Com cara de fazenda
Não é centenária nem fincada nas Gerais, mas esta casa tem sotaque mineiro e aproveita a beleza dos materiais de demolição. Aqui, Eliane Violante recebe ao pé do fogo para um café passado na hora.
Reportagem: Regina Diniz | Reportagem Fotográfica: Ana Paula Wenzel e Conceição Wenzel | Fotos: Christian Parente

Perde até o horizonte, céu azul intenso, trinados de pássaros de muitas espécies e um trepidar de lenha no fogão sempre aceso. O casal Eliane Violante, 49 anos, e Renè Cassetari, 57, conquistou tudo isso quando escolheu as vizinhanças de Embu, nos arredores de São Paulo, para construir a casa onde moram. Quem chega tem a impressão de entrar em uma fazenda mineira com cobertura de telha de barro, janelas do tipo guilhotina emolduradas em batente largo, vigas arrematando a quina das paredes e varanda ­ a primeira parada do visitante. O gosto de Eliane pela simplicidade do interior mineiro vem desde menina, das temporadas que passou na fazenda dos tios em Santa Rita de Cássia. Ali se encantou por tachos de cobre, panelas de barro e gamelas, que hoje decoram sua cozinha. Mas não fazem só bonito: também são utensílios bastante usados no dia-a-dia. Como diz a própria anfitriã: "Não tem quem resista a um feijão ou arroz de Braga preparados lentamente no fogo".

Na sala, chama a atenção o térmico piso de tijolos, que nos dias mais frios guarda o calor do fogão a lenha. Tapetes marcam algumas áreas, como o estar e o hall de circulação, e também ajudam a tornar tudo mais aconchegante. Na verdade, cada elemento deste refúgio traz uma lembrança. Até a escada de madeira remete aos velhos filmes de Hollywood, que tanto encantaram Eliane. Traços da memória se deixam entrever ainda em arranjos de flores, delicadamente arrumadas em copos, ou nos discos de vinil, organizados dentro de um armário rústico, quase sempre de portas abertas para a música tomar conta do espaço. Eliane transformou esse olhar cultivado para o simples e o belo em profissão. Primeiro esteve no comando de dois antiquários em Embu ­ Anjo-Arcanjo e Santa Bárbara. Agora, inventa moda no Ateliê de Costura Cânticos, que mantém no mesmo terreno da casa. Nele, ela cria cortinas, toalhas, colchas e lençóis para o consumo da família e dos amigos. Mas já está pensando em ampliar a produção e vendê-la em lojas e feiras de artesanato da região.

Cada canto da casa revela o apuro estético da proprietária: cristaleiras com espelhos bisotê abrigam louças e miniaturas, herança de família. O cuidado dela com os detalhes se encontra com a criatividade de Renè, publicitário que aprendeu com a esposa o gosto pelo garimpo de peças antigas.

Amazona desde os 4 anos, Eliane compartilha a paixão pela equitação com o filho, Rodrigo. Tanto que uma coleção de estribos antigos emoldura uma parede da sala principal. Aqui e ali, o pensamento voa lá para os lados de Minas...

As horas passam lentamente no estalar da lenha no fogão.
Em sua casa no Embu, Eliane recupera as lembranças do interior mineiro.
Os bancos de igreja ao redor da mesa colonial, o moedor e a geladeira com apliques de papel ­ tudo na casa convida a uma visita ao passado.
Moedor de café
Geladeira com apliques de papel.
Detalhes garantem uma viagem no tempo
O armário rústico que guarda o toca-discos e a coleção de 300 LPs do coração.
Na sala de visitas, o piso de tijolos aquece no inverno e refresca nos dias quentes.
No quarto de hóspedes, as camas em estilo império foram feitas na cidade histórica de Tiradentes, Minas Gerais.
A banheira de ágata também veio de lá.
De Santa Rita de Cássia, terra natal dos pais da dona da casa, vieram os antigos frascos de remédio, que ainda conservam os rótulos da Pharmacia Nossa Senhora Aparecida.
A proprietária faz questão de trazer as cores e os aromas das flores frescas para dentro de casa.
Sobre a mesa em que a família se reúne, elas são indispensáveis.
O clima das antigas fazendas aparece em cada minúcia.

Na capelinha, a devoção a santa Rita de Cássia


A primeira construção que Eliane e René ergueram no terreno foi a capelinha de adobe que abriga a imagem de santa Rita de Cássia. Os tijolos de adobe, feitos de barro e capim, foram trazidos da cidade mineira de Tiradentes. Ajoelhada no genuflexório, enfeitado com uma almofada de fuxico, Eliane pede proteção para a família e os amigos. "Rezo para os santos da igreja católica, mas faço minha própria religião", diz. "Acredito na bondade das pessoas e procuro valorizar essa virtude nelas."
Capelinha em adobe.
Almofada enfeitada de fuxico.
Imagem de Santa Rita de Cássia.


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