|
AUTO-CONHECIMENTO
Em boa companhia
Uma multidão de personagens mora
nos livros e pode ser uma ótima companhia onde quer que
você esteja. Em tramas fascinantes, criadas por mestres
da literatura brasileira e estrangeira, eles nos mostram como
cultivar coragem, humor, dar a volta por cima e aproveitar melhor
a vida real. Mergulhe agora em oito histórias muito inspiradoras.
Escritores de todos os estilos, dos épicos aos românticos,
de dramaturgos a poetas, criaram tantos personagens que, juntos,
eles formariam uma multidão que às vezes parece
mais real que as pessoas de verdade. Uma humanidade que só
existe no papel, mas nem por isso é menos influente.
As frases dessas criaturas da ficção ecoam em
todas as partes, dos discursos de políticos às
conversas de botequim e suas vidas viram teatro, filme. E mais
importante: as verdades dessas pessoas nos inspiram desde sempre.
Muitos personagens são exemplos de astúcia, humor,
caráter, compaixão, coragem, sabedoria, inteligência,
enfim, das qualidades que permitem enfrentar a vida com alegria,
destemor e gratidão.
Ulisses, que ficou dez anos no mar, era corajoso, porém
precisava aprender a ser humilde. Não foi poupado de
acontecimentos que o fizeram menos arrogante. Quantas vezes
a vida exige uma mudança de postura para que possamos
avançar?
Já Dom Quixote, o sonhador, lutava contra inimigos invisíveis,
via monstros onde havia apenas moinhos de vento. Certamente,
você já se deparou com a força de seus devaneios
e foi puxado para a realidade por algo ou alguém. Nessa
luta, Quixote contava com seu espirituoso escudeiro, Sancho
Pança.
Ler os livros em que surgem suas admiráveis virtudes
– e as circunstâncias que as fizeram aflorar –
tem sido um passatempo prazeroso, além de uma fonte de
inspiração e autoconhecimento, para gerações
de leitores. A seguir, você fica na companhia de alguns
deles.
Dom Quixote e seu escudeiro,
Sancho Pança
Os personagens de Dom Quixote de La Mancha, do espanhol Miguel
de Cervantes (1547-1616), são imortais. Quixote é
um fidalgo do século 16 que enlouquece de tanto ler romances
de cavalaria e sai de armadura atrás de dragões
e donzelas em apuros.
Sancho Pança é um camponês das terras de
Quijada, pobre e faminto, convocado a acompanhar seu senhor
como escudeiro. Quixote fura odres de vinho (que vê como
sendo gigantes), ataca moinhos de vento, vive com os ossos quebrados.
Depois de muitas aventuras, o velho recupera a razão
e volta para casa para morrer: declara que foi tudo ilusão.
Nessa hora, Sancho, em prantos, muda: diz que não, que
ainda vão cavalgar, salvar donzelas, matar gigantes.
É a mais bela cena do livro.
Quixote e Sancho nos ensinam mais que o humor e a amizade. Um
é delírio e sonho, outro realidade e gula, e ambos
se completam: o poder do ideal e o valor do corpo, o humor da
vida e a compaixão por todos. Não é à
toa que se tornaram imortais.
 |
Virtudes:
amizade, companheirismo, bom humor.
Desafio: distinguir o que é sonho
e o que é realidade.
LIVRO: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de
La Mancha, de Miguel de Cervantes (ed. 34).
FILME: Dom Quixote (1999), de Peter Yates,
com John Lithgow, Bob Hoskins e Isabella Rosselini. |
Santiago, o pescador de O Velho e
o Mar
O velho Santiago, depois de 84 dias sem pescar nada, volta ao
mar. É questão de sobrevivência –
e também de orgulho. O oceano é a natureza e também
o inconsciente, o abismo interior do homem. Assim começa
o livro O Velho e o Mar, que o escritor americano Ernest Hemingway
(1898-1961) escreveu em 1952.
A prova é dura: o sol é feroz, a solidão
total. O barco é podre, a vela remendada, mas Santiago
conhece seus inimigos: a maré, o vento, a astúcia
do peixe. Depois de dias, o velho fisga a maior presa de sua
vida, um merlim gigante, que vale uma pequena fortuna. E começa
a luta.
Santiago segura a linha, que retalha sua mão. O barco
é arrastado por dias. Enfim o peixe morre. É tão
grande que Santiago não pode trazê-lo a bordo:
amarra o corpo no casco, empreende o retorno. Mas a carcaça
atrai os tubarões. A volta é um pesadelo. Santiago
luta com os remos, perde a faca, o leme. Os tubarões
dilaceram o peixe.
Por fim o velho chega, esgotado. Ao lado do barco, só
o esqueleto carcomido, imenso. Santiago venceu, mas a proeza
nada lhe rende. Ele adormece, e restam só o indomável
espírito, a coragem quieta, a vida. E a alegoria que
Hemingway criou para nos inspirar para sempre.
 |
Virtudes:
sabedoria, perseverança, resistência.
