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Longe do barulho, vivemos experiências
únicas. Refugiados em nosso templo interior, nos conectamos
com nossa essência verdadeira e deixamos que a calma penetre
em todo o ser
.
Você já mergulhou no silêncio alguma vez? É assim: quando o
barulho dos moradores vizinhos acabar e eles desligarem a TV
para se deitar, você recolhe o que estiver espalhado pela sala,
abre as janelas para renovar o ar, senta naquela poltrona mais
gostosa, respira fundo e se entrega a ele.
Nessa hora, parece que o relógio anda mais devagar, a mente
se aquieta e, em nossa imaginação, tudo acontece em câmera lenta
. É como se as imagens do dia tivessem sido filmadas devagarinho
e as nuvens carregadas ido embora, para que as estrelas possam
brilhar na calma da noite.
Uma estranha sensação vai tomando conta dos sentidos e dos pensamentos,
que acontecem em outro ritmo e não nos angustiam: porque não
os retemos, simplesmente desfilam a nossa frente. De repente,
não nos apegamos a nada nem a ninguém. Embora vejamos tudo de
forma ainda mais real, já que, aos poucos, nos tornamos um uno
com o todo. Os móveis continuam sendo o que sempre foram, mas
como que ganham vida e respiram no mesmo compasso que nós.
Com a mente sossegada, vivemos experiências únicas e enriquecedoras.
Muitos só conseguem vivenciar um momento desses saindo de casa
e viajando para um lugar tranqüilo, onde mudam a rotina e abandonam
os problemas. Hoje, há inúmeros espaços onde se pode buscar
o contato maior com a natureza e com nosso íntimo: desde spas,
que prometem a boa forma associada ao relax mental, até mosteiros
e templos, que oferecem a possibilidade de retiro espiritual
para leigos. Mas tudo isso exige disponibilidade de tempo e
dinheiro, o que dificulta o processo.
Você é o seu próprio refúgio
Cultivar o silêncio não é das coisas mais fáceis no mundo em
que vivemos. Exige mesmo todo um aprendizado. Os resultados
compensam: em silêncio, nos conectamos com os desejos mais profundos
e nos tornamos íntimos desse mensageiro da paz. Não é à toa
que dizem que a fala é de prata e o silêncio de ouro.
Nas comunidades budistas, no final da meditação noturna, é praticado
o "nobre silêncio" até a manhã seguinte. Fazem isso para que
o silêncio e sua calma penetrem no corpo e na mente, ou seja,
em todo o ser. Caminha-se para o quarto calmamente, tomando
consciência de cada passo dado, da respiração, da quietude.
Ninguém fala com as pessoas ao lado, pois toda a sangha (comunidade)
tem o mesmo objetivo: a busca da paz. Nessas horas, alguns saem
para curtir o frescor da noite, entrar em contato com as árvores
e as estrelas por uns 15 minutos. O tempo necessário para relaxar
e chamar o sono.
Ao acordar, os movimentos são realizados de forma silenciosa,
para que cada um vá tomando consciência da própria respiração
e assim despertando para mais um dia. Ao cruzar umas com as
outras, em vez do tradicional "bom dia!", as pessoas simplesmente
juntam as palmas das mãos em sinal de saudação. É evidente que
em sua casa você não vai agir como num mosteiro budista. Mas
será muito bom se adotar o hábito de acordar silenciosamente,
para tomar consciência da respiração e do milagre da vida. É
nessa hora que devemos mentalizar as ações que vamos empreender
ao longo do dia. Focando a atenção nos atos que vamos praticar,
tanto na vida pessoal quanto na profissional, fazemos tudo mais
bem-feito e, conseqüentemente, com mais chances de êxito. O
mestre hindu Paramahansa Yogananda ensinou o valor do silêncio,
que é praticado em retiros de três dias no Self-Realization
Temple, um templo fundado por ele em uma cidadezinha próxima
a San Diego, na Califórnia. Para os discípulos de Yogananda,
o caminho da auto-realização é feito de coisas muito simples:
corpo limpo (por meio de uma alimentação saudável, na qual se
come apenas o essencial), mente vazia dos pensamentos que atordoam,
para que possamos conversar com Deus, e alma lavada, pela prática
do silêncio e da meditação.
Texto: Marilda Varejão
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