúne mensalmente mães e pais e também promove miniencontros de pronto-socorro para alguém que precise de suporte imediato. Para entrar em contato: . São Paulo: (11) 3758-4156, com Ligia.

    ALIMENTAÇÃO COMPULSIVA

  • Comedores Compulsivos Anônimos - Os freqüentadores aprendem a distinguir seu tipo de fome - física ou emocional - e descobrem como voltar a mente para outro assunto quando a compulsão se manifesta. Para entrar em contato: . Belo Horizonte: (31) 3213-2052; . Porto Alegre: (51) 3286-3748; . Rio de Janeiro: (21) 2262-8468; . São Paulo e outras localidades: (11) 4427-9468; . Via internet: junccab e e-mail: junccab@uol.com.br .

    DÍVIDAS

    • Devedores Anônimos - Pessoas afundadas em dívidas, que não conseguem parar de gastar e comprar, aprendem no grupo que isso é um problema que só elas podem resolver: não adianta culpar a situação econômica do país nem mesmo a falta de sorte. Na sexta reunião, para que a pessoa encare seus problemas de frente e tenha uma dimensão real de seus prejuízos, é feito o que se chama de alívio de pressão: o participante escolhe um casal de padrinhos e apresenta suas contas para o grupo. Para entrar em contato: . Rio de Janeiro: reuniões às quintas, às 18h30, e aos sábados, às 10h, na rua México, 90, 9º andar, Centro; . São Paulo: (11) 3751-5763.

      Na internet

      Pessoas que moram longe dos centros urbanos e dos grupos de auto-ajuda contam com uma nova modalidade de interação: a troca de experiências por e-mail. O Nicotina Anônimos e o Introvertidos Anônimos são alguns dos grupos que têm listas oficiais, mas é possível encontrar comunidades que tratam dos mais diversos problemas. Além disso, também dá para abrir sua própria lista. Foi o que fez R., que sofre de fobia social e nunca participou de grupos de auto-ajuda pessoalmente. "Descobri gente muito inteligente e interessante. Há artistas plásticos, músicos, engenheiros, escritores, poetas. Consegui reduzir minha ansiedade ao ler a experiência deles, mas sei que a comunicação por e-mail facilita a vida de quem sofre de fobias e pânico ao evitar o enfrentamento das situações e, por esse mesmo motivo, isso pode ser prejudicial", acredita ele. A avaliação de R. é acertada: o computador não pode ser usado como máscara ou escudo de proteção. Em todos os casos, a internet só deve ser usada por pessoas que realmente não tenham condições de freqüentar um grupo ou como um recurso extra às reuniões ao vivo. "Nada substitui a comunicação direta", ressalta o responsável pela lista Nicaport, de dependentes de nicotina. A seguir alguns sites com listas de auto-ajuda em português:

    • yahoogroups
    • grupos
    • meugrupo

    • Texto: Ana Ban
      Ilustrações: Adriana Cornavaca Wolff


 





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