| RELACIONAMENTO
Tente de novo!
Sempre é tempo de fazer uma - ou várias
- tentativas para encontrar um novo amor, um novo trabalho ou
encarar a vida sob uma perspectiva mais feliz e otimista. Mesmo
quando sentimos que as coisas estancam, é preciso lembrar que
nossas conquistas nascem da eterna disposição de começar tudo
outra vez.
Que lição uma criança que aprende a andar pode dar a um adulto
paralisado pelo desânimo, pela desesperança ou pela falta de
perspectiva? A importância de começar de novo. "Ao ensaiar os
primeiros passos, o bebê não teme cair, erguer-se e retomar
a caminhada quantas vezes for preciso. Esta é a lição: precisamos
levantar cada vez que nos sentimos no chão. E também aprender
a desviar dos obstáculos, das pedras do caminho", diz Suzete
Carvalho, conferencista e autora de ensaios sobre comportamento,
de São Paulo.
Erros são bússolas
Quase ninguém escapa dessa sensação de paralisia, de perda de
rumo, em algum momento da vida. Alguns mais, outros menos, nos
enredamos na negatividade, no desalento e nos ressentimentos
até que o coração amargurado vire "um pote até aqui de mágoa",
como diz a canção. É nessa hora, no momento em que a vida parece
estagnada, que sentimos o quanto nos distanciamos de nossos
sonhos e objetivos.
"Quando essa sensação nos domina, nos apegamos ao passado, a
um antigo amor, a um emprego estável que tivemos. Ficamos cegos
para as possibilidades do presente e perdemos a esperança de
reconquistar o que um dia nos fez felizes. Ter fé no futuro
nos dá força no presente para mudar nossa vida e correr atrás
das conquistas", afirma César Romão, conferencista e escritor,
autor de dez livros de autoconhecimento, como Tente Outra Vez
(ed. Arx).
É justamente quando o passado parece lindo, e o futuro vazio,
que é preciso adotar o ponto de vista do bebê que aprende a
andar. "Erros e falhas não devem ser encarados como derrotas,
mas como bússolas", continua César Romão. "É preciso assimilar
a lição que pode ser retirada de toda experiência ruim, em vez
de carregar infinitamente a mágoa", completa Suzete Carvalho.
"Temos que transformar o desgosto em gosto, como fez a moça
ao beijar o sapo, que, para sua surpresa, virou príncipe."
Vencer o medo
Isso vale para todas as áreas da vida. Quando o primeiro filho
da psicoterapeuta Ciça Vicente de Azevedo, 49 anos, de São Paulo,
fez 2 anos, descobriu-se que era portador de uma deficiência
da fala e dos movimentos. "O medo de que o problema se manifestasse
em outra gestação fez que eu adiasse por cinco anos ter o segundo
filho, como planejei", conta.
Ao engravidar novamente, ela viu renascer a confiança. "Enfrentar
meus temores e ser mãe novamente foi uma redenção. Mudei minha
maneira de encarar a maternidade. Antes, eu era implacável comigo
mesma ao comparar o Caio com outras crianças. E ter minha filha
Nina mudou a forma de me relacionar com ele. Se não fosse a
chegada dela, eu o teria asfixiado com meus cuidados", diz a
psicoterapeuta.
Entre os sentimentos capazes de paralisar, o medo é provavelmente
o mais destrutivo. Medo de amar, de se entregar e se ferir,
medo de arriscar, medo do fracasso, do ridículo, do desconhecido.
São temores que nascem da necessidade de controlar acontecimentos
e pessoas em volta, dando pouco espaço à mudança - necessária,
por sinal, já que na natureza, no Universo, tudo está em permanente
transformação.
Mudar para sobreviver
Hoje, nestes tempos tão mutantes, a disposição para tentar de
novo é fundamental para que uma empresa se mantenha no mercado,
um empregado conserve seu posto ou parceiros preservem o relacionamento.
"As crises nascem de nossa incapacidade de aceitar e se adaptar
às mudanças", afirma César Romão. "O mundo está em crise? Sim,
mas sempre esteve e sempre estará. Nós é que temos que procurar
na crise as sementes da oportunidade."
