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BEM-ESTAR
De onde vem a boa sorte
Uma fábula que desvenda os segredos
da bem-aventurança já vendeu 2 milhões
de exemplares em 60 países. O livro A Boa Sorte, escrito
pelos consultores empresariais espanhóis Álex
Rovira Celma e Fernando Trías de Bes, nos instiga a buscar
o sucesso na vida e nos negócios. Nesta entrevista, Álex
Rovira Celma mostra como ter a sorte sempre a seu lado.
Quem já não se definiu como
sortudo ou azarado para justificar vitórias ou fracassos
da vida pessoal ou profissional?
Para o consultor e escritor espanhol Álex Rovira Celma,
a sorte existe, mas difere da boa sorte. A sorte é dependente
do acaso, diz. Já a boa sorte depende de nossa capacidade
e vontade de criar as circunstâncias para que ela apareça
em nossa vida.
No livro A Boa Sorte – Criando as Condições
de Sucesso na Vida e nos Negócios (ed. Sextante), Álex
Rovira e Fernando Trías fornecem, por meio de uma fábula,
dez chaves para a boa sorte. Na história, o mágico
Merlin lança um desafio aos cavaleiros do reino: em sete
dias, um trevo de quatro folhas brotará da terra na imensa
Floresta Encantada e quem o encontrar será premiado com
uma sorte sem limites. Os cavaleiros Sid e Nott serão
os únicos a aceitar essa prova dificílima.
O comportamento oposto dos dois aventureiros define suas diferentes
posturas de vida. O cavaleiro negro, Nott, contará com
o acaso para encontrar o cobiçado trevo. Já o
branco, Sid, tentará, por seus próprios meios,
criar as condições necessárias para vencer
o desafio. Em Paris, para o lançamento da versão
francesa, Álex Rovira conversou com Bons Fluidos sobre
a resignação e o destino, o milagre, a confiança
e o amor.
Bons Fluidos – Você diz que há dois
tipos de sorte, a sorte do acaso e a de criar circunstâncias.
Como isso funciona?
Álex Rovira – Não sei como é no Brasil,
mas na Espanha falamos de sorte e de boa sorte. A sorte depende
essencialmente do acaso e não de você. Conversei
com muitas pessoas que ganharam na loteria e, no máximo
em sete anos, perderam tudo – o prêmio, seu próprio
patrimônio e os laços afetivos. Penso que a sorte
é um estado de consciência. A sorte pode ser má
sorte e ainda mais: é efêmera, pois não
depende de você. E a boa sorte é a atitude mediante
a qual você decide ser causa da criação
de circunstâncias. Sem negar a existência do acaso.
É trabalhar para criar as circunstâncias sem renunciar
à responsabilidade pelas mudanças.
BF – Mas você admite que há a sorte
gerada pelo acaso?
AR – Não posso negar. Outro dia, em um vôo,
um raio atingiu o avião, entrou pelo bico e saiu pela
cauda, provocando uma luz e um estrondo incríveis. Quando
tudo passou, pensei: todo mundo ia rir se anunciassem que a
conferência sobre a boa sorte foi cancelada porque o palestrante
morreu em um acidente de avião! Em outro vôo, o
trem de aterrissagem se rompeu na hora do pouso. Sorte que havia
um campo de barro em frente.
BF – O azar também existe?
AR – Sim, mas há dois tipos de azar. O azar do
raio que cai no avião ou da pedra na qual tropeço.
Mas também há pessoas que procuram o azar. Por
exemplo, outro dia uma pessoa me disse que havia gostado muito
de meu livro, mas que tinha azar e deu alguns exemplos. Comprou
de última hora o traje para uma festa e, quando saiu
vestindo a roupa, estava chovendo. Trabalhou todo ano para passar
férias em uma praia do Pacífico e, uma vez lá,
choveu durante duas semanas. Sua casa foi assaltada três
vezes em um ano. “Sou uma pessoa de azar”, disse
ele. Respondi com várias perguntas: “Por que não
consulta a previsão do tempo e vê se amanhã
não vai chover? É possível saber também
pela internet o tempo lá no Pacífico. Por que
você não fez isso antes de viajar? Sua casa tem
um sistema de alarme anti-roubo?” Ele me disse que não.
“Então, não precisamos dizer mais nada”,
concluí. Pois o azar é o que certamente vai ocorrer
se você não fizer nada para evitá-lo. O
que quero dizer com isso? Que há pessoas que se resignam.
