Beleza

“A beleza está na cabeça e no coração de quem vê”

Auto-estima, bem-estar e beleza. A relação entre esses temas é a matéria-prima do trabalho da psicóloga Nancy Etcoff, 48 anos, PhD e professora da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, há duas décadas. Em entrevista a Bons Fluidos, a especialista explica por que apenas 2% das mulheres se acham belas e como se olhar no espelho com mais carinho.

Quando Nancy Eticoff começou seus estudos, em meados da década de 80, existiam “livros inteiros de psicologia que não faziam nenhuma menção à aparência, como se isso não importasse. E é claro que importa”, conta ela, autora do livro A Lei do Mais Belo – A Ciência da Beleza (ed. Objetiva), uma das obras de referência sobre o assunto, pois chama a atenção para o papel da beleza em nossa vida.
Recentemente, Nancy trabalhou em uma pesquisa mundial que revelou dados surpreendentes sobre nossa relação com os padrões estéticos e em todos os valores que estão presentes quando nos olhamos no espelho. Embora a insatisfação com o próprio corpo seja geral, é bom ter sempre em mente: cultivar a bondade, o bom humor e a alegria e estar de bem com as próprias escolhas são fatores que definem o belo para muito além do mundo das top models.

Bons Fluidos – Por que apenas 2% das mulheres se declaram belas, conforme apontou o estudo feito por você?
NANCY ETCOFF – A pesquisa (encomendada pela indústria química Unilever) foi feita com 3,2 mil mulheres em dez países, com idade entre 18 e 64 anos. Percebemos que, quando as mulheres falam em beleza, a primeira associação é estreita, fixada no visual, em características como a magreza das modelos. Quando se comparam com imagens de beleza extrema, não se acham bonitas.

BF – Esse fenômeno é recente? De onde vem?
NE – As mulheres sempre quiseram ficar mais bonitas, mas agora há mais pressão. O exagero começou há 20, 30 anos, com a disseminação da imagem das supermodelos, que surgiram nas décadas de 60 e 70. E ainda houve o aparecimento de mais e mais técnicas para mudar a aparência, cirurgia plástica, maneiras de alterar fotografias e outros métodos de criar corpos artificiais. Como vêem um monte de imagens de beleza rara, sempre umas muito parecidas com as outras, as mulheres comuns sentem-se excluídas, já que a definição do belo ficou tão restrita que passou a ser impossível alcançar.

BF – No Brasil, segundo a mesma pesquisa, há um número um pouquinho maior de mulheres que se consideram belas (6%) e no Japão esse número é nulo. O que isso indica?
NE – O que chama a atenção é que, independentemente da cultura ou da faixa etária, um número surpreendente de mulheres não se considera bonita. Os resultados são muito semelhantes, o que nos leva a concluir que essa é uma questão global. Embora seja verdade que no Japão as pessoas são mais modestas.

BF –
Por que tantas pessoas no Brasil fizeram operações plásticas (7%) ou desejariam fazer (54%)?
NE – Realmente, esses foram os índices mais altos nesse item em toda a pesquisa. Entre as brasileiras, 79% concordam que “espera-se das mulheres de hoje que sejam mais atraentes fisicamente do que a geração de sua mãe”. Elas também se mostraram menos satisfeitas com sua beleza física do que mulheres de outros países: por exemplo, apenas 9% das brasileiras disseram estar muito satisfeitas com sua própria beleza, contra 21% nos Estados Unidos. Essa falta de satisfação deve estar alimentando o mercado das plásticas.

BF –
Quais são os motivos disto?
NE – As brasileiras parecem sentir, mais do que em qualquer outro país, que ser bonita é extremamente importante. Isso se relaciona também com o que é mais importante dentro de cada cultura – e a beleza parece ter um peso maior no país.

BF – Por que sempre achamos que falta algo no visual?
NE – As mulheres acham mesmo, honestamente, que não são bonitas o bastante. Não é só modéstia porque, se fizermos outros tipos de pergunta, elas não hesitam em dizer “sou uma ótima mãe”, “sou uma boa motorista”, “sou inteligente”. Em parte, sentem-se mais julgadas por sua aparência, como se houvesse um prêmio para a beleza. Acreditam que terão mais oportunidades no mundo se forem bonitas.

BF – As mulheres se comparam demais com quem convivem?
NE – Sim, com amigas, vizinhas, colegas, familiares. A diferença é que agora elas se comparam com pessoas que nunca conhecerão – as modelos que têm rostos e corpos muito fora do comum, extremamente bonitos e inatingíveis.

