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ESPIRITUALIDADE
Por gentileza...
Dedicação, paciência,
solidariedade, atenção e carinho moram na palavra
gentileza. Um ato gentil gera outro e são essas atitudes,
até mesmo as muito simples, que nos impulsionam a ir
em frente, renovando a sensação de que pertencemos
a uma grande tribo humana. E há infinitas maneiras de
praticar a gentileza – a arte do bem.
Para a advogada paulista Maria Anita Fontes Leichsenring, sua
avó Nenê era sinônimo de gentileza. Ela lembra
que, quando pequena, a avó acordava mais cedo nos dias
frios, passava a ferro uma camiseta de escola e a colocava debaixo
das cobertas de Anita, que se vestia no quentinho, sob os lençóis.
Com a gentileza vinda do berço, o trânsito foi
o espaço que Anita elegeu para se fazer gentil. Ela evita
buzinar, dá vez para os carros passarem, oferece carona
e deixa o passageiro na porta de casa. Apesar de os vidros escuros
serem mais seguros contra a violência, ficou com os claros.
“O insulfilm não permite que as pessoas se conheçam
e possam trocar agradecimentos”, diz.
Questão de sobrevivência
Exemplos não faltam para dar luz sobre o assunto, e você
provavelmente deve estar se lembrando de algum agora. E quem
estuda o tema pensa grande. “A gentileza salva nossa vida”,
aponta o livro A Arte da Gentileza (ed. Alegro), em que o psicoterapeuta
italiano Piero Ferrucci explica que o homem sempre usou tal
atributo para alimentar e proteger os filhos – por mais
tempo do que qualquer outro mamífero! – e lembra
que a gentileza foi fundamental para vencermos problemas, desenvolvermos
a inteligência e aprimorarmos os dons naturais. Ferrucci
juntou várias qualidades para explicar esse comportamento.
Segundo ele, seria a soma de solidariedade, afetividade e dedicação.
E também calor humano, lealdade, paciência e gratidão.
Já o teólogo e escritor Leonardo Boff aponta que
a gentileza está em aceitar os outros em suas diferenças.
“E ser aceito assim como somos”, completa.
Um ato gentil tem três características básicas.
A primeira é a gratuidade. Gentileza verdadeira não
espera nada em troca. Nem prêmio, nem flores, nem beijo.
“Ela tem uma pitada de altruísmo. É um gesto
desinteressado de servir a alguém ou a alguma causa”,
diz o psicoterapeuta Antonio Carlos Amador Pereira, professor
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Também precisa ser honesta. Dizer sim para tudo,
com medo de magoar as pessoas, fere os princípios da
gentileza autêntica. Seguir a etiqueta à risca,
apenas por segui-la, é outra derrapada. “Eis um
sujeito bem-educado, mas não necessariamente gentil”,
diferencia Ferrucci.
O terceiro ponto é o tamanho do gesto. Em geral, a gentileza
está em atitudes cotidianas e simples, nada tão
excepcional que não possa ser copiado. Levar o café
da manhã na cama para uma pessoa querida, ouvir com atenção
o que o outro tem a dizer, dar bom-dia no elevador, ceder uma
vaga no trânsito para alguém com mais pressa...
Música para dissolver
a solidão
O empresário Silvio Bertolini, de Campinas, São
Paulo, também usa a rua para um gesto de gentileza. Nos
fins de semana em que visita a filha, vai para a frente do prédio
em que ela mora e toca músicas ao trompete, seu instrumento
de coração. Os vizinhos saem para acompanhar ou
mesmo fazer pedidos. “Há muitas pessoas que sofrem
de solidão, e a música pode atenuar isso”,
acredita. Dia desses, ele experimentou o efeito contagioso desse
gesto. Do outro lado da rua, muitos andares acima, outro trompetista
surgiu e eles fizeram um dueto de Carinhoso, música de
Pixinguinha e João de Barro.
Gentileza, enfim, gera gentileza. O grande porta-voz dessa história
foi José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza.
Nascido em Cafelândia, no interior de São Paulo,
Datrino abandonou família, amigos e caminhão para
sair pelo Rio de Janeiro pregando atos de compaixão e
solidariedade. Vestia-se como um profeta, de túnica e
sandália, e carregava um estandarte no qual escrevia
frases sobre a gentileza. Por mais de 20 anos circulou pelo
centro carioca e nas barcas que ligam o Rio a Niterói,
fazendo pregações e, a partir dos anos 80, passando
a escrevê-las nas pilastras do viaduto do Caju, na entrada
da cidade. Seu evangelho se estendeu por 56 delas, nas quais
anunciava a força do amor cristão e da gentileza
contra a violência.
