Traços de uma vida
Ele vive em São Paulo há quatro anos, nasceu no Rio e já morou em muitas cidades do mundo. No apartamento do designer Guilherme Leite Ribeiro, os objetos guardam lembranças de viagens e mil referências afetivas, inclusive os desenhos do avô, que decoram o corredor. Uma delícia de ver!
TEXTO: ANA SANT’ANNA
REPORTAGEM FOTOGRÁFICA: GRAÇA SALLES
FOTOS: VITOR FERNANDES

O que você vai ser quando crescer? Remador, cavaleiro, tenista, corredor, diplomata – como o pai –, campeão mundial de atletismo. Guilherme Leite Ribeiro, dono deste apartamento, resolveu enveredar pelos caminhos do design gráfico e de móveis em vez de seguir as sugestões dadas pelo avô materno quando ele ainda era um menino. Mas fez questão de compilar todos os desenhos que registram cada uma das profissões propostas – guardados desde a infância em um caderno de família – e hoje exibe todos eles em quadrinhos emoldurados na parede do hall que leva aos quartos. “Achei que essa seria uma maneira de relembrar o carinho que meu avô tinha por nós”, diz Guilherme.
Outras referências afetivas fazem parte da decoração do apartamento de três quartos e 300 m2. “Na maioria das vezes, o valor sentimental toma precedência em minhas coisas”, confessa Guilherme. Isso faz com que o designer traga, por exemplo, desenhos e fotos de amigos para a sala, em vez de mantê-los na área íntima. Móveis, objetos de decoração e quadros acumulados ao longo de anos também revelam ambientes plenos de memória.
Filho de diplomata, Guilherme nasceu no Rio de Janeiro, mas já morou em Santiago, Roma, Milão, Madri e Nova York. “Nunca acreditei nessa história de sair para comprar coisas e montar uma casa. A minha é feita de registros, viagens, heranças e também de peças assinadas por mim mesmo”, diz ele. Dono de uma personalidade inquieta e acostumado a mudanças, o designer costuma trocar objetos e móveis de ambientes, criando uma nova dinâmica nos espaços. “Gosto de renovar. Quando morei nos Estados Unidos, onde fiquei mais tempo, de 1982 a 1997, mudava de bairro pelo menos a cada cinco anos.”
Essa energia em movimento se expressa também na maneira em que Guilherme vive a sua casa. “Adoro dar festas e receber amigos e hóspedes. Geralmente, ficamos na cozinha e na sala de TV, que são meus lugares preferidos”, diz. Não foi à toa que ele colocou um sofá na cozinha. Dona Lia, a cozinheira, em plena atividade, confirma: “Ele aperta todo mundo aqui, nas cadeiras e no sofá. Adora ficar nesse cantinho. Eu insisto para servir as refeições na sala de jantar, mas ele não quer saber”.


No hall, ficam expostos os quadrinhos desenhados pelo avô de Guilherme, com as sugestões do que ele poderia ser quando crescesse. “Como são do mesmo tamanho, arranjei todos de maneira simétrica”, diz o dono do apartamento.
O banco patinado (Espaço Til) e o tapete (Jacaré do Brasil) finalizam a ambientação.
“MINHA CASA É FEITA DE REGISTROS, HISTÓRIAS, LEMBRANÇAS DE VIAGENS. ACHO QUE É UMA COMPILAÇÃO DISSO TUDO. SÓ GOSTO DAS COISAS QUANDO TÊM UM SIGNIFICADO”

Os detalhes compõem a sala de estar. O banco de madeira foi comprado em Nova York. Embaixo dele, em linhas barrocas, a mesa de acrílico está à venda na Conceito: Firma Casa. Esta peça foi desenhada pelo próprio Guilherme e leva a marca Nada Se Leva (que, aliás, é sua mesmo). Outra criação do designer é a banqueta redonda com estrutura de imbuia e almofada de pratos de enceradeira. O bule de prata, herança da avó, serve de vaso.
Na sala de estar, peças arrojadas como o sofá e a mesa de centro (Forma) se contrapõem ao tapete persa e as mesas laterais laqueadas, herdados de família. Na sala de TV, o conforto fala alto. Sofá da Adorno. Luminária, da Nada Se Leva, vendida na Conceito: Firma Casa.
A mesa e as cadeiras da cozinha vieram de Nova York, e o sofá, da casa da avó. Na parede, junto com os sambistas, um desenho de Guilherme divide espaço com o Cyrano de Bergerac feito pelo avô.
No detalhe, potes de alumínio conferem colorido à estante com utensílios variados. Uma curiosidade: o móvel de madeira, também trazido de Nova York, originalmente é utilizado por sapateiros.”









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