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AUTO-CONHECIMENTO
É hora de mudar
Aproveite o começo de ano para
decidir o que, onde e como você quer fazer diferente.
Sejam pequenas ou grandes mudanças, em casa ou no trabalho,
elas é que dão sabor à vida. Até
quando chegam de surpresa provocam transformações,
e aceitar o que não pode ser mudado já
é uma revolução muito positiva!
Nada é mais constante na vida do que o fato de estarmos
sempre mudando. Mudamos de tom de voz, de idéia, de desejos,
de cor de cabelo ou simplesmente de jeito de olhar para uma
situação e para nós mesmos. E há
mudanças grandes e bem concretas: de casa, parceiro,
estilo de vida. Perceptível ou não, esse é
o fluxo da vida, que faz com que até as células
de nosso corpo se renovem completamente a cada seis meses, dizem
os cientistas. “Correr atrás do desconhecido e
abrir novos horizontes é um instinto tão básico
da espécie humana como comer para saciar a fome. É
esse constante anseio de mudar que nos estimula e impulsiona”,
ensina Sandro Caramaschi, professor de etologia (ciência
que relaciona os hábitos dos animais com os costumes
humanos) da Faculdade de Ciências da Unesp/Bauru, em São
Paulo.
Mudar adiciona um novo tempero à rotina. Isso é
bom, mas gostamos também de fazer exatamente o oposto,
que é pisar em terreno firme e, de preferência,
previsível. “Vivemos nos equilibrando entre essas
duas tendências. Buscamos o novo e o surpreendente e,
ao mesmo tempo, queremos a estabilidade e o controle das situações”,
analisa a psicóloga Vera de Laurentiis, pesquisadora
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
Coragem e auto-estima
A maneira como cada um se posiciona nessa gangorra tem muito
a ver com as experiências vividas, com a educação
recebida, com os aspectos culturais e até com os fatores
fisiológicos, como o funcionamento do sistema nervoso
e hormonal. Um ingrediente em especial faz toda a diferença
e determina nossa capacidade de realizar as transformações
que vislumbramos: a auto-estima. “Ela nos dá coragem
para mudar. Estudos mostram que pessoas com uma auto-imagem
positiva confiam em sua capacidade de enfrentar o desconhecido
e se garantir caso as coisas não dêem certo”,
afirma Caramaschi. Por isso, diante de novos desafios ou do
inesperado, faz bem lembrar-se das vezes que conseguimos mudar
com sucesso.
Nada é mais estimulante do que as mudanças que
ocorrem exatamente como desejamos ou sonhamos: são presentes
do Universo para nós. Mas ele também nos ensina
por linhas tortas, e as experiências que não deram
certo também têm uma função. “Em
certos momentos o que queremos é uma fantasia ou uma
ilusão. Quando reconhecemos que esse caminho é
inviável, vale ser flexível, analisar outros pontos
de vista e agir sob um novo ângulo”, acredita Dulce
Critelli, professora de filosofia da PUC/SP e coordenadora do
Existentia – Centro de Orientação e Estudos
da Condição Humana, de São Paulo.
Pequenas decisões
Aceitar o que não pode ser mudado é a chave que
nos ajuda a lidar também com as situações
inesperadas que batem à porta, como separação,
demissão ou perda. “Diferentemente do que se imagina,
a aceitação é uma atitude ativa e não
passiva. Ela nos faz olhar e encarar de frente a situação
e descobrir recursos internos e externos para lidar com ela”,
aponta Daniel Calmanowitz, diretor do Centro Dharma da Paz,
de São Paulo, ligado ao budismo tibetano.
Embora algumas mudanças atuem como divisor de água
em nossa história – como o nascimento de um filho
ou trocar de cidade ou país –, a maioria das transformações
que vivenciamos não é espetacular. “A vida
é feita de decisões miúdas e aparentemente
sem importância que só vão revelar seu impacto
mais adiante, quando olharmos para trás e vermos como
influenciaram nossa vida”, assinala Laurentiis.
Na verdade, mudar é uma receita personalizada que envolve
desapego, ousadia e flexibilidade. E não é fácil
selecionar nesse oceano de possibilidades quais são as
mudanças estéticas, profissionais, pessoais, de
relacionamento que realmente nos interessam. “Mudar é
um rito de passagem que nos liberta do passado, de verdades
e hábitos cristalizados que não servem mais, e
criam espaço para a entrada do novo. São essas
mudanças que ajudam cada um a realizar a principal tarefa
que lhe cabe nessa vida, que é a de construir a si mesmo”,
finaliza Critelli.
