Por que os livros espíritas vendem tanto?
São 30 editoras no Brasil, mais de 4 mil títulos, 300 autores e mais de 90 milhões de livros impressos até hoje. E o mercado do livro espírita aumenta a cada dia. Saiba por quê.
Texto: Liane Camargo de Almeida Alves | Foto: Salvador Cordaro

Um dado surpreendeu os organizadores da última Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2003: os livros espíritas venderam 16% mais do que no evento anterior. Apenas os romances de ficção registraram os mesmos índices de venda, enquanto os livros de auto-ajuda mostraram perda de fôlego.

Para ter uma idéia da temperatura de vendas desse segmento religioso, um best-seller como Violetas na Janela ­ livro de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho que conta como é a vida depois da morte de uma jovem de 19 anos chamada Patrícia ­ vendeu 1 milhão de exemplares desde 1997 (quando foi lançado) até hoje. As obras de dois dos mais importantes autores espíritas, Chico Xavier e Allan Kardec (veja boxe), ultrapassaram 15,5 e 10 milhões de exemplares, respectivamente, segundo levantamento da Federeção Espírita Brasileira.

Fica a pergunta: por que temas como reencarnação, carma, mediunidade e vida espiritual atraem tanta gente? E mais, não só os espíritas. Somos 124,9 milhões de católicos, 26,9 milhões de evangélicos e apenas 2,3 milhões de espíritas, segundo o último censo do IBGE, de 2000. O fato de o espiritismo ser basicamente fundamentado nos ensinamentos de Jesus Cristo contribui bastante, diz o jornalista Paulo Henrique de Figueiredo, editor da revista e do site Universo Espírita, traduzido em sete línguas, incluindo o sueco e o russo. "Os livros espíritas estão relacionados ao que as pessoas já sabem sobre o cristianismo, mas dão explicações completas sobre a vida depois da morte ou a comunicação que pode ser feita com os espíritos dos que já morreram."

Na verdade, o Brasil é ecumênico. Ou seja, está aberto ao diálogo com outras religiões. "Os brasileiros se interessam pelos assuntos da alma. E nesse segmento o espiritismo oferece muitas opções", diz José Roberto Saigusa, vice-presidente da Adeler ­ Associação das Editoras e dos Distribuidores do Livro Espírita. "A pessoa pode começar com um romance do tipo água com açúcar, mas se quiser ir em frente, à procura de explicações mais profundas, vai encontrar informações dentro da ótica espírita em todas as áreas do conhecimento humano. Da filosofia à ciência, da educação à psicologia", explica Amélio Fabbro, diretor da área de marketing da mesma entidade. "Essa variedade de abordagens atrai muita gente", acrescenta.


Vida após a morte


Há ainda o fato de essa literatura oferecer algo muito procurado: conforto psicológico. "A visão de que existe vida depois da morte traz esperança e alívio para o coração das pessoas. Elas precisam disso", diz Hercília Zilli, presidente da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas, que oferece cursos e atendimentos com profissionais dessa área, parte deles gratuita. A psicóloga paulista Cândida Amaral, com especialização nas áreas de terapia familiar e bioenergética no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, lembra: "O espiritismo oferece a possibilidade de uma grande felicidade que você não pôde viver na Terra: dois apaixonados separados pela morte de um deles poderão viver juntos e felizes para sempre, a mãe recuperará a presença do filho morto. As soluções saem dessa vida para serem encontradas em outra. Tudo é muito sedutor".

Serenidade


Além de amparo, essa leitura confere outra dimensão às injustiças e desigualdades do mundo. "Se alguém está sofrendo por alguma contingência da vida, isso é explicado pela lei do carma ou pela lei de causa e efeito ­ a pessoa colhe nessa vida o que plantou na vida anterior. Não há culpados ou injustiçados", diz o professor João Décio Passos, professor do departamento de ciências da religião e teologia da PUC de São Paulo. "O cristianismo e o judaísmo são mais duros quanto a isso. Você está nessa vida, é responsável por sua situação e não tem outra existência para tentar consertar o que fez", afirma o professor. Passos destaca que há argumentações lógicas dentro da doutrina, satisfazendo o lado racional das pessoas. Allan Kardec, o pedagogo francês que sistematizou o espiritismo, o encarava como uma ciência e também como uma filosofia. "O Livro de Jó, na Bíblia, por exemplo, fala dos muitos testes a que Jó é submetido para provar sua fé em Deus. Kardec, não. Seus livros são baseados no raciocínio", compara o professor. Ao questionar o porquê de tudo com os espíritos, Kardec se aproxima de nossa necessidade de explicações racionais. Pela razão ou pela emoção, o fato é que o livro espírita está disseminando um legado de amor ao próximo, humildade e simplicidade. Página por página.

Reencarnação: quando o espírito volta a viver na Terra. Até o século 4, a teoria era aceita pela Igreja Católica.
Carma: os efeitos das ações são transmitidos para as várias vidas do espírito.
Mediunidade: capacidade de ver, ouvir ou incorporar espíritos de mortos.
Evolução espiritual: o espírito evolui para mundos mais elevados principalmente pela prática do amor e da caridade.

