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AUTO-CONHECIMENTO
Anjos perfumados
Como perceber a proteção
divina
Eu nunca vi um anjo. Olhos que vêem
anjos são olhos especiais, dádivas dos deuses,
não são todos que os possuem. Eu não sou
um deles. Mas os deuses me dotaram de um outro órgão
para sentir os anjos: o nariz. O nariz é o meu órgão
angelical. Eu não vejo anjos. Eu cheiro anjos. Para mim
os anjos são seres nasais. Eles se me revelam sob a forma
de perfumes. Vou andando solidamente pela rua, imerso em meus
pensamentos comuns. Repentinamente, uma súbita fragrância
entra pelo meu nariz e enche a minha alma. Fico leve, perco
a solidez, crescem-me asas nas costas e sou instantaneamente
transportado para um não-sei-lá-que-lugar onde
fui feliz. Aquela felicidade esquecida me é devolvida.
Como o acontecido não foi resultado de coisa que eu tivesse
feito, não acho descabido imaginar que o responsável
tenha sido um anjo perfumado, meu amigo.
Minha educação angelical começou muito
cedo. Tomei minhas primeiras lições num salão
de barbeiro. Havia lá um calendário que a todos
comovia e tranqüilizava: uma paisagem bucólica,
um menino e uma menina, irmãozinhos, pés descalços,
pelas trilhas da floresta, sozinhos, prestes a atravessar uma
frágil pinguela sobre um abismo: tão fácil
cair. Mas não havia razões para temer. Protegia-os
um anjo de beleza máscula e brancas enormes asas. Com
um quadro daqueles na parede os pais e as mães podiam
dormir tranqüilos. Era o Anjo da Guarda que, ao que me
consta, continua a guardar as criancinhas que atravessam pontes
nas florestas.
Numa loja de sírios aprendi sobre os pés dos anjos.
O senhor humilde se aproximou do balcão e pediu:
— Um pé-de-anjo número 29.
Logo o seu Nagib atendeu a ordem do freguês, trazendo-lhe
um par daquilo a que hoje se dá o nome de tênis.
Naquele tempo ninguém sabia o que era tênis. Era
pé-de-anjo. É fácil compreender por quê.
O maior orgulho dos pais beatos era que a filha desfilasse na
procissão vestida de anjo, o que era o terror dos patos
cujas penas eram arrancadas sem dó nem piedade para a
confecção das asas dos seres celestes. Inúteis
eram os grasnados dos patos: não há Anjos da Guarda
para protegê-los. Branca a grinalda, brancas as asas,
branco o vestido – os sapatos teriam de ser brancos também.
Pé-de-anjo...
Depois foi na escola dominical da igreja protestante que eu
freqüentava. Me faziam cantar um hino que dizia: “Eu
quero ser um anjo, um anjo do bom Deus, e imitar na terra os
anjos lá do céu.” Foi então que se
manifestou minha vocação para a heresia. Pensei
que o hino estava errado: se Deus me fizera menino era porque
ele queria que eu fosse menino. O hino era, assim, uma rebelião
contra a vontade divina. Deus queria que eu fosse menino e os
religiosos eram mais piedosos que o próprio Deus e queriam
que eu fosse anjo. Eu não queria ser anjo, pois achava
que vida de anjo devia ser muito chata.
Depois, aprofundei meus conhecimentos angeológicos na
leitura dos poetas. Está lá num dos poemas de
Fernando Pessoa: “Que anjo, ao ergueres a tua voz, sem
o saberes, veio baixar sobre esta terra onde a alma erra e soprou
as brasas de ignoto lar?” Disso sabia o poeta: que os
lares ignotos não estão perdidos. Estão
sob a guarda dos anjos que moram na memória. Lá
os lares esquecidos vivem como brasas escondidas sob as cinzas
da memória. Mas os anjos da memória não
deixam que eles sejam esquecidos. Vez por outra batem as suas
asas, a cinza voa, as brasas viram fogo.
Jacó, filho de Isaac, me ensinou que há anjos
terríveis! Lá ia ele andando por um caminho solitário,
noite escura, muito medo. Rezava. Invocava a proteção
do Anjo da Guarda. O Anjo ouviu a sua reza e lhe apareceu –
terrível, horrendo, de espada na mão.
— Defenda-se ou o mato, o Anjo disse.
Jacó não teve escolha. Puxou sua espada e lutou
com o Anjo a noite toda. E pasmem: venceu. Ao romper da aurora,
ao se despedir, o Anjo derrotado lhe disse: “Fui derrotado,
mas lhe deixarei uma lembrança para que você não
se esqueça.” E num gesto súbito tocou a
coxa de Jacó com a sua espada. Jacó ficou manco
pelo resto da vida. Nunca mais se esqueceu. A cada mancada ele
se lembrava e se sentia valente. E nunca mais teve medo. E até
teve de mudar o seu nome para Israel: naquele que lutou com
Deus e prevaleceu. Por vezes é preciso lutar com o Anjo
a noite toda para se ganhar um nome, para se descobrir a própria
verdade, enterrada sob as cinzas do medo.
Mas os Anjos de que mais gosto são aqueles que foram
fazer uma visita a Abraão e Sara, avós de Jacó.
Abraão já era velho, desdentado, flácido,
esquecido dos distantes prazeres do amor. Sara, sua mulher,
enrugada, seios murchos e compridos, pendurados, velha –
só lhe restavam os prazeres da cozinha. E ela estava
cozinhando para dois hóspedes quando ouviu a conversa
que se desenrolava na sala. Um deles se pôs a dizer disparates.
Com certeza bebera demais. Pois ele afirmou que ela ficaria
grávida e teria um filho. Sara teve um ataque de riso
– riu tanto que entornou o guisado que preparava. Os visitantes
se ofenderam e, como castigo, disseram que o filho que ela ia
ter chamar-se-ia Isaque, que quer dizer “riso”.
Ela não sabia: eram anjos...
Esses são os Anjos das Coisas Impossíveis. São
eles que ressuscitam os mortos, engravidam as virgens, fazem
brotar fontes nos desertos, fazem florescer as árvores
sob a neve, nos ensinam a esquecer e nos dão alegria
quando não há razões para a alegria. Eles
tocam os velhos com a sua espada e coisas assombrosas acontecem...
Mas que perfume mais gostoso! Será jasmim, magnólia
ou flor de jabuticabeira? Ou será que foi um anjo que
passou por aqui?
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Para mim
os anjos são seres nasais. Eles se me revelam sob
a forma de perfume. Será jasmim, magnólia?
Ou será um anjo
que passou por aqui? |
Rubem Alves, 71 anos, nasceu no
interior de Minas Gerais, é escritor, pedagogo, teólogo
e psicanalista.
O texto acima foi inspirado em uma crônica do livro Transparências
da Eternidade (ed. Verus).
Site: www.rubemalves.com.br.
fevereiro 2005
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