espiritualidade

Chamas do amor

Um novo olhar à luz de velas

Acendo uma vela, a fluida chama de uma vela, a boa chama de uma vela, para celebrar mais um ano de vida da revista Bons Fluidos. Ao dar uma vela acesa, estou dando um pedaço de mim mesmo. Eu sou uma vela acesa, por enquanto acesa...

Eu preciso delas, das minhas velas. Suas chamas fiéis me tranqüilizam. “Quer ficar calmo?”, perguntava o velho Bachelard. “Respira suavemente diante da chama leve que faz sossegada seu trabalho de luz.” Tão diferentes das lâmpadas! Seria possível, por acaso, amar uma lâmpada? Que emoções mansas podem nascer de sua luz forte e indiferente? Quem as chamaria de “minha lâmpada”? Todas as lâmpadas são iguais. Ao morrerem queimadas, nenhuma tristeza provocam. Só o incômodo de terem de ser trocadas por outras.

As velas são diferentes. Choram enquanto iluminam. Suas lágrimas nascidas do fogo transbordam e escorrem pelo seu corpo. Choram por saber que para brilhar é preciso morrer. Não é possível contemplar uma vela no seu trabalho de luz sem sentir um pouco de tristeza. Sua chama modesta, modulada por indecisões e tremores, faz-me voltar sobre mim mesmo. Também sou assim. Minha chama vacila ao ser tocada pelo vento. Por isso, posso chamá-la de minha vela. Somos feitos de uma mesma substância. Temos um destino comum.

As velas contam histórias diferentes. Cada uma tem um nome que é só seu. Uma delas, eu a coloquei no gargalo de uma garrafa de vinho vazia. Suas lágrimas coloridas escorreram pelo vidro e se endureceram. Não há lenço que as enxugue. Ficaram ali como lembranças de momentos passados que aconteceram à sua luz e à sua intimidade. Presenças de uma ausência, um tempo perdido cristalizado... Meu olhar atento passeia sobre as suas rugas. Noto que há cores diferentes. Aquela garrafa vazia já segurou muitas velas que se foram. Há lágrimas verdes, vermelhas e amarelas que se misturam e se recobrem num mesmo tecido de cera. Gerações que se consumiram no mesmo destino de brilhar mansamente. Procuro a vela que deveria estar ali para ser acordada. Percebo que ela não mais existe. Foi se consumindo, consumindo, até que seu último pedaço se derreteu. Não derramou nenhuma lágrima. Simplesmente caiu dentro da garrafa e desapareceu. Percebo o formato feminino da garrafa: é um útero, com sua abertura vaginal apontando o alto, como torre de uma catedral.

Pensei que talvez a vela me estivesse dizendo que morrer é como um nascer às avessas: voltar ao ventre materno. Fiquei comovido porque, de fato, uma luz que luzia em momentos passados deixou de luzir. Mergulhou o vazio. Aquela vela não mais se acenderá. Resta apenas a memória dos seus momentos de luz. Penso no que deverei fazer. Deixarei a garrafa assim como está, com suas lágrimas coloridas e o vazio? Ou colocarei ali outra vela? Não. A beleza daquela garrafa se deve justamente ao testemunho das sucessivas gerações que deixaram suas vidas gravadas no vidro. É preciso que a chama continue a brilhar. Quando uma vela se acaba, outra deve tomar o seu lugar.

utra vela tem vergonha de chorar. Escondeu-se dentro de um copo metálico que não deixa transbordar as suas lágrimas. Chora silenciosamente, sem alarde. Impedidas de transbordar, as lágrimas se transformam num lago interior plano e luminoso de cera derretida, onde a chama se reflete. O choro tem este poder: pode tornar a luz ainda mais luminosa. A vela se recusa a abrir mão da sua dor: guarda as suas lágrimas, mantém-nas presas ao seu corpo, abraça-as, reconhece-as como parte de si mesma.

Assim fazem os poetas... Sua luz é modesta: escondida pelo metal, furta-se ao olhar. Mas a sua carne de cera está cheia de um delicioso perfume de canela. Quando ela chora, o ar se enche de aroma e beleza. Penso que esta vela, talvez, tenha sido feita para os que não podem ver. Sua luz perfumada tranqüiliza até mesmo aqueles que têm os seus olhos fechados.

Tomo nas mãos outra vela. É quase tão grossa como uma garrafa. Em sua cera ocre, um artista gravou, em alto-relevo, folhas e flores. Mesmo apagada ela é bela. Mãos sensíveis que a toquem podem sentir os seus desenhos. A chama fraca foi derretendo o seu corpo, bebendo a sua carne. A chama brilha de dentro do vazio que o fogo abriu. A pele esculpida, longe demais do calor, sobreviveu intacta. Contemplada de longe, dá uma impressão de solidez e permanência. Mas basta que se acenda a chama para que se perceba a sua fragilidade. De tão gasta pelo fogo, a sua pele ficou translúcida e a luz se filtra através de sua carne efêmera. Que magnífica lição para os velhos: somente os corpos gastos pelo fogo do amor podem se tornar transparentes!

O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto.

Revistas podem ser como as velas. Poderiam, inclusive, ser chamadas de porta-chamas. Pois as palavras do poeta não são como uma chama bruxuleante? É preciso que as chamas não se apaguem. Porque a escuridão é solitária! Mas, para isso, é preciso que elas sejam tocadas com a chama do amor.

A chama brilha de dentro do vazio que o fogo abriu. Somente os corpos gastos pelo fogo do amor podem se tornar transparentes!

Rubem Alves, 71 anos, nasceu no interior de Minas Gerais e é escritor, pedagogo, teólogo e psicanalista.
Site: www.rubemalves.com.br.

abril 2005



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