| RELACIONAMENTO
A alegria de estar junto
Pertencer e estar integrado ao lugar
onde você trabalha, mora ou se diverte garante equilíbrio emocional
e dá sentido até às atividades mais simples. Agora você vai
conhecer gente que sentiu a força transformadora de acolher
e de ser acolhido.
Um ser humano precisa de outro para sobreviver. Essa afirmação
não é exagerada, pois você faz parte de vários grupos diferentes:
no trabalho, na família, na igreja, no clube, na vizinhança,
na escola, quase todas as atividades do dia-a-dia envolvem a
convivência com outras pessoas. Esse instinto de pertencer a
um grupo foi esquematizado na década de 50 pelo psicólogo americano
Abraham Maslow. Segundo ele, primeiro temos de satisfazer nossas
necessidades fisiológicas (comer, beber, respirar), depois as
de segurança (ter casa, roupas) e, em terceiro lugar, está o
conforto do pertencimento, isto é, o bem-estar de perceber-se
integrado, adaptado, acolhido. Só então estamos aptos a desenvolver
a capacidade de aprender e ter atividades que incluam nossos
semelhantes.
MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES
Consegue se sentir melhor quem identifica
os valores de cada grupo e se adapta a eles e, a quanto mais
grupos a pessoa pertencer, mais facilidade terá para se sentir
acolhida. O consultor de desenvolvimento humano Eugênio Mussak,
também formado em medicina e biologia, usa o futebol para explicar
isso. "Existem pessoas que têm relações ruins em casa e no trabalho
e que se apegam muito ao futebol. Quando seu time perde, perdem
também seu ponto de referência mais importante. Por isso, às
vezes torcedores saem quebrando tudo. Porém, se eu pertenço
à minha família, à minha universidade, às empresas onde dou
palestras, aos grupos de amigos, de parceiros de trabalho, quando
o time perde, minha vida não muda. Pois pertenço a tantas turmas
que, quando uma delas falha, não faz mal, tenho outros pontos
de apoio emocional", diz o consultor.
Além dos aspectos individuais, pertencer a um grupo pode gerar
iniciativas que beneficiam e incluem muita gente. O arquiteto
Roberto Loeb, de São Paulo, por exemplo, engajou-se em projetos
voluntários. "Há cerca de dez anos, dedico uma parte do meu
tempo a projetos sociais, que pretendem dar acolhimento digno
a pessoas muito carentes, para que se recuperem e possam voltar
a participar da sociedade. Um deles é o Projeto Anchieta, que
prevê a construção de moradias e centros de educação e lazer
em um terreno de 240 mil m2 no bairro de Capela do Socorro,
na Zona Sul da capital paulista. Atualmente, o projeto funciona
de maneira provisória, atendendo a 300 crianças da região",
conta ele.
Também com colegas do escritório, Loeb está criando um galpão
para tornar mais digna a vida dos moradores de rua. É o Projeto
Boracéa, encampado pela prefeitura de São Paulo. "Fiz vários
encontros com as pessoas que usarão o abrigo e projetei o espaço
para atender a suas necessidades. Por exemplo, a área reservada
para os carrinheiros é dividida em vagas onde poderão se acomodar
com seu carrinho e seu cachorro, que geralmente é o único ser
com quem mantêm um laço afetivo. Depois, vamos criar oficinas
profissionalizantes. Acredito que a convivência no abrigo possa
reestruturar a auto-estima, para que as pessoas voltem a viver
em sociedade", conclui Loeb.
A seguir a história de outros acolhidos e acolhedores.
É bom ter com quem contar
Denise Ferreri, 23 anos, estudante de administração e marketing,
com freqüência precisa sair mais cedo da aula para ir encontrar
seus amigos jipeiros, senão ela fica triste.
Há cerca de um ano, Denise é uma participante ativa do grupo
JipeNet, que tem lista de discussão na internet e reuniões ao
vivo em São Paulo, toda quinta-feira à noite. Durante as horas
supercurtidas por todos, eles discutem equipamentos e combinam
as trilhas que farão no fim de semana. "Eu tenho um jipe. Cheguei
ao grupo porque fui buscar informações sobre equipamentos, mas
descobri muito mais: um companheirismo e um respeito difíceis
de encontrar", conta.
Ela, que é solteira e não tem namorado, sentiu-se à vontade
entre pessoas que já são mais maduras, têm família e estão ali
só mesmo para falar de jipes e passeios. Fora do grupo, é difícil
encontrar quem entenda por que ela gosta de se enfiar no mato
e chegar em casa coberta de lama. "No começo, achavam que eu
estava lá de brincadeira porque a maior parte das mulheres vai
por causa do companheiro. Mas logo me enturmei", lembra Denise.
"O melhor é saber que tenho um grupo em quem confiar, no qual
há solidariedade e nenhuma competição. A estrada pode ser difícil,
mas a gente sabe que sempre vai ter com quem contar", conclui.
