Somos os mesmos e vivemos...
...como os gregos de ontem. Queremos saber de onde viemos e para onde vamos. Outras semelhanças? Seremos mais felizes se olharmos para dentro de nós.
Texto: Patrícia Patrício

Muito se fala da milenar sabedoria chinesa, da milenar sabedoria indiana, da sabedoria budista, hinduísta... Enfim, a sabedoria é mesmo milenar e há princípios que transcendem o tempo e as fronteiras geográficas e religiosas. Mas cada cultura tem seu jeito de expressar valores.
Herdamos dos gregos boa parte da maneira de conhecer a nós mesmos e ao mundo. O que eles disseram ainda ecoa em nossa alma mesmo vivendo em cidades tão diferentes das antigas, onde o conhecimento era guardado em templos e os filósofos eram grandes mestres.
Aliás, a bem da verdade, foram os gregos que inventaram a filosofia. As palavras philo e sophia são geralmente traduzidas como “amor à sabedoria”. Viktor Salis, estudioso da Antiguidade, conta que philo em grego, no entanto, diz mais respeito à afinidade do que ao amor. Por isso, “a expressão mais adequada para descrever o filósofo seria aquele que é afeito ao saber”.

Quem não se perguntou...


Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Essas três questões, simples de formular e difíceis de responder até por filósofos, sintetizam o desejo de autoconhecimento do homem ocidental de todas as épocas e fundamentaram boa parte do pensamento grego. Sócrates difundiu a frase “Conhece-te a ti mesmo”, convidando seus contemporâneos à reflexão sobre o sentido da existência.
Há 2,5 mil anos, a filosofia estava alvorecendo na figura desse mestre famoso, que deixou de lado o pensamento mítico, as especulações sobre a origem do Universo, para investir na busca da essência humana e de sua relação com os outros.
Ainda hoje, jogar luz no interior da alma é uma boa maneira de superar as angústias, que nossa ciência muitas vezes trata como doenças. É ainda Viktor Salis quem traduz o saber de ontem para a língua atual: “Quem não se conhece não tem claro o sentido das coisas que faz, fica num sufoco. Basta ver os que trabalham como cavalos, sem refletir, só para comprar e acumular coisas, e acabam sofrendo de depressão ou síndrome do pânico, por exemplo”.

Buscas importantes


Os que pensam já conhecer tudo não aprendem mais nada. Se você concorda com essa idéia, também está de acordo com Sócrates, conhecido pela máxima “Apenas sei que nada sei”. Ou seja, para conhecer algo bem, precisamos antes reconhecer nossa ignorância. Faz todo sentido, não?
Perceber que outras pessoas constituem uma fonte de sabedoria é outra herança dos gregos: eles elevaram o diálogo ao patamar de uma verdadeira arte de viver. Sócrates chegou a dizer que o filósofo nada tem a ensinar e só deve incentivar as pessoas à reflexão sobre aspectos importantes da vida.
Platão (428-348 a.C.), o mais brilhante discípulo de Sócrates, registrou em livros, de leitura agradável, várias conversas do mestre, nas quais aparecem temas como ética e política. E isso tem uma razão: em grego, política significa “ética para muitos”. Em tempos como o que vivemos, de elogio à diversidade cultural e da necessidade de manter o meio ambiente saudável, ser ético é essencial para qualquer atitude e ganha significação em nosso dia-a-dia.

Comer, beber, amar


Afinal o que é o amor? Essa pergunta, tema de filmes, romances e conversas, também foi feita no longínquo ano de 416 a.C. Platão registrou o diálogo entre colegas e o mestre Sócrates na obra intitulada O Banquete. Nela, vários comensais disputam a melhor definição para o amor, e o convidado especial, Sócrates, é chamado a falar. Ele levanta muitas questões e, com base nelas, algumas respostas se delineiam.
Ninguém quer a solidão. Quando amamos, desejamos o que nos completa, buscamos o divino pelo encontro de corpos e almas. E mais: essa beleza pode se traduzir na confiança e na amizade entre as pessoas ou germinar na alegria dos filhos. Viktor Salis lembra que “o amor platônico não é necessariamente sem sexo, como se costuma associar. É o amor entre casais ou entre amigos em que, acima de tudo, há a autenticidade dos sentimentos”.

Sabedoria na temperança


“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diz o provérbio. De certa forma, a frase representa uma lição deixada por Aristóteles. Discípulo de Platão, ele enveredou por um caminho diferente do mestre. Pragmático, nos deixou lembretes que deveríamos pregar na porta da geladeira para não esquecer ­ e praticar sempre: falar com franqueza, não se seduzir por elogios nem se abater com críticas, fazer poucas coisas, sem pressa e sem se preocupar demais, suportar os acidentes da vida com dignidade e graça. Aristóteles defendia que a busca da felicidade estava no justo meio-termo. Por exemplo, aquele que se diz muito arrojado erra tanto quanto quem tem medo de tudo. A coragem verdadeira fica no meio do caminho. Em outras palavras: equilíbrio. Uma virtude tão necessária em tempos instáveis como o nosso.
Heráclito (535-470? a.C.)
afirmava que tudo está em constante transformação e nada pode ser considerado fixo, eterno ou imutável. Corajoso para a época, ele disse que as pessoas deveriam refletir sobre si mesmas e escolher o próprio destino ­ isso significava o abandono dos velhos oráculos. Entre as suas muitas reflexões notáveis, uma ficou famosa: “Um homem não se banha duas vezes no mesmo rio porque as águas sempre correm”.
Parmênides (530-460? a.C.)
achava que a mudança era ilusória. Ele usou esta metáfora para explicar seu pensamento: a árvore não deixa de ser árvore desde a semente até crescer e ficar frondosa.


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