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BEM-ESTAR
Amor de amigo
Há amizades mais duradouras,
outras mais divertidas, algumas desafiadoras. Todas elas, no
entanto, enriquecem, exercitam a tolerância e vão
mudando a gente para melhor – claro! É o que confirmam
os superamigos que você vai conhecer nesta reportagem.
Amizade é vitamina. Faz o pulmão
inflar, o coração encher. Deixa o dia desbotado
recuperar a cor. Por que o amigo traz essa sensação
é difícil explicar. Há aquele que nos provoca
simplesmente o riso, outro sente a dor alheia e padece assim
como as mães e suas crias ou aponta os erros e indica
os caminhos, papel típico dos amigos professores. E existe
o que é todo confuso, mas, mesmo sem resposta para nossas
dúvidas, oferece o olho no olho, a mão na mão.
A psicóloga americana Shelley Taylor, professora do departamento
de psicologia da Universidade da Califórnia, descobriu
o valor dessa relação meio por acaso, quando se
debruçou em dezenas de pesquisas sobre o estresse. Nessa
busca, ela percebeu que as pessoas que têm amigos lidam
melhor com o desgaste físico e emocional. Na prática,
funciona como uma válvula de escape para os momentos
de aflição e angústia no trabalho ou em
casa. “Pessoas que se privam dessas relações
tendem a sofrer mais de depressão e de dependência
química”, conta Shelley Taylor, que também
é autora do livro, sem tradução para o
português, The Tending Instinct: Women, Men and the Biology
of Relationships (O Instinto Cultivado: Mulheres, Homens e a
Biologia dos Relacionamentos).
Outro estudo feito na Universidade da Califórnia apontou
um dado interessante: as mulheres, provavelmente por procurar
mais umas às outras em momentos de crise, conseguem lidar
melhor com o estresse do que os homens – que tendem ao
isolamento. Falar da dor, entenda-se, já ajuda a diminuí-la.
Química do afeto
Quimicamente, uma das explicações para a amizade
ser esse santo remédio é que ela descontrai e
diminui a carga de adrenalina – a substância que
liberamos em momentos de tensão e, em excesso, desencadeia
alguns problemas para o corpo: pressão alta, taquicardia,
depressão etc.
O companheirismo garante a proteção. Amigos transformam
a solidão e redimensionam os medos. E, claro, multiplicam
as vitórias. Um exemplo dessa mistura de sentimentos
aconteceu com as amigas Mônica Battello, 41 anos, e Marta
Leon Franco, 40, de São Paulo, que encontraram uma na
outra a força para contornar as dificuldades de suas
relações conjugais e as angústias sobre
o futuro profissional. Quando Marta se separou, há dois
anos, e passou por um momento de dor, Mônica manteve-se
firme ao lado da amiga para que ela terminasse o curso de direito.
Em julho, Marta recebeu o diploma. “Naquele dia emocionante,
tive a sensação de que eu também terminava
o curso porque nós caminhamos juntas”, diz Mônica,
que é produtora cultural.
Em evolução
A idéia de relações de amizade duradouras,
na verdade, surgiu com o filósofo grego Aristóteles.
Mas existem histórias de amizade circunstanciais que
também provam a afeição, como as protagonizadas
pelos doadores de sangue. Muitas vezes o receptor depende desse
amigo invisível e passageiro, mas nem por isso menos
valioso.
Em matéria de evolução de conceitos, outro
avanço foi que a troca de confidências, antes reservada
apenas para pessoas do mesmo sexo, ultrapassou essa barreira.
“Neste século, é comum a amizade entre homens
e mulheres. Antes, esse tipo de relação era sempre
amoroso”, compara Edson Passetti, professor de ciências
políticas da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo e autor do livro Ética dos Amigos:
Invenções Libertárias da Vida (ed. Imaginário).
Contribuiu para esse panorama o fato de que nos últimos
26 anos a participação feminina no mercado de
trabalho cresceu 70%.
As afinidades, claro, podem aparecer no ambiente profissional
ou fora dele. A psicóloga Luciana Arruda, 28 anos, tem
em Leonardo Rossatti, 30, um amigo fiel. “Leleo e eu temos
nosso trabalho, nossa vida, mas sempre estamos em contato e
compartilhando o que chamo de ‘mundo mágico’,
que são gostos em comum: os desenhos da Disney, os personagens
do autor
J. R. R. Tolkien (do livro O Senhor dos Anéis) e a filosofia
espírita de Alan Kardec”, conta ela. Um dia Luciana
comentou que se sentia desencantada com seu destino. “Nesse
instante, Leonardo me disse que a divindade ainda estava em
mim e eu é que não estava percebendo. E pediu
que eu pensasse numa folha e a imaginasse em relação
à árvore, ao solo e a mim mesma”, lembra.