Ter amigos melhora a rotina
A administradora de empresas Regina Barretto Moore, 29 anos,
casou-se com o americano John em 1997 e mudou-se para os Estados
Unidos. A adaptação não foi fácil. "Quando cheguei, fui morar
bem no norte do país. Era uma cidade pequena, fazia muito frio,
e eu ficava sozinha a maior parte do tempo. Fiz um curso de
preparação para o MBA, mas só havia asiáticos na sala e eu não
me enturmei. Busquei um grupo de trabalho voluntário e ali conheci
outras pessoas da América Latina, que tinham mais a ver comigo,
e consegui me integrar melhor", conta. Depois, Regina foi morar
em Miami, ao sul, e de novo precisou achar sua turma. Entrou
na universidade e se deu bem com os colegas estrangeiros. Mas,
depois que o curso acabou, eles voltaram para seus países e
ela sentiu falta de companhia de novo.
Com um filho pequeno, começou a freqüentar um grupo de mães
que se reúnem para falar sobre o desenvolvimento infantil. "Claro
que não vou lá só para conversar sobre a maternidade, mas para
ter a companhia de gente em situação parecida com a minha. Organizamos
passeios e saímos juntas durante a semana. Sem fazer parte de
um grupo como esse seria difícil me sentir bem tão longe de
meu país", diz.
Reunir as pessoas em torno de objetivos comuns
Quando não existe um grupo que atenda a
suas necessidades, é possível criar um. Vera Mazzola, 53 anos,
professora aposentada, é muito comunicativa, conhece a vizinhança
e era voluntária na igreja do bairro. Há dois anos, precisou
reduzir suas atividades fora de casa para cuidar da mãe doente.
Mas nem por isso ficou isolada.
Vera mora em um prédio na Zona Oeste de São Paulo e, insatisfeita
com a decoração do hall de entrada, juntou-se a outra moradora
e convocou uma reunião para discutir o assunto. Uma dezena de
vizinhas compareceu ao primeiro encontro. Apesar de concluírem
que não tinham dinheiro para as mudanças, ao ver toda aquela
gente junta Vera viu a oportunidade de formar um grupo dentro
do prédio e fazer melhorias, como uma brinquedoteca ou a implantação
do programa de reciclagem de lixo. Elas se reúnem uma vez por
mês, e Vera organiza tudo: coloca no computador as pautas e
as atas dos encontros e encarrega-se de colocar mensagens de
incentivo todos os dias no elevador. Além disso, todas estão
sempre atentas ao afeto. "Mandamos flores quando uma das moradoras
perdeu o marido, por exemplo. Quero que as pessoas se sintam
acolhidas aqui e que haja espaço para a amizade", conta.
A convivência eleva a auto-estima
Há três anos, Delaine Romano coordena a oficina de reciclagem
de papel e produtos da Coopamare, uma cooperativa de catadores
autônomos de papel e materiais recicláveis, da capital paulista.
É um curso de capacitação profissional para filhos dos catadores,
jovens de 16 a 21 anos. Durante cinco meses, cinco dias por
semana, enquanto aprendem a fazer objetos de papel reciclado,
eles treinam a convivência em grupo. "Chegam tímidos, com idéia
de que não servem para nada e que só dão despesas aos pais.
Mesmo tendo família e freqüentando a escola, não costumam ter
outra atividade. Com a convivência, passam a se preocupar uns
com os outros, descobrem talentos, aprendem a participar de
atividades sociais", conta a professora.
Os jovens saem do curso com a auto-estima elevada, orgulhosos
por terem aprendido a fazer algo, alguns viram monitores da
oficina. "Quando fiz o curso, em 2000, era quieta e me achava
incapaz de fazer os objetos de papel, achava que nunca conseguiria
e hoje isso é uma terapia", diz a monitora Iasame Alves Campos,
18 anos.
Mais segurança e companheirismo
Encontrar gente com os mesmos interesses pode acontecer de maneira
espontânea. Como ocorreu na vida de Willian Cruz, 28 anos, gerente
de informática. Há alguns anos, resgatou uma paixão de infância
- andar de bicicleta - e começou a fazer passeios noturnos,
às vezes com um colega de trabalho, mas quase sempre sozinho.
Até que cruzou com um grupo de ciclistas, todos de capacete
como ele, e se aproximou. Era o Starbikers, que se reúne para
pedalar à noite em São Paulo. A partir daquele dia, o passatempo
de Willian nunca mais foi solitário, hoje pratica seu hobby
acompanhado de 20 a 40 pessoas. "Andar de bicicleta em São Paulo
não é muito seguro, porém em um grupo grande dá para cruzar
o Centro, passando pelo vale do Anhangabaú e pela praça da Sé,
sem nenhum problema de assalto", explica Willian. "E o companheirismo
também conta muito. Os ciclistas não são muito bem compreendidos
nem pelos carros nem pelos pedestres. É bom estar acompanhado
de pessoas que falam a mesma língua."
TEXTO: Ana Ban / Cláudia Cruz
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