Allan Kardec, a base do espiritismo


O grande codificador do espiritismo nasceu em 1804 na cidade de Lyon, na França. Chamava-se Hippolyte-Léon Denizard Rivail. O pseudônimo Allan Kardec foi adotado por ele em 1857, pois esse teria sido seu nome numa vida anterior, quando vivia entre os celtas na Grã-Bretanha. Filho de uma família que dava muita importância à educação ­ seu pai era juiz ­, Hippolyte-Léon recebeu uma formação esmerada na Suíça. Em 1822, torna-se professor em Paris e depois dono de uma escola, levando uma vida modesta. Falava inglês e alemão, além do francês, e foi responsável por 21 publicações na área do ensino. Em 1854, interessou-se por fenômenos espíritas, que acompanhava como estudioso. Como educador, reuniu em livros as bases doutrinárias do espiritismo, que foram ditadas pelos próprios espíritos. Morreu em 1869. Seu túmulo é o mais visitado e florido do cemitério Père Lachaise, em Paris.

Títulos clássicos para quem quer se iniciar no assunto


O Livro dos Espíritos - Allan Kardec, Editora Federação Espírita Brasileira
Categoria: doutrina espiritual
Primeira obra publicada por Allan Kardec e um dos cinco livros fundamentais da doutrina espírita, foi lançado em 1858, em Paris. É o livro que marca o início da literatura espírita. Contém 1 019 perguntas feitas por Kardec aos espíritos superiores (maior nível de consciência e sabedoria), cujas respostas eram recebidas em sessões mediúnicas. Explica temas como reencarnação, mediunidade, evolução espiritual e vida após a morte. Também aborda questões como o aborto, o suicídio e as leis morais, de acordo com o ponto de vista espírita. Kardec acreditava que os espíritos que respondiam eram apenas homens mortos que expressavam seu nível de conhecimento. Embora tenha organizado todo esse conteúdo, os espíritos superiores são considerados os verdadeiros autores da obra.
O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec, Editora Federação Espírita Brasileira
Categoria: doutrina espiritual
Considerado a orientação básica para a atuação dos espíritas na vida cotidiana, é lido pelo menos uma vez por semana pelos adeptos da doutrina, não só para o conforto moral do que estão presentes durante a leitura mas também para a evangelização dos espíritos necessitados que eventualmente possam estar acompanhando. Comenta trechos da vida de Jesus Cristo, vistos sob a ótica do espiritismo, descrevendo as conseqüências das ações segundo a lei de causa e efeito (carma). Segundo Allan Kardec, a mensagem de Cristo pode orientar pessoas de qualquer culto religioso, pois estão fundamentadas nas leis universais de amor ao próximo, fé e caridade. O objetivo do livro também é explicar passagens obscuras dos evangelhos e mostrar a aplicação prática de seus ensinamentos.
Allan Kardec.
O Livro dos Espíritos.
O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Chico Xavier, um brasileiro


O médium espírita mais amado do Brasil nasceu em 1910, na cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais. Órfão de mãe aos 5 anos, teve uma vida difícil e fez apenas o antigo curso primário. Trabalhou num armazém e foi funcionário público até sua aposentadoria, em 1958. Em 1927, mostrou ser um grande médium já na primeira reunião espírita da qual participou. Essa capacidade foi comprovada nos mais de 400 livros deixados por ele. Seus guias espirituais mais famosos são Emmanuel, um antigo senador romano, André Luiz, um médico sanitarista nascido no Rio de Janeiro, e Humberto de Campos, escritor. Os direitos autorais de seus livros sustentaram e ainda hoje dão suporte a várias entidades filantrópicas. Chico tinha um humor invejável. Certa vez, contou em um programa de TV como os espíritos gozavam dele ao testemunhar seu medo durante as turbulências de avião, mesmo ele conhecendo tudo sobre o outro lado da vida. O médium morreu em 2002.

Títulos clássicos para quem quer se iniciar no assunto


Nosso Lar - Francisco Cândido Xavier, Editora Federação Espírita Brasileira
Categoria: literatura espírita
É o livro psicografado mais vendido em todo mundo ­ só no Brasil, foram 1,5 milhão de exemplares. Foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, grego e japonês. Francisco Cândido Xavier narra neste volume as experiências do médico sanitarista carioca André Luiz depois de sua morte. Abrange os 12 anos em que o médico ficou perdido em lugares sombrios até ser transferido para magníficas cidades construídas no plano astral (de densidade mais sutil que o plano material e invisíveis a nossos olhos). Chico Xavier psicografou mais 12 obras de André Luiz para uma coleção chamada A Vida no Mundo Espiritual, que descreve com riqueza de detalhes como é o cotidiano depois da morte.
Paulo e Estevão - Francisco Cândido Xavier, Editora Federação Espírita Brasileira
Categoria: literatura espírita
O espírito de Emmanuel, por meio do médium Chico Xavier, conta como foi a vida de dois personagens históricos do início do cristianismo, Paulo de Tarso e Estevão, conhecidos mais tarde como são Paulo e santo Estevão. Descreve as paisagens e o cotidiano na Galiléia e em Roma há 2 mil anos, com um nível de detalhamento não registrado pelos evangelhos oficiais. Em forma de romance, fala da trágica história de amor entre Paulo de Tarso e Abigail, além de mostrar as angústias e os conflitos que habitavam o coração do discípulo e seu encontro crucial com o corajoso mártir Estevão. O título foi eleito numa votação popular como um dos melhores textos espíritas do século passado.
Chico Xavier.
O livro "Nosso Lar".
O livro "Paulo e Estevão".


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