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AUTO-CONHECIMENTO
E agora, o que e que eu faço?
Quando o assunto é ganhar a vida,
essa pode ser uma pergunta que exija uma resposta decisiva.
Para fazer a escolha certa, o primeiro passo é reconhecer
quais são nossas verdadeiras habilidades e reunir essas
muitas peças, que às vezes estão esquecidas.
Elas guardam a semente para a virada em direção
à realização profissional. Veja como descobrir
se chegou a hora de mudar ou de, pelo menos, começar
a pensar em novas possibilidades.
A cada dia que passa, sentimos que temos que trabalhar mais
e melhor. Passamos muito tempo de nossa vida na empresa, ao
telefone, em frente do computador, lidando com números,
com gente. É quase óbvio que precisamos nos sentir
bem, se não o tempo todo, ao menos em uma boa parte dele.
Quando carregamos a sensação de que o trabalho
não reflete nossa natureza ou passa longe do que acreditamos
ser nossa missão, pode ser hora de mudar. O que fazer
então?
Em alguns casos, basta uma ligeira readequação
de funções ou atribuições. Em outros,
é preciso uma guinada total e recomeçar praticamente
do zero. Seja como for, mesmo que a mudança seja uma
exigência de uma época de crise – causada
pela perda do emprego ou uma separação, por exemplo
–, qualquer virada bem-sucedida deve sempre começar
de dentro para fora.
É o que afirma o arquiteto e publicitário Roberto
Straub, de São Paulo. Ele entrevistou 300 pessoas que
fizeram viradas profissionais, colocando as convicções
pessoais à frente dos padrões de sucesso. Quarenta
e cinco dessas histórias compõem o livro E Agora,
o que É que Eu Faço? (ed. Person), que será
lançado neste primeiro semestre. Basicamente, ele aponta
saídas para que o trabalho e o coração
estejam em sintonia.
Além disso, Roberto ministra cursos para quem está
em processo de redefinição profissional ou traçando
um projeto de vida. Ele se baseia em 14 anos de atuação
em pesquisas sobre hábitos de consumo para agências
de publicidade, somados a conhecimentos de administração,
marketing e literatura. As aulas são ilustradas por relatos
de pessoas de todas as idades que, em algum momento, decidiram
fazer o que gostam e, não sem percalços, encontraram
seu caminho. Ou, como diz o especialista, escutaram o “chamado
interno”.
Mitologia pessoal
“Ouvir esse chamado nos alinha com o que somos e queremos
na vida”, diz Roberto. Claro que nem sempre a mudança
é radical e acontece de maneira súbita. Às
vezes, é uma nova atividade ou um novo enfoque sobre
o antigo trabalho, que vai entrando gradativamente no cotidiano.
Segundo Roberto, cada um de nós tem um “enredo”,
que demarca nossa trajetória e revela padrões
em que aparecem, explícitos ou disfarçados, nossos
verdadeiros talentos e habilidades. “Estar atento a esse
enredo nos faz perceber com clareza quando e como mudar”,
afirma ele.
Para ajudar seus alunos a descobrir o que ele chama de “mitologia
pessoal”, ele conta mitos de todo o mundo – dos
deuses da Grécia antiga aos contos budistas e da tradição
sufi. Todos eles, diz Roberto, revelam arquétipos –,
imagens do inconsciente comuns a todos os seres humanos, em
todas as épocas, que contribuem para que cada um recupere
sua trajetória e reconheça seus talentos esquecidos
ou desperdiçados.
“Nos contos e mitos, é freqüente o herói
jogar fora um anel mágico, por exemplo, por não
perceber seus poderes. Ou guardar, sem saber, um tesouro enterrado
no quintal e o descobrir ao acaso depois de quase tropeçar
nele”, continua o estudioso.
Herói de si mesmo
Quem não tem consciência de seu próprio
enredo, diz Roberto, perde de vista sua verdadeira essência
e, na hora da escolha, leva em conta apenas expectativas alheias,
da família e do meio social. O ponto de partida para
restabelecer essa conexão, segundo o especialista, é
fazer uma investigação interior e descobrir quais
são nossas habilidades. Por serem tão naturais,
feitas com gosto e sem esforço, algumas vezes nem consideramos
a possibilidade de ganhar a vida fazendo justamente isso, frisa
Roberto Straub. “É comum alguém se achar
falante, desinibido, sem notar que na facilidade de comunicação
está a chave do sucesso em uma função como
relações-públicas”, exemplifica.