O Profeta não perdia eventos, passeatas, atos públicos
em que pudesse transmitir sua mensagem. Na ECO-92, postou-se
em um lugar estratégico para incitar os representantes
dos povos a levar a gentileza ao resto do mundo. Na passeata
pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello,
no mesmo ano, Datrino estava lá. Sua imagem e determinação
impressionaram o cineasta Dado Amaral, que fez um curta-metragem
sobre o profeta. Um não, dois. Os documentários
Gentileza e Por Gentileza compilam suas idéias e revelam
o perfil polêmico do Profeta. “Ele era uma pessoa
muito inteligente”, define Dado. “Quando diziam
que parecia maluco, respondia: ‘Sim, sou maluco, mas maluco
beleza’.” O cineasta lembra que quem viu os filmes
se sensibilizou com a questão. Ele mesmo se sente transformado.
“O Profeta me ensinou que o excesso de competição
e a necessidade de vencer a qualquer custo esfriam as pessoas.”
Na busca pelo “retorno à humanidade”, Dado
prepara um terceiro filme, com novas imagens do Profeta, morto
em 1996.
Efeito contagiante!
Dado não foi o único entrevistado a falar sobre
o “esfriamento global”. Leonardo Boff também
mencionou isso, mas usou a palavra “enrijecer”.
Ele busca explicar como a gentileza perdeu espaço apontando
duas vertentes na modernidade. A primeira, baseada na técnica,
desenvolveu luz elétrica, carro, geladeira e cada vez
mergulha mais na tecnologia. “Trouxe comodidade, mas encheu
o mundo de aparatos frios”, diz. A segunda, fundada na
ética, valoriza os direitos humanos, a democracia e a
subjetividade. Nela, sim, há lugar para o cuidado e a
gentileza, porém essa vertente está em baixa.
Por vergonha, falta de treino ou medo de parecer vulnerável,
as pessoas não expressam esse sentimento.
Ao estilo do Profeta e na linha de pensamento de Ferrucci, o
teólogo prega a urgência da gentileza em todas
as relações, a começar pela família.
Se os pais são gentis nas atitudes e nas palavras, a
criança absorve isso. A educação escolar
vem na seqüência. O currículo, diz ele, deveria
contemplar a criatividade e os valores essenciais, avaliando
menos o QI e mais o QE (quociente emocional e espiritual). Quem
perdeu a chance de aprender a ser gentil não está
perdido, afirmam os três. Se o ambiente não favorece,
que se façam piruetas para driblar a dureza. Afinal,
a virtude mais doce é coisa da espécie, está
no sangue e, para alguns, lateja nos genes. Faz parte do instinto
de sobrevivência, como foi dito no começo. E traz
um bem tão grande à alma que seria uma maluquice
desmerecer o poder dessa arte de cuidar de si mesmo, dos outros,
do planeta.
Gentil tem a ver com gente
Por Carlos Solano
Belo Horizonte tem muita coisa boa. Tem pão de queijo,
montanha, feira de flores e tem o Instituto de Arquitetos, que
criou, há 11 anos, o prêmio Gentileza Urbana para
estimular a qualidade de vida na cidade. Desde 1993, foram premiadas
90 iniciativas gentis: um trompetista que, ao entardecer, espalha
suaves melodias pela vizinhança; as irmãs beneditinas,
que recuperaram os sinos (e os sons) do mosteiro onde vivem;
a senhora que, no Natal, constrói um presépio
maravilhoso e abre a casa oas vizinhos; um grupo de lixeiros
que canta enquanto trabalha; um músico que faz cirandas
em praça pública; a pintura do prédio da
Santa Casa, um hospital cuja aparência entristecia a vida
da cidade; a construtora que aumentou o recuo de um novo edifício
para que os pedestres usufruíssem de mais espaço
na calçada; o projeto Arte no Ônibus, que reproduz
pinturas e poesias em cartazes fixados no transporte público.
E por aí vai.
A cidade agradece. Melhor dizendo, a vida agradece. Afinal,
como disse o filósofo Moacir Laterza, gentil tem a ver
com gente. A premiação, que se originou em Minas,
atualmente se espalha por outras cidades do país, pois
ainda é tempo de ser agente. De ser gente. Portanto,
faça a sua arte, quero dizer, parte. E siga a sugestão
de um gentil desconhecido: “Só passarei por este
mundo uma vez. Assim, todas as boas ações que
eu puder praticar e todas as gentilezas que eu puder dispensar
a qualquer ser humano, devo aproveitar este momento para fazê-lo.
Não devo adiá-las nem me esquecer delas, pois
não voltarei por este caminho”
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Só o amor pode
derrotar a violência. Essa era a máxima do
Profeta Gentileza, que durante anos gravou seus pensamentos
em um viaduto do Rio de Janeiro. |
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Detalhe
dos escritos do profeta gentileza. |
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Um canteiro bem cuidado
e paredes de cores suaves, em uma esquina da capital paulista,
lembram que a gentileza pode ser também uma expressão
urbana. |
O mineiro Carlos Solano é arquiteto
e assina nossa coluna Casa Natural/Casa Oriental.
Texto: Mônica Manir
Fotos: Regina Stella
MARÇO 2005
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