Essas palavras reduziram o estresse e a solidão. “Leleo
me mostrou que, diante do Universo, tudo se torna tão
pequeno que não merece o desgaste. Até hoje, quando
me sinto perdida, paro, respiro e vou observar as folhas”,
finaliza a psicóloga, que mora em Guararapes, SP.
Conflitos que fortalecem
Longe do estereótipo da relação perfeita,
a amizade sofre seus tropeços e inclui brigas e discussões
que nos ensinam mais sobre a tolerância e os próprios
limites. Primeiro porque nas amizades “você pode
mostrar quem realmente é, e isso não é
uma tarefa fácil”, diz Marlise Bassani doutora
em psicologia educacional da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. Segundo porque o amigo
do peito é aquele que pode falar o que o outro não
quer ouvir.
Esse ponto de equilíbrio entre afinidade e discordância,
entre abrir espaço para que o outro exponha suas fraquezas
e, ao contrário, respeitar o direito de proteger seus
segredos, faz o professor Edson Passetti, de São Paulo,
definir a amizade como coisa para guerreiro. “É
preciso brigar de vez em quando, saber em que luta vale a pena
entrar, quando o melhor é insistir, quando é hora
de ceder”, explica. No final, são dessas pequenas
batalhas que se constroem fortes alianças. Até
porque nos percebemos mais consistentes quando enfrentamos abalos
sísmicos como esses e permanecemos em pé.
O técnico de vôlei Alexandre Calil, 40 anos, e
o empresário Pedro Henrique Toledo Júnior, 40,
já atravessaram inúmeros conflitos durante as
duas décadas em que se conhecem. Depois de uma discussão,
é comum uma breve separação para apaziguar
os sentimentos. Passado o tempo necessário para desfazer
a mágoa, vem a segurança de que a amizade durará
mais 20 anos. “Alexandre é um desses amigos que
eu posso ficar quatro, cinco meses sem ver. O laço que
temos é eterno e não precisa do convívio
diário para existir”, confessa Pedro.
Há pessoas mais carentes, outras independentes. O importante
é estar presente na troca, na confiança e no amor.
Como lembra o professor de filosofia Basilio Pawlowicz, da Associação
Palas Athena, de São Paulo: “Vivemos caindo em
diferentes buracos pela vida afora. Para tirar você dele,
um médico pode jogar uma receita, um padre recomendar
que se reze mais, o cientista calcular a força necessária
para te puxar, o filósofo desenvolver uma tese sobre
o que é cair nele, mas só o amigo se atira no
mesmo buraco porque acredita que juntos vocês poderão
sair”.
Amigos a distância
O Orkut, um site que estimula a formação de uma
rede social, permitindo encontrar antigos e novos amigos, tem
provado que as amizades virtuais estão em alta. Criado
em janeiro deste ano pelo turco Orkut Buyukkokten, 30 anos,
que trabalha para o buscador Google, o Orkut já é
sucesso no Brasil – 51% dos membros são brasileiros
(em seguida vêm os americanos, com 17%). A febre desperta
em algumas pessoas o desejo de adicionar amigos. Explica-se:
cada pessoa que entra para o grupo tem um tipo de ficha de apresentação
com foto, nome, interesses e número de amigos. Às
vezes, nem tão amigos assim. Mas, descontada a neurose
de mostrar quão bacana se é pela quantidade de
amigos adicionados, o site realmente promove bons encontros.
A psicóloga Tais Rocha de Souza, 27 anos, reencontrou
amigos que não viu durante 17 anos. Há três
meses, os cerca de 30 colegas marcaram um encontro real. “Foi
como um resgate de laços que eu acreditava desfeitos”,
afirma. Se essas relações serão mantidas
ou não ninguém sabe. Até porque, como diz
o ditado, há pessoas que apenas passam por nossa vida,
mas não ficam. E tudo bem. Pelo menos que a despedida
aconteça antes que acabe a camaradagem.
Sempre juntas
(foto de abertura)
Leila Heidtmann, 39, empresária: “Já sei
quando a Denise vai rir. Ela primeiro arregala os olhos, depois
prende a respiração e em seguida solta uma gargalhada.
É assim o dia todo no escritório. A gente não
briga pela liderança e aprendemos, com o tempo, lições
de respeito mútuo. Uma única vez percebemos que
precisávamos deixar as sócias de lado e dar um
tempo para as amigas. Foi em 1998 – estávamos as
duas cansadas e estressadas. Decidimos tirar férias de
tudo: trabalho, maridos, filhos. Fomos passar uma semana em
Cancún, no México. Em minha casa, tenho dois porta-retratos,
colocados em destaque e lado a lado. Um tem meu marido e filhos,
e o outro, Denise. Um detalhe que é o espelho de nossa
amizade. Ela é uma extensão de minha família”.