Há também talentos que são recorrentes
em uma família e se manifestam de geração
em geração, como uma herança que temos
a nosso dispor – e da qual podemos fazer bom uso ou não.
“Nos contos, há sempre a história do pai
que entrega uma mesma quantia de moedas de ouro aos três
filhos, que saem pelo mundo. Quase sempre, só um deles,
geralmente o que aparentemente é o menos qualificado,
consegue voltar rico e próspero”, lembra Roberto.
O mapa do tesouro
Para descobrir qual é nosso tesouro pessoal, um bom exercício
é fazer um inventário do que fazemos com muito
prazer e também do que os outros valorizam em nós.
“Acreditamos que nosso dom deva ser algo grandioso, excepcional,
mas o diferencial que nos distingue dos outros profissionais
costuma ser apenas um detalhe, que ampliamos e deixamos em evidência.
Às vezes o que se faz não é novo, mas a
maneira como realizamos algo acrescenta uma qualidade especial
ao produto ou serviço. E é por isso que chama
mais a atenção”, explica Roberto.
“Passamos muito tempo da vida trabalhando, por isso, quanto
mais essa atividade for adequada a nossa natureza, maior a probabilidade
de nos sentirmos realizados e bem-sucedidos”, finaliza
o publicitário.
Descubra seus talentos
Este exercício, desenvolvido pelo publicitário
Roberto Straub, ajuda a descobrir habilidades que podem estar
latentes dentro de você sem que sejam percebidas ou exploradas.
Nesses talentos, pode estar a chave para uma mudança
ou uma readequação profissional.
Desenhe sua árvore pessoal de habilidades.
1 - Faça um retângulo representando o tronco da
árvore e, ao lado, coloque pelo menos cinco habilidades
que você tem. Use verbos de ação para expressá-las,
como escrever, desenhar, analisar. Escolha o que proporciona
muito prazer e/ou seja reconhecido pelos outros como diferenciais
seus.
2 - Observe suas habilidades e procure ser bem específico.
Verbos como falar, comunicar, ajudar são muito generalistas.
Especifique o tipo de situação em que você
é efetivo ou encontre um verbo ou frase que expliquem
melhor sua habilidade. Por exemplo: falar em público.
3 - Desenhe três quadrados abaixo do tronco, representando
suas raízes. O primeiro quadrado representa você
aos 7, 8 anos. Nele, escreva cinco habilidades que tinha quando
criança, levando em conta o tipo de brincadeira de que
gostava e seus interesses na época. Lembre se eram jogos
fora ou dentro de casa, de concentração, competição
etc. Explore sua memória.
4 - Repita o mesmo para os outros dois quadrados. O segundo
representa você aos 14 anos, e o terceiro, uma idade a
sua escolha, entre aquela época e agora. Perceba o que
foi sendo agregado junto com o ensino formal a sua vida profissional
e também o que foi esquecido.
5 - Observe atentamente suas habilidades, amplie, acrescente,
procure especificar ao máximo tudo o que sabe fazer.
Por fim, volte ao começo do exercício. Desenhe
cinco traços, como os galhos da árvore, e escolha
cinco habilidades entre todas as que você quer preservar
e usar no futuro.
É sempre possível afinar coração
e profissão.
Veja histórias de gente que conseguiu essa sintonia.
“Sem grandes pretensões, criei uma bolsa
e me tornei uma empresária de sucesso”
“Minha formação escolar foi conturbada.
Eu não gostava de estudar, fugia da escola. Depois de
um entra-e-sai de colégios, meu pai me cobrou: ‘Ou
estuda ou vai trabalhar’. Peguei o emprego de telefonista
em uma produtora de cinema. Acabei ficando lá sete anos
e saí como diretora de produção. Quando
engravidei, decidi parar de trabalhar para cuidar de meu filho.
Mas, como não conseguia ficar parada, resolvi confeccionar
uma bolsa para carregar as coisas do bebê. Uma amiga gostou
e pediu que eu fizesse uma para ela. Depois fiz outra, mais
uma, até que a atividade virou profissão. Hoje
tenho uma fábrica de bolsas, com 12 funcionários,
e me sinto realizada.”
