Viagem

Hoch Leben die Verlobten!

Os antigos costumes dos imigrantes alemães inspiraram o casamento de Daniel Wachholz e Nancy Montenegro. A cerimônia envolveu toda a comunidade de Pomerode, SC, que redescobriu sua própria história.

Tempos atrás, o bisneto de alemães Daniel viu a mexicana Nancy de relance em um casamento na cidade de Florianópolis, mas logo a perdeu de vista entre os convidados. “Apesar do breve instante, tive certeza de que era a mulher de minha vida”, lembra Daniel, que, então, saiu à procura dela por toda a festa. “Ao descrevê-la para os convidados, só podia dizer que era linda e usava um pequeno chapéu. Não sabia sequer qual era a cor de seus cabelos.”

Sua busca se prolongou por dois longos anos. Daniel procurou pistas por toda a ilha que o levassem à moça daquela visão tão fugaz. Finalmente a encontrou, e foi a vez de Nancy se apaixonar. (Detalhe: na verdade, o chapéu que ela usava na festa escondia a falta de cabelos. Na época, ela havia passado com sucesso por um tratamento quimioterápico.)

Gerânios e olhos claros
Depois de alguns meses de namoro, Daniel levou Nancy até Pomerode, sua terra natal, no interior de Santa Catarina, para apresentá-la aos avós e marcar o casamento. Pomerode é considerada a mais alemã das cidades brasileiras. Seus habitantes descendem de colonos que vieram da Pomerânia, uma antiga região no norte da Alemanha, junto ao mar Báltico, na fronteira com a Polônia.

Os primeiros imigrantes pomerânios chegaram ao Brasil em 1850 em busca de uma nova vida. A cidade de Pomerode, entretanto, só foi fundada em 1863. Além dos traços físicos, os cabelos louros e os olhos claros, seus habitantes conservam dos antepassados o idioma, a arquitetura em estilo enxaimel – as casas são estruturadas com toras de madeira –, o gosto por tortas e o costume de enfeitar as janelas com gerânios.

Nancy e Daniel compartilhavam um desejo quando pensavam em se casar: ele, o de usar roupas típicas da Alemanha, e ela, do México, em uma cerimônia fora do comum. “Mas ficaria muito estranho misturar os trajes”, diz, divertindo-se, a noiva. Daí, tiveram a idéia de reproduzir uma festa tipicamente alemã dos idos de 1910. “Escolhi essa época porque antes as mulheres se casavam usando preto, o que seria absolutamente impensável”, explica Nancy. A partir de 1900, véus brancos foram permitidos, mas o vestido continuava escuro. Apenas por volta de 1910 ele passou a ser branco.

Mergulho na história
“Foram oito meses de pesquisas em museus e arquivos históricos, procurando fotografias, revistas e jornais antigos”, conta Roseli Zimmer, historiadora que, juntamente com a Fundação Cultural de Pomerode, ajudou a organizar a festa, reproduzindo os antigos costumes em todos os detalhes, inclusive os mais curiosos, como a carroça do enxoval da noiva, que carrega cama, baú, travesseiros e edredons de penas de ganso e lençóis bordados – além de várias galinhas. Atrás da carroça, seguiram amarrados vacas, porcos e ovelhas. Tudo como antigamente.

Foi cumprido à risca também o ritual do quebra-cacos: parentes e amigos íntimos trouxeram vistosos pacotes cheios de... louças velhas e lascadas. Propositalmente desajeitados, deixavam cair os “presentes” com estardalhaço. Os cacos simbolizavam os votos de sorte e alegria aos noivos.
Outra curiosidade mantida foi a caixa de recordação do casamento. As flores da noiva, a flor da lapela do noivo e os papéis em que cada um dos cônjuges escreveu um voto secreto foram colocados numa caixa de madeira, confeccionada pelo padrinho da noiva. Ele a lacrou, entregou aos noivos e lembrou-lhes da responsabilidade de um para com o outro. Segundo a tradição, essa caixa só pode ser aberta depois que a morte separar o casal. Padrinhos, testemunhas, convidados e padre também usaram roupas típicas, reproduzidas por costureiras e alfaiates seguindo o figurino da época, como mostravam as fotografias antigas.

A cerimônia em Pomerode comoveu a todos – parentes, convidados e os próprios moradores da cidade. Foi como se, durante algumas horas, todo mundo tivesse voltado 100 anos atrás e reencontrado suas famílias e raízes em algum lugar da história.

Ao chegar à igreja da comunidade luterana de Pomerode, a noiva, conduzida pelo padrinho, foi saudada do balcão pelas cantoras do grupo Pommem Sanger.
Cantoras do grupo Pommem Sanger.
O cortejo nupcial seguiu a pé, ao som de antigas canções folclóricas.
Padrinhos e testemunhas chegaram à igreja em “carros de mola”. Era assim que os primeiros imigrantes alemães chamavam as charretes enfeitadas com flores.
O padre e os convidados vestiram roupas de festa que reproduziam fielmente o figurino dos imigrantes alemães dos anos 10 do século passado.
O padre vestido com roupas dos imigrantes alemães dos anos 10.
Na saída da igreja, os noivos foram saudados com a tradicional chuva de pétalas de flores.
Convidados a caráter.
A carroça que levava o enxoval da noiva, baús, roupas e até a cama.
Nancy e Daniel deixam a igreja e acenam para os convidados, que se comoveram com o resgate da história de Pomerode.

Texto e Fotos: Silvia Reali e Heitor Reali

abril 2005



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