Viagem ao outro lado do mundo
Texto: Carlos Solano
Ilustração: Mariana Coan

Onze horas de vôo até a Inglaterra, por cima do grande oceano. Troca de aviões e mais umas boas 14 horas pela Europa e Rússia até que, de repente, numa bela manhã de sol... Chegamos! Onde, no fim do mundo? Não, do outro lado do mundo. Melhor dizendo: na maravilhosa China, que, no idioma local, é Zhong Quo, o centro do mundo. Com os olhos e o coração bem abertos, queremos ver até que ponto o jeito chinês de ser e de morar ainda traduz a antiga arte do feng shui...

FENG SHUI VIRTUAL
Logo na chegada, uma surpresa... O homem comum pouco sabe ou se lembra desse assunto... Hoje em dia, na cidade grande, boa parte dos chineses vive em gigantescos e áridos conjuntos de prédios, feitos de apartamentos minúsculos. E a casinha natural, com símbolos delicados, pátio e plantas perfumadas? Raríssima. E mais: no geral, não existe sala nesses apartamentos. Da entrada (onde se deixam os sapatos), se atravessa um corredor que dá acesso a um ou dois quartos, ao banheiro e à cozinha, tudo mínimo. Por isso, os móveis são superflexíveis, empilháveis ou dobráveis. E o jeito chinês de morar também é assim. Os quartos viram sala de estar, de refeições e até escritório, dependendo da ocasião. Para onde foi a arte do bem-estar?
Muita gente sabe que feng shui significa “vento” e “água”, palavras que guardam muitos sentidos. Por isso, pensando bem, essa flexibilidade de morar até pode ter a ver com shui, a água, que sabe contornar os obstáculos. E o lado feng da técnica? Bem... São poucos os objetos em casa, pois, como ela é pequena, outro aprendizado obrigatório é o de viver somente com o essencial e não reter nada. Teria isso a ver com feng, os movimentos do vento?
Na cidade, outra coisa chama a atenção: é uma espécie de rodapé gigante que existe nas portas da rua para preservar o lugar das forças poluídas. Para entrar, tem-se de pular o tal rodapé, que tem uns 30 cm de altura. A idéia “feng-shuística” de reter em casa o positivo parece persistir: reter o bem (água) e renová-lo regularmente (vento) é uma antiga indicação, pois “só é duradouro aquilo que se renova...”.
Na China atual, o feng shui está mesmo nas mãos dos eruditos. O venerável mestre Ho, um dos nossos professores por lá, conta que a casa nos afeta em até 30%, mas o entorno influencia muito mais (70%). Talvez por isso, em Hong Kong, um mestre circundou um desses edifícios com um belíssimo jardim, cheio de cascatas e água corrente.
CASA CONSAGRADA
Agora, na parte antiga da China, o feng shui parece perfeito. Os templos e os casarões espalhados pelos campos são abençoados com jardins maravilhosos, com objetos de arte, símbolos sagrados e com a beleza dos materiais naturais, pois o povo conhecia os segredos da qualidade de vida.
A casa tibetana, então, nem se fala Surge entre os cumes mais altos do planeta, feita de três ambientes principais: uma sala para cozinhar, estar, dormir em volta do fogo, um depósito e, o mais especial, um santuário para as meditações diárias, cheio de oratórios, pinturas e imagens, que têm a função de coligar a casa com o sagrado. É curioso... A família se aperta em um mesmo cômodo, mas libera um ambiente inteiro para o contato com o divino. Acreditam que, assim, a casa fica abençoada. Em toda aldeia, o povo inscreve na montanha mais próxima uma oração.
Enquanto trabalha, entoa cantos sagrados... O sopro que mantém a vida dos tibetanos, desde os tempos mais remotos, é a busca da inspiração divina, do aperfeiçoamento pessoal e o respeito pela Terra, o que se reflete na casa harmoniosa.
Ao seguir viagem para o Nepal, eu pensava na nítida diferença entre as obras do passado, inspiradas pelas ar tes da harmonia, e as atuais, os prédios sufocantes e a poluição. Faz, então, sentido resgatar um conhecimento do passado? Sem dúvida, concluí. Alguma coisa que fortaleça a vida pode estar no passado...

Carlos Solano é arquiteto e escritor, autor de livros de arquitetura e de Feng Shui. E-mail: carlosolano@ig.com.br
PARA SABER MAIS
• Seminário Anual de Feng Shui, em Tiradentes, Minas Gerais.
De 31 de maio a 3 de junho.
Tel. (31) 3378-2835, seminariotiradentes@gmail.com.



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