Desafio: aprender a aceitar.
Livro: O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway
(ed. Bertrand Brasil). |
D’Artagnan, espadachim de Os
Três Mosqueteiros
Principal personagem de Os Três Mosqueteiros, obra do
escritor francês Alexandre Dumas (1824-1895), D’Artagnan
tem uma personalidade marcada pelo ímpeto. É o
guerreiro ousado que salta para o combate.
A trama opõe os “mosqueteiros do Rei” ao
cardeal Richelieu, que urde uma intriga para separar o rei e
a rainha da França, que deu a um amante inglês
uma jóia real. A missão impossível dos
heróis é recuperá-la a tempo de evitar
a queda da rainha e a submissão do rei à influência
do cardeal.
Quase simplório, D’Artagnan difere dos sofisticados
companheiros, Porthos, Athos e Aramis. Na sua rude educação,
aprendeu uma só arte: a da espada. E sua maestria nela
é a projeção de seu caráter. A ousadia
e rapidez no combate espelham a juventude e o ardor do coração.
D’Artagnan capturou a admiração de muitos
corações juvenis, seja em peitos de adolescentes,
seja nos de anciãos. O veloz D’Artagnan nos provoca
a entrar na senda da aventura. Ele expressa a juventude no que
ela tem de mais atirado. Como não se tornaria eterno?
 |
Virtudes:
sabedoria, perseverança, resistência. Desafio:
aprender a aceitar. Livro: O Velho
e o Mar, de Ernest Hemingway (ed. Bertrand Brasil). |
Ulisses,
o guerreiro de A Odisséia e A Ilíada
O protótipo do rebelde é o herói da Guerra
de Tróia imortalizado por Homero, maior poeta da Antigüidade.
A maior arma – e o maior tormento – desse guerreiro
foi sua inteligência.
Atena, deusa grega do juízo claro, era sua protetora.
Foi Ulisses que imaginou o truque do Cavalo de Tróia
(feito de madeira e ofertado aos troianos, dentro dele os gregos
se esconderam para vencer a guerra). Quando Ulisses viu que
a vitória tinha sido o resultado de sua idéia,
e não do poder dos deuses, ficou arrogante. Ignorou os
sinais para ser mais humilde e voltou para sua terra, a distante
Ítaca.
Dez anos de tempestades e obstáculos depois, Ulisses
ainda não tinha chegado à casa e a mulher e o
filho sofriam o assédio de pretendentes ao trono, que
o julgavam morto. Então ele se ajoelhou ante os deuses
e foi permitido a ele voltar a Ítaca, onde venceu os
inimigos e recuperou riquezas, reino e família.
Ulisses é fascinante porque é complexo. Não
é mau ou bom, mas humano. Seu orgulho é compreensível.
Ele aprende, duramente, que há forças (os “deuses”)
maiores que nós, que não toleram a arrogância.
Por isso inspira e emociona a humanidade há 3 mil anos.
 |
Virtudes:
inteligência, astúcia, coragem, fidelidade.
Desafio: evitar que as conquistas tragam
a arrogância e o orgulho.
LIVROS: A Odisséia, de Homero, tradução
de Manuel Odorico Mendes (ed. Edusp), e A Ilíada,
de Homero, tradução de Haroldo de Campos (ed.
Arx).
FILME: Odisséia (1997), de Andrei
Konchalovsky, com Armand Assante, Isabella Rosselini e Irene
Papas. |
Fada Morgana, sacerdotisa
da lenda do rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda
A mais famosa feiticeira da literatura ocidental vem da saga
do rei Artur, contada desde a Idade Média em obras como
A Morte de Arthur, de Thomas Malory, e Parsifal, de Wolfram
von Eschenbach. Uma das mais belas versões da história
é As Brumas de Avalon, da americana Marion Zimmer Bradley
(1930-1999).
No livro, o relato é feminino. Na Bretanha governada
por Artur, prospera a religião patriarcal dos cristãos.
Mas na misteriosa Avalon, onde Morgana, meia-irmã do
rei, preside os ritos ancestrais, veneram-se a Deusa Mãe
e a crença pré-cristã das feiticeiras e
do saber oculto. Sua grande sacerdotisa é chamada Morgana
das Fadas. A ilha de Avalon, porém, está se afastando
do mundo real, envolta numa bruma que só as iniciadas
podem cruzar.
Morgana é a imagem da iniciada. Só à sua
intuição ela é fiel e responde. Como maga,
nos inspira o saber: o saber da natureza, da magia, dos mistérios.
Sabedoria, fé e coragem são suas virtudes, e seu
desafio é superar a arrogância, como ocorre com
todos os que sabem.
 |
Virtudes:
fé, cultivo da espiritualidade e do feminino, respeito
à natureza.
Desafio: deixar que a vida siga seu rumo
e evitar manipular as situações a seu favor.
LIVRO: As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer
Bradley (ed. Imago).