BF – Por que os padrões de beleza dizem respeito a um número tão reduzido de pessoas?
NE – Os padrões têm a ver com as preferências humanas. Gostamos de olhar para pessoas saudáveis, jovens, férteis e fortes e gostamos desses sinais visuais de poder, de destaque. E a beleza geralmente tem muito a ver com o que é raro: se todo mundo é gordo, o ideal é ser magro.

BF – E a tendência é acreditar que se for magra será mais amada. Por quê?
NE – Se as revistas mostram pessoas muito magras e bem-vestidas, em festas, se divertindo, as leitoras pensam: “Isso deve ser o que significa ser amada, ter sucesso e ser charmosa”. Se vivêssemos em uma sociedade em que a maioria passasse fome e fosse muito magra, essas modelos não seriam consideradas bonitas. Mas aqui (nos EUA), onde temos problemas com a obesidade, onde é difícil ser magro, isso se transforma no ideal mais valorizado.

BF – Apesar de não se considerarem belas, as entrevistadas admitiram que têm alegria, inteligência e gentileza e associaram isso à beleza.
NE – Essa foi uma das descobertas mais importantes do estudo. De início, as pessoas pensam em beleza como algo apenas físico, mas, quando apresentamos conceitos como felicidade, gentileza e inteligência, todas os relacionaram à palavra beleza. A partir daí, passaram a enxergar um quadro bem mais amplo. Me parece que levam esses fatores mais em consideração quando falam das outras, não de si mesmas. Ao citar mulheres que acham bonitas, apontam colegas, familiares. Quando vão falar de si mesmas, ficam muito mais críticas e concentradas no que acham que não têm.

BF – Existem cada vez mais mulheres sozinhas. O principal motivo para querer ficar bonita é competir com outras mulheres?
NE – Uma das razões de por que as mulheres querem ficar bonitas é conseguir um parceiro. De fato, há cada vez mais gente solteira, e todo mundo presta atenção na aparência porque esse é um dos fatores da atração. Mas também tem a ver com o fato de as pessoas circularem muito mais hoje em dia. Com tantas viagens, tantas mudanças, já não há tempo para conhecer profundamente e, assim, a primeira impressão, a aparência, ganha mais peso.

BF – Usar cosméticos demais pode causar insatisfação?
NE – As novidades parecem não ter fim, mas, olhando para trás, os antigos egípcios já usavam a maior parte dos cosméticos que usamos hoje. As pessoas os adoram, pois realçam o que têm de bonito, porém não vejo insatisfação por causa deles. Sua atração sobrevive ao tempo, já que ficam cada vez mais caros e continuam vendendo bem. Xampu, sabonete, cremes, maquiagem... Usar esses produtos faz parte do prazer de ser mulher.

BF –
Também há gente que se afasta da tecnologia, buscando um modo de vida mais natural, mais zen.
NE – É uma tendência. Há um número crescente de pessoas buscando a autenticidade, uma aparência natural. É uma resposta a tantos produtos, tantas cirurgias. Aqui, temos programas de TV de transformação, e todo mundo sai com a mesma cara: cabelão, dentes branquíssimos, peitão. Nem todo mundo acha que esse é o ideal.

BF –
Estamos falando de Extreme Makeover (transmitido no Brasil pelo canal por assinatura Sony). Por que esse tipo de programa faz sucesso?
NE – Pelo menos na cultura americana, as pessoas querem aproveitar todas as opções para melhorar o humor, o corpo, o guarda-roupa e fazem isso sem limites. No entanto, é preciso definir o ponto satisfatório e fazer outras coisas, em vez de ficar obcecado apenas pela aparência. Em algum momento, precisamos saber onde parar e ver o que basta.

BF – Não seria ruim se nos achássemos perfeitos?
NE – Sim, porque aí não teríamos vontade de melhorar. É da natureza humana ser imperfeito, e é preciso aceitar isso sempre: não há corpo perfeito, não há rosto perfeito. Lutamos para melhorar, e precisamos saber quando estamos lutando por algo que não é atingível porque isso pode ser muito frustrante.

BF – Em sua opinião, o que faz a mulher ser bonita?
NE – A pessoa inteira. Se você é feliz, irradia felicidade. A beleza está relacionada à autenticidade, às paixões e às preferências de cada um. Mas também tem a ver com a aparência, com estar sempre o mais bonito possível.



Texto: Ana Ban

dezembro 2004

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