|
BEM-ESTAR
Troca de olhares
Quando tentamos entender a vida do
ponto de vista de outra pessoa nasce a empatia, fundamental
para unir amigos e solidificar amores e relações
de trabalho. Veja o que pesquisadores franceses, de filósofos
a fisiologistas especialistas em comportamento, concluíram
depois de mergulhar no assunto.
Quantas vezes dizemos “coloque-se
no meu lugar” ou “coloque-se no lugar dele”?
Como conseguimos sentir as emoções de outra pessoa
ou mesmo pressentir suas intenções e compreender
suas motivações? Como podemos adotar o ponto de
vista de alguém e, ao mesmo tempo, manter nossa identidade?
Essas questões têm a ver com a empatia, uma faculdade
essencial para as relações humanas e para a vida
em sociedade.
E esse é só o começo da história.
Na França, as investigações de uma equipe
de especialistas resultou no livro recentemente lançado
L’Émpathie (A Empatia), uma obra coletiva que trata
do tema sob diferentes aspectos – do fisiológico
e psicológico ao neurológico, passando pelo filosófico
e ético.
Sem essa capacidade de adotar o ponto de vista do outro, o mundo
seria habitado por psicopatas e autistas, concluem os pesquisadores.
Mesmo existindo também em alguns primatas e pássaros
e nos golfinhos, é no homem que se desenvolve de forma
mais elaborada.
O poder de um olhar
Mais do que pela linguagem, é pelo olhar que a empatia
se manifesta no ser humano. Graças aos avanços
dos estudos das imagens do cérebro, sabe-se hoje que
o contato do olhar ativa a amígdala (região do
cérebro onde se processam algumas sensações)
e todo o sistema de emoções. “A troca de
olhar é a forma mais fundamental de compreensão
e aceitação do outro”, nota Alain Berthoz,
diretor do Laboratório de Fisiologia da Percepção
e da Ação, do Collège de France.
Segundo ele, na troca do olhar encontramos três componentes
da empatia: 1) eu te olho; 2) você me olha, mas eu devo
compreender o que esse olhar, experimentado por nós e
dirigido para mim, significa; e 3) nasce da troca do olhar um
elo que não pertence nem mais a mim nem a você,
mas ocorre entre nós. “Isto é, de repente
percebo esse elo que nos liga no mundo como se sobrevoasse a
cena. Eu nos percebo juntos como um objeto no mundo”,
diz ele, explicando que essa empatia é a qualidade que
garante as relações em que há a liberdade
para escolher pontos de vista próprios.
Simpatia é outra coisa
É preciso, antes de tudo, não confundir empatia
com simpatia, assinala o francês Gérard Jorland,
pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Sociais e um dos
organizadores da obra. Designa-se por empatia a capacidade de
se colocar no lugar do outro para tentar compreender seus sentimentos
sem necessariamente experimentar as mesmas emoções.
A simpatia, ao contrário, consiste em experimentar as
emoções do outro sem necessariamente se colocar
no lugar dele. A simpatia é um contágio de emoções,
sendo o riso em cadeia um exemplo típico. Da mesma maneira
que podemos chorar ao ver alguém chorar, porém
sem saber o motivo. A empatia pode alimentar a simpatia, mas
esta não é uma conseqüência necessária,
acrescenta Élisabeth Pacherie, filósofa do Instituto
Jean-Nicod. Compreender o sofrimento ou a alegria que ele sente,
se colocando no lugar do outro, não implica o desejo
de ajudá-lo. “O objeto da empatia é a compreensão,
e o objeto da simpatia é o bem-estar do outro. (...)
Em resumo, a empatia é um modo de conhecimento e a simpatia
um modo de encontro com o outro”, define o psicólogo
americano Lauren Wispe.
Perceber x entender
A empatia não é só um instrumento de conhecimento
da outra pessoa mas também do mundo e de nós mesmos,
diz Elisabeth Pacherie. A filósofa elaborou um esquema
de “anatomia da emoção”. Imagine,
por exemplo, Simone brava com Jacques por ter sabido que ele
quebrou a peça mais preciosa de sua coleção
de vasos chineses. Trata-se de uma reação a uma
situação. Mas, enquanto Simone não souber
que seu vaso foi quebrado, ela não tem motivo para estar
brava e, enquanto não souber que o autor foi Jacques,
também não terá por que estar chateada
com ele. Mais ainda, pode ser também que o vaso nem tenha
sido quebrado, e que o marido de Simone tenha mentido para ela
de brincadeira.
Em certos casos, não é nem mesmo necessário
que as situações que provoquem emoções
sejam verdadeiras. “A ficção, às
vezes, nos emociona mais do que a realidade”, diz a filósofa.
A reação de Simone depende ainda de sua avaliação
da situação, de seus interesses, motivações,
valores, objetivos e desejos. Jérôme, o filho de
Simone, que pouco se importa com a coleção de
vasos chineses da mãe, poderia, por exemplo, ter recebido
a notícia com completa indiferença. Esse é
um exemplo para mostrar que os graus da empatia podem ser variados.
Perceber que uma pessoa está triste não significa
entender a razão do sentimento e menos o porquê
da tristeza. Para Gérard Jorland, vivemos numa sociedade
egocêntrica, em que cada um é muito preocupado
consigo mesmo. O mundo virtual da internet e dos videogames,
se mal utilizado, pode desviar para a falta de troca nas relações.
“É um universo fechado, no qual cada um contempla
sua imagem, em que se projeta o que se quer em personagens criados”,
nota.
Hora de ser empático
O pesquisador, no entanto, é otimista. Acredita que a
tendência é que, cada vez mais, as pessoas tenham
que considerar o ponto de vista dos outros para viver bem e
aceitar as diferenças culturais, intelectuais, afetivas.
“Não há dúvida de que hoje existe
a falta de empatia, mas isso não quer dizer que ela não
exista. As pessoas estão tão preocupadas consigo,
que exercem pouco a empatia.” Não perca as chances
que a vida dá para ser empático e simpático.
 |
“A
empatia é um modo de conhecimento e a simpatia um
modo de encontro com o outro”
Lauren Wispe, psicólogo americano, um dos autores
do livro L’Émpathie |
Texto: Fernando Eichenberg
abril 2005
|