FILME: As Brumas de Avalon (2001), de Uli
Edel, com Anjelica Huston, Julianna Margulies e Joan Allen. |
Miss Marple, a velhinha detetive
dos livros de Agatha Christie
Célebre autora de romances policiais, a inglesa Agatha
Christie (1890-1976) tem, entre suas personagens, miss Jane
Marple. Apesar de ser a típica solteirona do interior,
frágil, vestida à moda antiga, amando tricô
e fofocas, ela é hábil em decifrar crimes. Sua
inteligência sagaz olha os humanos sem se espantar com
nada. Seu estilo muito doméstico de resolver os mistérios
pode ser conferido em mais de 20 livros, escritos entre 1932
e 1976.
O prolongado sucesso dos livros de Marple, e suas inúmeras
aparições em cinema, TV e teatro, prova que ela
cativou os leitores. Talvez porque expresse a superioridade
da mente sobre o corpo. Jane Marple é velha, sujeita
a achaques, incapacitada para perseguições e artes
marciais. Mas, com poder dedutivo, atenção para
detalhes, mente alerta, inteligência e intuição,
derrota os mais astutos e cruéis. Uma metáfora
inspiradora.
 |
Virtudes:
perspicácia, intuição, capacidade de
dedução.
Desafio: confiar nos próprios talentos.
LIVROS: A Maldição do Espelho,
Três Ratos Cegos e Outras Histórias, Cem Gramas
de Centeio (ed. Nova Fronteira), Mistério no Caribe,
Nemesis e Os Últimos Casos de Miss Marple (ed. Livros
do Brasil), de Agatha Christie.
FILME: Cem Gramas de Centeio (1987), de
Guy Slater, com Joan Hickson e Fabia Drake. |
Scherazade, contadora de histórias de As Mil e Uma Noites
Scherazade é talvez a mais famosa mulher da literatura.
É a heroína do conto “O Sultão Sanguinário”,
o primeiro do livro As Mil e Uma Noites, que inicia e liga todos
os outros. O sultão Shanriar mata a esposa por tê-lo
traído e passa a casar-se toda noite com uma virgem e
a decapitá-la de manhã para que a traição
não se repita. Scherazade pede ao pai para desposar o
sultão e teima até conseguir.
Na alcova, após o amor, a noiva conta ao sultão
uma história, mas antes do fim amanhece: é hora
de a donzela morrer. Curioso sobre o fim, Shanriar concede mais
uma noite. E tudo se repete, pois ela termina o conto anterior
e começa outro, também detido pela manhã.
E assim por mil e uma noites.
Um dia, Scherazade diz: “Meu senhor, não tenho
mais histórias: dou-lhe agora minha vida”. Em lágrimas,
Shanriar responde que ela é a sua doce esposa, que lhe
deu encanto, amor, magia, três filhos e que a ama.
Difícil dizer qual das virtudes de Scherazade inspira
mais: coragem, inteligência, prodigiosa memória,
sabedoria, fé, beleza, sensualidade. Na dúvida,
ficamos com seu amor, que nos legou essas histórias imortais.
 |
Virtudes:
criatividade, coragem, memória, astúcia.
Desafio: vencer a ansiedade e a pressa.
LIVRO: As Mil e Uma Noites (ed. Ediouro) |
Ana Terra, heroína de O Tempo e o Vento
Episódio crucial da obra máxima do escritor gaúcho
Érico Veríssimo (1905-1975), Ana Terra narra a
história da filha do pampa que, nas ermas terras do pai,
encontra o ferido Pedro Missionero, índio valente, sonhador
e sensível. Irrompe a paixão, fatal para ele.
Quando Ana engravida, o pai e dois irmãos cumprem o código
do colono branco: Pedro é morto, como Ana previra em
sonho. Da união nasce o menino Pedro Terra.
São dias sem calendário, em algum ano do século
18. Vêm os castelhanos invasores. Ana esconde o filho,
a cunhada, a sobrinha: finge ser a única mulher na casa.
O pai e os irmãos morrem. Os sobreviventes partem para
a recém-fundada Santa Fé. Lá Ana ergue
seu rancho e torna-se parteira.
Vêm as guerras platinas. Pedro Terra, já moço,
é convocado. Volta vivo, mas é chamado outra vez.
Ana, mãe da terra, novamente o aguarda num silêncio
que encerra o episódio, com força imensa. Ana
tem as virtudes da Mãe Terra: procriadora, protetora,
invencível. E, não por acaso, parteira, pois,
como a própria vida, renasce sempre.
 |
Virtudes:
força feminina, persistência.
Desafio: renascer das cinzas e aprender
a perdoar.
LIVRO: O Tempo e o Vento - O Continente,
Parte 1, de Érico Veríssimo (ed. Companhia
das Letras). |
Texto: Fabio Malavoglia/
Reportagem Fotográfica: Camile Comandini
/Fotos: Eduardo Delfim
janeiro 2005
VEJA
MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO
|