Para isso, é preciso deixar de lado a voracidade por resultados
imediatos, outro mecanismo paralisante. "Não adianta querer
construir uma montanha se não começarmos com alguns punhados
de terra", continua o escritor. Os vitoriosos que o digam. A
cada vez que um atleta do salto ornamental mergulha na piscina,
tem que subir a longa escada que leva até o topo da plataforma,
para daí se lançar novamente. Só dessa disposição de refazer
incansavelmente o percurso nasce a precisão dos movimentos que
o conduzem ao salto perfeito e à vitória.
A mesma escolha
Recomeçar é, muitas vezes, reconstruir o castelo que se desmanchou.
Ao longo de dois anos de casamento, a representante Patrícia
Cintra Furtado, 37 anos, e o comerciante César Augusto, 36,
de São Paulo, foram descobrindo incompatibilidades que levaram
à separação. "Nossa história poderia ter terminado ali, mas
depois de um ano achamos que valia a pena conversar e propor
novas bases para o relacionamento", conta Patrícia. "E deu certo
porque estamos juntos novamente."
Essa abertura para aceitar a volta ao ponto de partida faz bem
para tudo - do casamento à ciência. Todos os avanços da história
são fruto de persistência. "Se os inventores abandonassem seus
estudos na primeira tentativa, a humanidade ainda estaria na
Idade da Pedra", diz a geneticista bióloga Mayana Zatz, coordenadora
do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São
Paulo (USP). Enfrentar o longo ciclo de tentativa e erro - a
essência da pesquisa científica - é outra metáfora sobre a vida.
E Mayana conclui: "Aprendemos um pouco mais a cada ação frustrada,
e cada nova informação aponta outros caminhos desconhecidos."
"Beba, pois a água viva ainda está na fonte, você tem dois pés
para cruzar a ponte. Nada acabou, basta ser sincero e desejar
profundo. Você será capaz de sacudir o mundo, vai!"
Da canção Tente Outra Vez, de Raul Seixas
Dez passos para reencontrar seu caminho
Veja as sugestões do escritor César Romão para reconduzir sua
vida em direção a seus sonhos e suas metas.
1. Tenha coragem. Ela não é a ausência de medo, mas a disposição
para superar receios, agir e seguir sempre em frente.
2. Use seus fracassos como uma abençoada bússola. Encare o emprego
perdido, o relacionamento que não deu certo, o amigo que o decepcionou
como páginas viradas e aprenda a lição.
3. Avalie os resultados de sua maneira de agir e se comunicar
com os outros. Sem essa auto-análise, corre-se o risco de estar
sempre repetindo comportamentos nocivos e destrutivos.
4. Nunca desista de seus sonhos. Quando abandonamos nossas metas,
mesmo em uma situação difícil carregamos a dor de não ter lutado
ou chegado até o fim. Persistir no sonho alimenta a esperança
de um futuro melhor, e a fé no futuro dá alento ao presente.
5. Concentre seus esforços em uma direção construtiva. Muitas
vezes desperdiçamos energia ou força de trabalho em alvos equivocados
e depois nos queixamos de que o mundo é uma droga.
6. Valorize o que está ao alcance de suas mãos. Enxergue o que
existe de bom em seu parceiro, em sua família, em seu trabalho
e em seus colegas. Assim você descobre o que tem para ensinar
e o que pode aprender com eles.
7. Invista em seu desenvolvimento pessoal. Não desperdice nenhuma
informação que possa ajudá-lo a se modificar para melhor.
8. Avalie o que você tem feito para ser amado e valorizado.
Em um relacionamento, por exemplo, não basta transbordar de
amor: é preciso cultivar a compreensão, o diálogo, a paciência
e não querer moldar o parceiro a nossas expectativas.
9. Acredite nos fatos e sentimentos positivos. Não abrace o
sofrimento e a dor e focalize o que existe de promissor a sua
frente. Não fique reclamando e falando só de coisas ruins, com
medo de contar o que acontece de bom e atrair a inveja ou o
olho gordo de outras pessoas.
10. Pare para ouvir a voz de seu coração. Na maioria das vezes,
o "sim" que ele dá a você vale mais do que o "não" do mundo.
TEXTO: Wilson F. D. Weigl
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