
Talvez esse seja o sentimento mais
difícil de definir – não cabe em fórmulas
prontas. Porém, neste tempo de tantos desencontros,
viver um amor é desafio que depende menos de estratégia
de conquistas e mais da revisão de nossas possibilidades
e do tamanho de nossas expectativas. Sem a pretensão
de esgotar o assunto, mostramos algumas maneiras de abrir
caminho para o encontro amoroso, que vale a pena sempre,
seja como for. |
RELACIONAMENTOS Amar vale a pena
Falar de amor é quase um vício.
Perceba como boa parte de suas conversas, dos livros que você
lê, das músicas que ouve tem a ver com isso. Os
filmes, então, nem se fala. Nem o mais violento deixa
de ter uma trama amorosa. Parece que a condição
indispensável para sossegar o coração é
encontrar alguém e compartilhar a vida. E isso parece
cada vez mais difícil: o desencontro e a solidão
têm sido uma marca desta época, em que as diferenças
entre homens e mulheres ficam cada vez mais explícitas.
Encontrar um grande amor pode ser, então, questão
de pura sorte, uma manobra do acaso, mas na maior parte das
vezes depende das escolhas que fazemos e de como alimentamos
nossas expectativas. “O amor é revolucionário
e exige que estejamos abertos para o novo, o inesperado. Quem
procura alguém que se encaixe em seus parâmetros
não quer um amor, mas apenas uma parceria para dissimular
um vazio interno”, afirma o psicoterapeuta e escritor
Alberto Pereira Lima Filho, professor da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP). “Muita gente
se diz pronta a viver uma experiência verdadeiramente
intensa de amor, mas poucos se colocam disponíveis para
isso.”
DE CORAÇÃO ABERTO
Essa atitude não acontece por acaso, mas por insegurança,
medo ou apenas para defender o coração um dia
rejeitado ou traído. A tendência é se retrair
e guardar o amor a sete chaves, protegido por um muro de pedra.
Em nossas fantasias românticas, podemos achar que basta
estar flertando, seduzindo, nos mostrando disponíveis,
mas na verdade estamos apenas na defensiva. Esquecemos que vale
a pena mergulhar nesse sentimento, que dá substância
à vida, sem ficar preso ao passado. “Muitas vezes nos mantemos afastados das pessoas, esperando
que elas conquistem nosso amor. Esquecemos que é preciso
dar amor e não apenas receber”, observa a escritora
americana Marianne Williamson no livro Um Retorno ao Amor (ed.
Novo Paradigma). É sempre bom lembrar que o amor é
um sentimento de mão dupla, essencialmente baseado na
troca de afeto, carinho e compreensão. Se você
faz parte do grande grupo de pessoas que está só,
briga com a solidão e tenta desvendar as artimanhas que
levam ao amor, a primeira coisa a fazer é um questionamento.
OLHAR PARA DENTRO
Será que você deposita muitas expectativas sobre
esse amor ideal? E assim aumenta suas exigências a ponto
de o resultado quase sempre ser desilusão? “Não
é nossa tarefa procurar o amor, mas buscar dentro de
nós mesmos e superar todos os obstáculos que criamos
para evitar que ele apareça”, resume Marianne Williamson.
“Se isso não acontece, a tendência é
escolher alguém inatingível, comprometido, por
exemplo”, completa o psicólogo Ailton Amélio
da Silva, autor do livro O Mapa do Amor (ed. Gente), de São
Paulo.
Para que o amor floresça – e sobreviva –,
é fundamental cultivar a aceitação e se
dispor a experimentar conflitos. “Amar é desfrutar
a deliciosa dificuldade de conviver com diferentes formas de
agir, sentir e pensar”, define o psicoterapeuta Alberto
Lima. “No entanto, tentamos anular as diferenças,
forçando o parceiro a se adaptar a nossos moldes, sem
perceber o mundo do ponto de vista da outra pessoa”, continua.
“Essa abertura não significa abrir mão de
nossos valores ou fazer tudo que o outro quer como garantia
de amor. O importante é não ter a pretensão
de usar critérios rígidos do que é certo
ou errado, bom ou ruim. O que vale para um pode não valer
para os dois.”
QUALIDADES E FRAQUEZAS
Boa parte dos problemas que surgem na fase de conquista ou no
relacionamento nasce da frustração ao perceber
que o companheiro não nos completa da maneira esperada.
Segundo Marianne Williamson, se alguém não se
comporta como um grande parceiro romântico, talvez isso
signifique que ele não foi feito para assumir esse papel.
“E isso não torna o relacionamento errado”,
afirma. “Num casal em que os cônjuges se amam de
verdade, o que um gosta no outro não é somente
suas grandes qualidades mas também suas bobagens, suas
fraquezas, seus defeitos”, confirma o teólogo e
psicólogo francês Jean-Yves Leloup em seu livro
Amar... Apesar de Tudo (ed. Verus).