Antes de decidir, consulte
seu coração
Diante de tantas opções de mudança, escutar
a voz interior é o melhor caminho para decidir o que
deve e o que não deve ser mudado. Confira os passos propostos
pela professora de filosofia Dulce Critelli, coordenadora do
Existentia – Centro de Orientação e Estudos
da Condição Humana, de São Paulo.
– Pergunte para si mesmo, diante do desejo ou da possibilidade
de mudança: “O que isso tem a ver comigo?”
– Reconstitua sua história. Volte no tempo e reveja
como você tem levado a vida, suas escolhas mais importantes
e o resultado delas. Isso lhe dará a noção
de seu fio condutor.
– Identifique suas alianças. Pergunte-se: “Quais
são as pessoas com quem convivo? Que tipos de laço
estabeleço com elas? Que acordos eu faço para
mantê-las como parceiras em minha vida?” Isso dará
a dimensão de que ninguém é o que é
sozinho e que mudar não é um ato solitário.
– Cultive a atenção. Não percebemos
os hábitos e valores que incorporamos a cada instante.
Preste atenção em suas escolhas diárias,
grandes e pequenas. Veja se participou conscientemente delas
ou se as decisões apenas aconteceram. Reveja-as no fim
do dia. Essa é uma maneira de se manter centrado e decidir
os passos com mais confiança.
Sete maneiras de enfrentar,
ou simplesmente aceitar, as mudanças, segundo o budismo
A vida é cheia de surpresas e o budismo ensina muito
a respeito da impermanência, isto é, o fato de
que tudo está mudando a todo instante. Há lições
interessantes sobre como lidar com o que é transitório
e com fatos inesperados. Veja as indicações de
Daniel Calmanovitz, diretor do Centro Dharma da Paz, de São
Paulo, que segue a linha do budismo tibetano.
• Aceite a situação. Aceitar é libertador,
ajuda a seguir em frente e impede que você fique aprisionado.
• Contemple a situação e os sentimentos
que causou. Saiba que terá que lidar com eles de qualquer
forma.
• Busque a ajuda e o apoio das pessoas. Não esqueça
que você faz parte de uma rede de relações.
• Lembre-se de que nenhuma situação dura
para sempre. Ela é apenas momentânea.
• Olhe em volta e descubra que existem outras pessoas
na mesma situação.
• Se estiver muito agitado ou tenso, use a respiração
como uma aliada. Concentre-se nela, tente respirar pelo abdômen
e descubra como isso acalma.
• Ao acordar, sente-se na cama e preste atenção
em seu coração. Estabeleça um foco para
o seu dia, que pode ser sentir paz, por exemplo. Antes de dormir,
sente-se novamente na cama e faça um balanço do
dia e avalie se conseguiu cumprir suas metas.
A palavra dos leitores
“Seria ótimo mudar a imagem do planeta, de um acinzentado
tristeza para um laranja alegria”
Marisa Ramos Bertolo, 30 anos, técnica de importação
de São Paulo “Gostaria que cada um olhasse para
dentro de si mesmo e pudesse se dar uma chance e, conseqüentemente,
dar uma chance ao próximo. Só assim a paz poderá
existir de verdade” Regina Lucia Lopes, 45 anos, secretária
executiva do Rio de Janeiro
“Quero ser mais perseverante e persistente em relação
à saúde, meditar, praticar mais caminhadas e adotar
uma dieta saudável. Afinal, não dizem que somos
o que comemos?” Fernando M. Segarra, 38 anos, comerciante
de São Paulo
E você?
Bons Fluidos lançou em sua página na internet
um fórum perguntando aos internautas: o que gostaria
de mudar em 2005? Em você? E no mundo? Veja as mudanças
mais desejadas em centenas de e-mails recebidos.
No mundo
• Mais paz e igualdade, com o fim das injustiças
sociais.
• Nas relações humanas, mais tolerância,
solidariedade, fraternidade e capacidade de perdoar.
• Na sociedade, a diminuição da violência
e da criminalidade para que todos possam viver mais tranqüilos.
• No Brasil e na maioria dos países, que os governos
e os políticos fossem mais sensíveis às
necessidades de seus povos.
• A cura para o câncer, a aids e outras doenças.
Na vida pessoal
• Conseguir trabalho e prosperidade financeira.
• Alcançar a paz interior.
• Se tornar uma pessoa mais espiritualizada.
• Ganhar mais motivação e coragem.
• Praticar atividades físicas, perder peso e adotar
hábitos saudáveis.
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Desapego,
ousadia e flexibilidade nos ajudam a ter sucesso nos novos
desafios |
Texto: Fanny Zygaband
janeiro 2005
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