Natureza

Para comer com os olhos

Com suas cores vivas e límpidas e brilho faiscante, as pedras brasileiras atiçam o desejo e parecem irradiar a forte energia de sua origem – as profundezas da terra. Quem consegue não cair em tentação?

Observe uma pedra preciosa bem de perto, com atenção. Repare na pureza da cor, na transparência, na superfície multifacetada que reflete a luz em infinitos matizes. Toda essa beleza é resultado de um longo e caprichado trabalho da natureza, que pode ter demorado milhares de anos, milhões até. “É esse o tempo que os átomos das rochas no interior da Terra levam para se ordenar e formar minerais cristalinos, perfeitos”, explica o geólogo Rainer Schultz Guttler, professor de gemologia da Universidade de São Paulo.
A profundidade, a temperatura, a pressão e os elementos químicos é que determinam as características das pedras preciosas, como o fato de serem translúcidas ou opacas. Quando extraídas das entranhas da terra, as pedras ainda conservam o aspecto bruto. Depois chega a vez do trabalho delicado das mãos do homem. A lapidação, feita com serras e abrasivos, cria talhes e facetas cujo posicionamento ideal busca intensificar o brilho das pedras e torná-las ainda mais atraentes. O resultado é um fascínio que remonta a mais de 5 mil anos, época em que foram feitas as primeiras jóias.

“As pedras eram consideradas seres vivos, carregados de anos de experiência, capazes de desvendar para os homens os segredos escutados através dos séculos”, diz a estudiosa Barbara de Lellis no livro A Magia das Pedras e Cristais (ed. Planeta).

Fascínio milenar

Ao longo do tempo, as pedras se tornaram cada vez mais cobiçadas e fazem parte de rituais milenares e práticas de magia e meditação. “Foram amuletos, talismãs, objetos de culto e base para elixires medicinais”, completa a pesquisadora.

A raridade de algumas pedras, como o diamante, a esmeralda, o rubi e a safira, levou o mercado a classificá-las como preciosas, e as demais, como semipreciosas. “Hoje o termo gema, sem distinção, é mais adequado para defini-las”, afirma o geólogo Paulo Roberto Ferreira de Albuquerque, de São Paulo.

Pródigo em recursos naturais, o Brasil é um dos grandes produtores mundiais de gemas, com jazidas espalhadas de norte a sul. Entre elas estão a granada, o topázio, a turmalina, a água-marinha e a ametista, cuja beleza e significado você desvenda nas próximas páginas.


Água-marinha, a delícia do oceano (Foto de abertura)

A limpidez e os delicados tons de azul da gema remetem ao mar. Sua associação com a Lua e a influência do satélite sobre as marés levava os marinheiros a adotá-la como um amuleto contra os naufrágios. As ricas jazidas de Minas Gerais atualmente fazem do Brasil o grande produtor dessa pedra do grupo dos berilos, ao qual pertence também a rara esmeralda. A água-marinha é citada várias vezes como um remédio no milenar tratado de medicina Aiurveda, um dos livros sagrados da Índia. Na Idade Média, a famosa família Bórgia, de que faziam parte Lucrécia e seu pai, o papa, incrustrava essas pedras em suas taças. Ainda hoje é considerada uma gema de propriedades harmonizadoras e calmantes e um poderoso talismã para os viajantes.


Ametista para adoçar a alma
Um mito da Grécia antiga explica o surgimento desta gema de coloração violeta, da mais escura à quase transparente. A ninfa Ametis amava Dionísio (Baco, segundo a denominação romana), deus do vinho, mas, ao ser desprezada por ele, se transformou em uma pedra capaz de minimizar os efeitos da bebida. Conhecida como amuleto contra a embriaguez, seu nome original, amethystos, pode ser traduzido como “não ébrio”. Nos tempos medievais, a ametista simbolizava o poder e era ostentada em anéis por reis, príncipes e papas. Há uma grande quantidade desse quartzo no Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul e na Bahia. Relacionada a paz, espiritualidade e meditação, é considerada uma pedra curativa para os males da alma. Diz-se que colocar uma ametista sob o travesseiro afasta a insônia e os pesadelos.

Anéis de ametista da Vivara (na horizontal) e da H. Stern. Toalha da Roupa de Mesa.

Granada, tentação lapidada
O nome granada remete a grão e batiza em várias línguas, como o espanhol e o italiano, a romã, fruta cujas sementes cristalinas vermelho-sangue lembram a pedra. Apesar de ser mais conhecida pela cor púrpura, a gema aparece também em outras tonalidades, que vão do verde ao castanho, passando pelo laranja. Na Antiguidade, era considerada sagrada e usada como talismã contra raios e tempestades. “Na Idade Média, ela era empregada para curar feridas e infecções”, conta a pesquisadora Barbara de Lellis em seu livro A Magia das Pedras e Cristais. Por essas propriedades regenerativas e energéticas associadas ao sangue, acredita-se que usar uma granada junto ao corpo combata o desânimo e produza um efeito estimulante. No Brasil, as pedras de melhor qualidade são encontradas no estado de Tocantins.

Granadas da Jóias Lorena, toalha da Roupa de Mesa.

A doce e amorosa turmalina
Existem as verdes, as vermelhas, as brancas, as negras... A riqueza de cores é uma das principais características destas gemas, formadas entre 5 e 15 km de profundidade. Tanto que é comum a mesma jazida produzir pedras de diferentes tonalidades e até exemplares que mesclam verde, rosa e preto, por exemplo. No Brasil, Minas Gerais e Paraíba são importantes produtores. Às turmalinas verdes atribui-se o poder de abrir o coração, liberando as emoções negativas e, ao mesmo tempo, funcionando como um amuleto protetor.

Turmalinas verdes da Jóias Lorena. Manta da Cor do Sol.

Topázio tem brilho açucarado
Vem da antiga ilha de Topazos (atual Zegarbad), na costa do Egito, no mar Vermelho, o nome deste cristal da família do quartzo, que apresenta colorações entre o amarelo-dourado e o azul. Conhecido desde 1751 e hoje explorado em escala comercial só na região de Ouro Preto, Minas Gerais, o topázio imperial – o tipo mais raro e valioso – é encontrado ainda na Rússia e no Paquistão. Pode ser incolor ou assumir tons de laranja intenso, amarelo-alaranjado e até vermelho-cereja. Essas cores conferem à gema propriedades energéticas e estimulantes.

Anéis de topázios imperiais com diamantes da H. Stern. Manta da Cor do Sol.

Texto: Wilson F. D. Weigl
Reportagem: Roberto Abolafio Jr.
Reportagem Fotográfica: Camile Comandini
Fotos: César Cury

abril 2005



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