Não digo que podemos mudar toda nossa vida, mas, pelo
menos, podemos não nos resignar.
BF – Você acredita que, no mundo de hoje,
há mais cavaleiros negros, que se resignam e esperam
a boa fortuna, ou cavaleiros brancos, que criam as circunstâncias
para que a sorte ocorra?
AR – Creio que dentro de cada um de nós há
um cavaleiro branco e um negro. Se o mundo não está
pior, é graças aos cavaleiros brancos...
BF – O objetivo do livro é despertar o
cavaleiro branco dentro de cada um de nós?
AR – O escritor francês Honoré de Balzac
(1799-1850) dizia: “A resignação é
um suicídio cotidiano”. No livro, Merlin é
uma metáfora da voz interior de cada um e pergunta: “O
que você está fazendo com a sua vida?”, “Você
está desperdiçando sua vida?” Diante dessa
voz que chama, poderá aparecer o cavaleiro negro ou o
cavaleiro branco. Repito: e todos temos os dois dentro de nós.
O cavaleiro branco é a criança interior, e nele
residem a ilusão, o amor pela vida, a fé, a confiança,
o olhar inocente. Se essa criança interior morre, perde-se
toda a esperança. O livro fala para essa criança
interior, que por muito tempo ficou esquecida.
BF – A primeira pessoa que ouviu a fábula
foi sua filha de 7 anos. O que ela achou?
AR – Que era a história mais bonita que eu já
havia contado. Há uma frase que diz que as fábulas
são escritas para que as crianças durmam tranqüilas
e para que os adultos despertem inquietos.
BF – O que aconteceu em sua vida pessoal para
que você se voltasse para esse foco?
AR – Há oito anos, um grande amigo morreu de enfarte.
Isso coincidiu com a gravidez de minha mulher. Quando morre
alguém jovem, com filhos, uma mulher apaixonada, você
não entende mais nada e necessita dar algum sentido à
vida. Comecei a me perguntar muitas coisas, pois ia ser pai,
e iniciei um processo de psicoterapia. Isso me levou a estudar
psicologia. Outro fato relevanta foi este: no Natal de 1999,
jantando com amigos, um deles comentou que havia sido promovido
no trabalho, que tudo ia muito bem. Outro do grupo comentou:
“Você teve sorte”, como se dissesse que ele
não merecia aquilo. Achei essa frase um insulto! Naquela
mesma semana, lendo uma biografia do cientista alemão
Albert Einstein (1789-1955), me deparei com a seguinte frase:
“A sorte é uma função da qual desconhecemos
os parâmetros”. O que chamamos de sorte é
algo que podemos explicar se entendemos os motivos que a provocaram.
Não sou físico, gosto de psicologia e, em meu
trabalho de consultoria, me dedico a falar com muitas pessoas.
Ocorreu-me perguntar a 800 delas, durante quatro anos, por que
acreditavam que tinham sorte ou azar. Com base nesse material,
ficou claro que a boa sorte depende de uma série de variáveis,
que são as chaves expostas no livro.
BF – Quais são?
AR – Há dez chaves, mas, na realidade, são
cinco os princípios básicos, comuns às
pessoas que têm a boa sorte:
1. São responsáveis por sua própria vida.
Se algo não funciona, em vez de acusar alguém,
responsabilizam a si mesmas e se perguntam o que poderiam ter
feito consciente e inconscientemente para provocar essas coisas
em sua vida.
2. São pessoas que não vêem o erro como
algo que se deve ocultar. Elas aprendem com ele e o transformam
em algo positivo, sem sentir vergonha.
3. São muito perseverantes. Se caio, me levanto e sigo
andando, e assim por muitas vezes. Dentre as pessoas com quem
falei, 80% das que tiveram um projeto fracassado na primeira
vez não voltaram a tentar de novo. Das que o fizeram,
e novamente fracassaram, 98% não tentaram uma terceira
vez. Somente 2% persistiram depois de três fracassos.
Só os capazes de se levantar quatro, cinco ou seis vezes
após quedas consecutivas podem fazer as coisas dar certo.
Sempre conto uma história que li numa biografia de Thomas
Edison (1847-1931), o cientista americano inventor da lâmpada.
