AUTO-CONHECIMENTO

Sonho de voar

Nestas páginas, você vai poder abrir as asas e ganhar o espaço
em pleno vôo. Na imaginação, na observação dos pássaros, na graça dos anjos ou a bordo de máquinas aladas, tudo o que voa sempre é motivo de encantamento. Então, apenas por alguns instantes, aceite nosso convite e simplesmente flutue...


Voar é um dos sonhos mais ousados e antigos da humanidade. Desde que o mundo existe, o homem sempre encontrou uma maneira de tirar os pés do chão, tanto física como metaforicamente, por meio de sonhos, da mitologia, da arte ou de simples prazeres, como contemplar o céu, as nuvens ou o vôo de um pássaro. “Voar simboliza o desejo de ultrapassar os limites, vencer a finitude do tempo, do espaço e do próprio corpo. É a vontade de se superar que sempre animou o espírito humano e impulsionou as descobertas”, explica a analista junguiana Liliana Liviano Wahba, professora de psicologia analítica da PUC/SP.
Desejo que é também de liberdade e de transcendência e que explica, segundo a psicanalista, o fascínio que exercem sobre nós as figuras e os objetos alados, do belo Pégaso – o cavalo que sobrevoava e encantava o Olimpo na mitologia grega – aos tapetes mágicos das histórias árabes, às máquinas voadoras dos irmãos Wright e de Santos Dumont, os inventores do avião. Isso sem esquecer as miríades de anjos que povoam o imaginário coletivo e se situam a meio caminho entre nosso mundo concreto e o etéreo. “Eles fazem a ponte entre os homens e Deus. Nossa conexão com o divino se dá por meio de asas”, assinala Liliana.

Com os pés fora do chão
Só mesmo algo ilimitado como voar é capaz de expressar a vastidão da alma humana e seu desejo de superação. Que o diga o pintor italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519), que já em sua época gostava de imaginar e desenhar máquinas que anteciparam o surgimento do pára-quedas e do helicóptero. E muito antes de balões, zepelins e aviões cruzarem o céu e de o homem pisar na Lua, antigas civilizações, como a egípcia, registravam uma eneorme galeria de deuses, heróis e animais alados.

E a Grécia nos presenteia com muitos personagens alados, como Nikea, a deusa da vitória, e com o mais famoso mito sobre o desejo de voar, o de Ícaro.

Ícaro fugiu da prisão com asas feitas de cera e recobertas com penas. Ele ficou tão empolgado com a sensação de planar livre, que foi subindo cada vez mais alto, cada vez mais perto do sol... O calor dos raios derreteu as asas de cera e pôs fim à história.

E podemos expressar o desejo de criar asas de muitas formas, inclusive na linguagem. Por ser fluido e sem amarras, dizemos que o pensamento voa. Quando queremos alargar horizontes, sair do terreno palpável e conhecido, damos asas à imaginação. Voamos mais alto quando somos otimistas ou buscamos algo que parece distante e inatingível. “A paixão também nos faz flutuar. Ela é feita de ar misturado com fogo”, descreve Liliana Wahba.

Cinema e avião

O mesmo poder de nos projetar em novos espaços tem o cinema, que curiosamente surgiu na mesma época do avião. “O cinema propõe um vôo, uma fuga e nos alça a outras realidades. Ou nos desloca do chão para enxergarmos nosso mundo de outro ângulo”, assinala Pelópidas Cypriano, cineasta e professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista.

O vôo do espírito é feito de muitos caminhos. Às vezes, somos como as galinhas, voamos baixo e só ciscamos em quintal conhecido. Em outros momentos, agimos como as águias, que se elevam bem alto em busca de uma visão panorâmica, de amplitude.

E, muitas vezes, somos como os filhotes de águia: para voar, precisamos de um empurrão e só descobrimos que temos asas quando as circunstâncias da vida nos arremessam sem pára-quedas no espaço.

Mais perto de Deus
Inspirado em Super-Homem, Capitão Marvel, Super Dínamo e outros super-heróis voadores, o piloto e instrutor de parapente Silvio Ambrosini, da Escola Ventomania, de São Paulo, passou a infância voando com os amigos. “A gente pulava do muro com um guarda-chuva aberto, pulava do telhado com uma capa nas costas e admirava o Super-Homem não pela sua força, mas pela fantástica capacidade de voar”, recorda.

Muitos anos depois, subindo de verdade ao céu, Ambrosini descobriu uma nova rota: que o leva a uma profunda comunhão consigo e com o Universo. “Algo muito especial acontece quando você tira os pés do chão e perde contato com esse pólo magnético. Ficar sozinho navegando no invisível, pendurado no ar a dois mil metros de altura, é um momento de intimidade absoluta. Não tem nada, nada por perto. É um encontro seu com você mesmo, com Deus e o Universo”, descreve.

Rosto de santa, mãos de fada e o resultado são asas de anjo. Dona Ana Saraiva (ao lado) confecciona as mais belas asas para as crianças da cidade mineira de Porto Firme.
Elas aparecem como um bando celestial nas procissões do Domingo da Páscoa e de Corpus Christi.
Ao tirar os pés do chão algo especial acontece. “É um encontro com você mesmo, com Deus, com o Universo”, define Silvio Ambrosini, que voa a 2 mil metros de altura em um parapente como este.

Texto: Fanny Zygband

fevereiro 2005

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