Muitos desencontros começam quando prevalece o sonho
de que vamos achar a cara-metade, um ser perfeito, que nos complete
24 horas por dia. Isso é impossível. “Para
que haja uma aliança, é preciso dois inteiros.
Amar outro inteiro é mais interessante do que amar outra
metade”, afirma Leloup.
“Não podemos buscar no outro o que nos falta interiormente”,
explica a antropóloga Miriam Goldenberg, escritora e
professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Quando
nos sentimos plenos e preenchidos em nossas necessidades, estamos
prontos para compartilhar.”
QUESTÃO DE AUTO-ESTIMA
E o que fazer para ser inteiro? Para nos abrirmos para o amor,
sem querer que o parceiro compense nossas frustrações
ou nosso vazio interno, primeiro devemos aprender a amar a nós
mesmos. “Com base em uma fundação forte
de amor próprio, surge uma disposição natural
de amar os outros sem cobranças e expectativas”,
diz Ken O’Donnell, consultor, escritor e diretor para
a América do Sul da Organização Brahma
Kumaris, entidade voltada para a difusão de valores humanitários
e espirituais, no livro Lições para uma Vida Plena
(ed. Gente). A questão da auto-estima afeta especialmente
as mulheres. “Por mais que a sociedade evolua e descarte
preconceitos ultrapassados, ela ainda está condicionada
a querer alguém mais – mais velho, mais alto, mais
bem-sucedido –, como se alguém valorizado por suas
qualidades pudesse conferir mais valor a elas mesmas”,
explica Miriam Goldenberg. “Ao basear suas escolhas em
critérios como aparência, status ou situação
financeira, homens e mulheres correm o risco de se frustrar,
pois nenhuma qualidade externa atesta o que alguém leva
no coração ou sua capacidade de amar”, salienta
Alberto Lima.
Os caminhos do amor podem ser tortuosos, indecifráveis,
cheios de mistérios, mas vale muito a pena aceitar o
desafio e seguir. “É só uma questão
de nos despirmos de nossas crenças e novos valores arraigados,
da rigidez, do conservadorismo, da teimosia”, diz o terapeuta
Alberto Lima, concluindo: “Não tenha medo de amar,
mesmo que isso já tenha causado sofrimento no passado,
pois só o amor cura as feridas do amor”.
Cupido entra em cena
Os gregos antigos tinham uma explicação simples
para as tramas do amor. Para eles, eram maquinações
do deus Eros (Cupido, para os romanos), que flechava os corações
e despertava paixões fulminantes em deuses e mortais,
seguindo as ordens da mãe, Afrodite (ou Vênus),
a deusa da beleza e do amor. Assim, eles aproximavam os casais
e, muitas vezes, para que se instalasse o conflito, atingiam
um com a seta do amor e outro com a da repulsa por pura diversão.
As mulheres querem cumplicidade,
e os homens, individualidade
Segundo pesquisa sobre amor, sexo e casamento realizada pela
antropóloga carioca Miriam Goldenberg, os dois sexos
exibem diferentes pontos de vista sobre o modelo de relação
ideal. Depois de passar mais de três anos entrevistando
aproximadamente 1,2 mil pessoas da classe média, com
nível universitário, ela constatou que homens
e mulheres valorizam em primeiro lugar o amor e o respeito mútuos,
mas a partir daí as opiniões divergem. “As
mulheres acreditam que no relacionamento as duas pessoas devem
se integrar e se fundir como se fossem uma só, enquanto
os homens querem preservar sua autonomia e individualidade”,
conta Miriam. A pesquisa aponta que as mulheres sonham com cumplicidade,
companheirismo e programas compartilhados, já os homens
dão prioridade a compreensão, amizade, programas
individuais e respeito ao espaço alheio. “Para
o sucesso do relacionamento, é preciso buscar o equilíbrio
entre o anseio das duas partes”, frisa a antropóloga.
Atitudes para encontrar e conservar
o amor
• Abra o coração para o inesperado sem colocar
tantas expectativas ou exigências a respeito do que seria
a pessoa e o relacionamento ideais.
• Cultive a aceitação, a compreensão
e a amizade. Esses são sentimentos fundamentais em toda
relação.
• Fortaleça sua auto-estima, sem delegar a outra
pessoa a tarefa de cuidar de você ou de preencher suas
lacunas.
• Não cobre de seu parceiro o que você mesmo
não pode fazer por si.
• Dê amor, em vez de ficar apenas esperando que
alguém ideal venha lhe conquistar.
• Não deixe que as dores do passado contaminem
os encontros do presente.
TEXTO: WILSON F. D. WEIG
REPORTAGEM FOTOGRÁFICA: ADRIANA C. WOLFF
FOTOS: MARCELO ZOCCHIO
Abril
2003
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