Os indianos têm uma explicação romântica para a origem da hena, pigmento vermelho extraído da Lawsonia inermis, planta surgida no Oriente e no norte da África. Segundo eles, o deus Shiva não olhava mais para as mulheres depois de ter ficado viúvo. No entanto, Parvati apaixonou-se por ele e fez de tudo para chamar sua atenção. Um dos artifícios usados foi aplicar tatuagens de hena nas mãos, que se tornaram muito sensuais. Seu esforço para conquistar o coração do poderoso deus valeu a pena, e ela não demorou a se casar com ele. “A hena representa a força da mulher e está associada à feminilidade”, explica Sundari Shakti, coordenadora do Instituto Yaat de Cultura Indiana, em São Paulo.
Também conhecida como mehendi, em sânscrito, a hena é presença obrigatória em celebrações religiosas da Índia. Um exemplo é o casamento. Um dia antes da cerimônia, a noiva é tatuada com desenhos que simbolizam energias positivas, purificação, saúde e riqueza. “É uma espécie de ritual de preparação para deixar a casa de seus pais e começar uma nova vida ao lado do marido”, continua ela. A tatuagem também está relacionada à perda da virgindade e é tida como um poderoso elemento de sedução. Os grafismos ainda aparecem como adorno corporal em outros momentos importantes da vida da comunidade, como enterros e batizados, e são aplicados sempre nos pés, nas mãos ou na ponta dos dedos. Em muitas ocasiões, o pó de hena cobre essas partes do corpo como proteção contra os maus espíritos.
O hábito de se pintar com hena desembarcou por aqui há cerca de dois anos – mas sem nenhum apelo espiritual –, depois que a cantora Madonna apareceu no videoclipe Ray of Light com as mãos tatuadas de motivos indianos.
Com a técnica difundida, a tatuagem passou a marcar todas as partes do corpo. Diferentemente do Oriente, o desenho ocidental é sempre feito com hena preta e geralmente tem motivos tribais. Além de sua beleza, o maior apelo desses desenhos é o fato de a técnica ser indolor e, melhor ainda, temporária. “Superficial, dura no máximo 20 dias”, explica Marcelo Pereira, da Tatooland, de São Paulo. “Isso permite que a pessoa varie o desenho e o local de aplicação sempre que quiser.”
A grande restrição à utilização da hena reside na gama de cores: ela se limita às nuances do vermelho e dos acobreados. Pós pretos ou marrons são muito raros. Por isso, para obter novas nuances, muitos fabricantes adicionam outros pigmentos. “Tons escuros podem ser proporcionados com extrato de folha de nogueira ou avelã. Os amarelos aparecem com a mistura de flor de açafrão ou camomila”, explica Sonia Corazza, engenheira química especializada em cosmetologia, de São Paulo.
Nada disso, porém, altera o caráter natural e inofensivo do produto. O problema são as versões batizadas com substâncias artificiais. “Muitas vezes, o pó é misturado com corantes químicos e sais de chumbo, que podem causar alergia, vermelhidão e coceira”, alerta Wanda Cucé, diretora da empresa brasileira Surya Henna, especializada em artigos com hena. Como precaução, antes de usá-la, seja no corpo, seja nos cabelos, aplique um pouco do produto na parte interna do braço e espere pelo menos 24 horas para ver se surgem reações adversas.
Por ser natural, a hena é uma ótima opção para quem busca alternativas às tinturas químicas. Isso permite que seja aplicada em pessoas com fios sensibilizados por permanente ou alisamento e até nos cílios, além de estar liberada para as gestantes. Ela também faz bonito na hora de colorir, dar vida e volume aos fios. À medida que o pó é aplicado, ele se deposita sobre as mechas, mudando a nuance e imprimindo reflexos. Esse efeito – que dura em média dez lavagens – é cumulativo, ou seja, quanto mais a hena for usada, maior será a intensidade da cor.
Quem tem a intenção de disfarçar cabelos brancos usando o recurso precisa saber que o poder de cobertura é bastante pequeno. “A hena oferece apenas uma leve tonalidade aos fios muito claros”, informa Márcia Schnee, tinturista do salão Tampopo, em São Paulo. Ela é sob medida para quem tem cabelo oleoso. Além de ficar mais seco, também encorpa mais. Por outro lado, não é nada vantajoso para os volumosos e secos, que ficam ainda mais armados e ressecados. Para rebater esse efeito, use um condicionador rico em lanolina, queratina ou ceramida.
Encontrado em farmácias e casas de cosméticos, o produto é fácil de aplicar nos cabelos. Misture o pó com água fervente até formar uma pasta com a consistência de um mingau homogêneo. Depois, dividindo o cabelo em mechas, aplique a mistura nas raízes até cobrir todo o couro cabeludo.
No final, com a ajuda de um pente, puxe a mistura até a ponta dos fios e cubra a cabeça com uma touca plástica. O tempo de aplicação é de cerca de uma hora. Se a versão for em creme, verifique as instruções na caixinha. Se você ficar em dúvida quanto à pureza do produto, confira no rótulo se ele é formulado com ingredientes 100% naturais, testado dermatologicamente e registrado no Ministério da Saúde.