O descobridor não teria sido ele, mas um certo Joseph
Swan, que ninguém conhece, só fez quatro protótipos
e depois abandonou a experiência porque achava que não
daria em nada. Edison realizou mil testes, e todas as lâmpadas
estouraram. O chefe do laboratório e toda a equipe, então,
disseram a ele: “Senhor Edison, não se sente derrotado
depois de mil ensaios sem sucesso?” Ele respondeu: “Não
me sinto fracassado. Testamos mil maneiras diferentes de como
não fazer uma lâmpada”. Esse é o espírito.
Foi no teste de número 1043 que ele obteve sucesso. É
emocionante!
4. Outro elemento importante é a confiança, a
fé. Muita gente me diz ter tido sorte ao superar o câncer,
a falência empresarial, o abandono de uma pessoa querida.
O que às vezes parece um revés da vida é
a maior das fortunas. Depende muito da perspectiva. As pessoas
que criam a sorte têm a capacidade de se distanciar: sorte
ou azar, quem vai saber? Em vez de dizer “preciso ver
para crer”, dizem “preciso criar para ver”.
5. E, sobretudo, o amor. Se você não gosta si mesmo,
não há sorte.
BF – Por que o amor é a essência da sorte?
AR – O amor é uma postura diante da vida e uma
maneira de ver o mundo. Se você não tem amor-próprio,
não confiará em você mesmo e não
poderá confiar no outro. Quem se respeita tem energia,
força e coragem e vê o erro como aprendizado. Assim
tudo se move com base no amor. Acredito que as pessoas ganhem
o que acreditam que merecem. Ou se ainda não chegaram
lá podem pedir um aumento. Se for negado, cabe a você
ter a coragem e criar a chance de repetir o pedido. Isso tem
muito a ver com a confiança em si mesmo, que vem do compromisso
– e tudo isso vem do amor.
BF – Você acredita em destino?
AR – Acredito que cada ser humano é capaz de superar
seu destino. Evidentemente, há circunstâncias dificílimas.
Se alguém da Nigéria ou das favelas ler essa fábula,
o mínimo que pode provocar é uma reação
de cinismo ou ironia. Mas o que acontece? Em nosso ambiente
e nossas circunstâncias, em que temos formação
e informação, dizer que o destino está
escrito é uma covardia. Nem o nosso nem o dos que vivem
na miséria estão escritos.
BF – Você crê em milagre?
AR – Sim. O milagre é o nome que damos à
manifestação de um desejo profundo, que parece
impossível até que se torne realidade. As pessoas
que realizaram grandes coisas para a humanidade o fizeram porque
não pensavam que era impossível. Onde está
o milagre? Está no amor, na confiança. Tudo o
que nos rodeia foi antes imaginado por alguém. O seu
gravador, o papel, a colher, tudo. Mesmo você e eu fomos
imaginados no coração de nossos pais. Portanto,
a fórmula mais poderosa é: imaginação
+ desejo = realidade. Sem desejo de mudança, não
há realidade. Sem imaginação, não
há realidade. A realidade é a soma dos dois. Em
nível macro, a realidade é a imaginação
pelo desejo de Deus. Em nível micro, nossa realidade
é resultado de nossa imaginação e de nosso
desejo. Se renunciarmos a qualquer componente da equação,
não haverá mudança.
BF – Tem mais sorte quem se arrisca mais?
AR – A vida ou é uma aventura ou não é
nada. A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler
Ross, maior especialista mundial em doentes terminais, em seu
apaixonante livro A Roda da Vida (ed. Sextante), perguntou aos
pacientes: “Se você pudesse recomeçar sua
vida, o que faria?” A maioria das respostas foi: “Me
arriscaria mais”. O risco é, na verdade, nossa
temida felicidade. Muitas vezes pensamos que arriscar significa
atravessar um muro de pedra de 2 m e, quando nos aproximamos,
nos damos conta de que era apenas uma parede de papel. Então,
rimos do pânico que tivemos. É bom lembrar: muitos
dos medos que nos acompanham são herdados, impostos ou
nascem da falta de contato com a realidade.
BF – Como você explica que sua fábula
esteja fazendo sucesso?
AR – O tema, no fundo, é o amor à vida.
Só há um amor: o amor à vida. As outras
formas são derivações desse sentimento
que colocamos em nossos amigos, parceiros, filhos, pais, trabalho.
E afortunado, afinal, não é conseguir carrões
e posses, mas, ao fim da vida, poder dizer aos outros que viveu
o que quis viver. Eu quero continuar falando desses temas por
meio de histórias muito simples.
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O livro
A Boa Sorte. |
Texto: Fernando Eichenberg
janeiro 2005
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