Bia Ribeiro, 34 anos, empresária e designer, de São
Paulo
“Minhas brincadeiras de infância viraram
profissão”
“Sempre gostei de música. Tocava em uma banda na
adolescência e, adulto, escutava música o dia inteiro,
conhecia as bandas, os cantores. Acabei estudando psicologia,
abri consultório e, para sustentá-lo no começo
de carreira, paralelamente trabalhava como professor em uma
escola infantil. Minha insatisfação era ver a
dificuldade de ganhar dinheiro, investir, investir, sem retorno.
Dando aulas, ensinava as crianças a criar instrumentos
musicais, usando um talento que eu tinha desde menino: adorava
tirar sons de latas, panelas velhas e coisas que achava no lixo.
Há dez anos, reencontrei um amigo que trabalhava com
percussão corporal (música feita com o corpo).
Comecei a fazer um curso com ele e, aos poucos, fui juntando
na escola as experiências de professor, percussionista
e construtor de instrumentos. Quando fui mandado embora da escola,
radicalizei: fechei o consultório de psicologia e fui
explorar meus novos ofícios. Me senti inseguro, afinal
nunca tinha encarado meus antigos dons como uma profissão
em potencial. Hoje dou aulas em cinco escolas e sou um dos poucos
profissionais no Brasil especializados em percussão corporal
e construção de instrumentos.”
Luiz Fernando Chaves Ehrlich, 35 anos, educador musical, de
São Paulo
“Em uma viagem, descobri meu talento para fazer
caricaturas”
“Cresci ouvindo de meu pai que ter sucesso significava
trabalhar em empresa multinacional. Essa máxima valeu
para a vida dele e, baseado nela, criou os três filhos.
Meus irmãos e eu cursamos escola técnica para
ingressar na indústria automobilística, como meu
pai. Optei por desenho industrial e meu primeiro emprego, claro,
foi numa montadora. Saí depois de três anos e fui
dar aulas numa faculdade de artes. Um dia, viajando com minha
esposa pelos parques da Disney World, nos Estados Unidos, vi
um caricaturista desenhando os visitantes. Fiquei alucinado.
Na volta, comecei a fazer charges na escola sobre as situações
de trabalho e pendurava no quadro de avisos da sala dos professores.
Todo mundo adorava e dizia que eu levava jeito, mas eu resistia.
Afinal, eu tinha ouvido a vida inteira que trabalho artístico
não dava dinheiro.
Com a ajuda da psicoterapia, compreendi que, por minha formação,
eu mesmo não me autorizava a exercer meu talento. Tomei
coragem, saí do emprego e comecei a fazer caricaturas
em festas infantis. Hoje, adoro o que faço. Chego a trabalhar
duas semanas seguidas sem folga e nem sinto cansaço.”
Emerson Ferrandini, 35 anos, cartunista, de São Paulo
“Vi que as pessoas podiam pagar por um dom que
era natural em mim”
“Como muitas mulheres de minha geração,
fui criada para ser dona de casa. Na família, eu tinha
a fama de ter um ótimo senso de organização.
Por isso, era sempre chamada para ajudar na hora do aperto,
quando alguém tinha de dar festa, fazer mudança
ou ir para o hospital e deixar em ordem casa, filhos e empregados.
Eu era metódica, prática, só que não
enxergava isso como um dom.
Depois de dez anos de casamento, me separei e fui trabalhar
com venda de cosméticos. Foi quando, paralelamente, o
primeiro cliente me contratou para arrumar armários.
Logo eu estava organizando mudanças inteiras, faxinas,
contratando empresas transportadoras. Foi quando me conscientizei
de que as pessoas não tinham esse talento, que era natural
em mim. Ou então não tinham tempo. Tanto que meu
primeiro cartão de visitas dizia: ‘Para tudo o
que você não sabe fazer, não pode ou não
quer, me chama que eu faço’. Agora sou uma empresária
de sucesso e minha empresa especializada nesses serviços
fez 15 anos.”
Noeli Campos, 58 anos, empresária de São Paulo
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Do que você
mais gostava de brincar quando era criança?
A resposta a essa pergunta pode dar uma pista sobre muitas
das suas habilidades, tão variadas quanto as peças
do Tangram, o quebra-cabeça chinês, que ilustra
estas páginas. |
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Quando você consegue
estar a maior parte do tempo conectado com o que gosta,
o trabalho fica mais leve – e a vida também. |
Texto: Wilson F. D. Weigl
Fotos: Edu Mendes
fevereiro 2005
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