Denise Cury, 38, psicóloga: “Quando a gente se
olha, eu tenho a impressão que o tempo não passou
e que somos as meninas risonhas das aulas do magistério.
Conheci a Leila no colégio, há 23 anos, e tivemos
uma sintonia inexplicável. Sempre fomos próximas,
mas há nove anos ela me convidou para ser sócia
na Fazendinha, um espaço para crianças que reproduz
a vida rural na capital paulista. Esse trabalho nos aproximou
ainda mais. Às vezes, estou falando no telefone, faço
um sinal com as mãos e ela sabe o que quero dizer. Só
pelo olhar ou tom de voz dela, sei se o assunto está
agradando ou não. Nossa sociedade dá certo porque
aprendemos, com a amizade, a respeitar a opinião uma
da outra. Ela é muito sonhadora, e eu sou a pessoa que
sinaliza os caminhos, colocando as pedras no chão”.
Gerações unidas
Ike Moraes, 34, empresário: “Somos de épocas
diferentes e temos jeitos distintos de conduzir a relação
com as pessoas. Há dois anos ao lado da Bettina, aprendo
algumas lições de respeito, como falar com educação,
mas sem ser paternalista demais. Ela consegue dar ordens, misturando
bem a delicadeza e a firmeza. Às vezes fico quieto, só
observando. Acho que a beleza de nossa amizade está no
jeito como ela se empolga com minhas idéias e, ao mesmo
tempo, na habilidade que tem em colocá-las em prática.
Ela é mais organizada e consegue materializar meus sonhos.
Um deles é uma ONG que temos juntos, a Agente Cidadão
(www.agentecidadao.com.br), que entrega doações
às entidades mais carentes. A idéia foi minha,
mas foi Bettina quem viabilizou todo o funcionamento da organização,
que faz a ponte entre o doador e o necessitado”.
Bettina Lenci, 59, aposentada: “Temos uma relação
afetiva, que não é de mãe e filho. É
de amizade mesmo, baseada no respeito. Conheci Ike dez anos
atrás, quando ele veio trabalhar em minha empresa de
transportes. Certa vez, numa conversa, descobri que tínhamos
paixões em comum: adoramos discutir a política
e a situação social do país. Quando minha
empresa fechou, cada um seguiu seu caminho. Ele foi fazer trabalhos
sociais e eu me aposentei. Um dia ele me ligou e me convidou
para fazer parte da ONG que estava montando. De nossa convivência,
nasceu a amizade e acho que formamos uma dupla muito boa, apesar
de eu já ter muitos cabelos brancos e ele ser jovem.
Sempre conversamos de igual para igual, retrucamos e ponderamos
as idéias um do outro. E eu, que já estava descrente,
amarga com as relações sociais do país,
descobri no Ike uma força de vida”.
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Bettina
Lenci (a esquerda) e Ilke Moraes |
Viva a diferença!
Ana Rezende Galeotti, 44, designer gráfica: “Conheço
a Roberta desde os 15 anos e sempre tivemos jeitos diferentes.
Eu adoro esportes e ela detesta. Gosto de sair e ela é
supercaseira. E ela é bem mais tolerante no dia-a-dia do
que eu. Nossa união se mantém porque respeitamos
essas diferenças. Gosto de dizer que temos uma alma comum.
Venho de uma família de nove irmãos, mas a Robby
é a irmã que eu escolhi. Desde o início de
nossa amizade, ela sempre foi meu apoio emocional. No início
dos anos 90, larguei minha vida no Brasil para seguir meu coração
e fui morar no Chile. Sem trabalho por lá, entrei numa
depressão horrível. Um dia liguei para ela, mas
não falei sobre minha tristeza, apenas descrevi onde estava:
sentada na beira do sofá, olhando pela janela. Na mesma
semana, ela pegou um avião e passou quatro dias comigo.
Isto é nossa amizade: não precisamos dizer com palavras
o que estamos sentindo porque a outra já sabe”.
Roberta di Pace, 44, publicitária: “A Ana torna minha
vida melhor. A amizade que tenho por ela passa pelo amor incondicional,
desses que a gente tem pelos pais e pelos filhos. Ela sempre esteve
presente nas horas de indecisão em minha vida: no final
da adolescência, na época do vestibular, quando queria
dar um tempo nos estudos e viajar... Foi Ana quem me deu chão
e me empurrou para frente. Exemplos? Ela sentou a meu lado, me
convenceu a estudar e me deu força para iniciar minha vida
profissional. Quando eu faltava na escola por preguiça,
ela ia para minha casa depois da aula. Em geral, eu estava dormindo.
Ela se deitava a meu lado e, à tarde, repassava, eu querendo
ou não, toda a matéria do dia”.
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Ana Rezende
(à esquerda) e Roberta di Pace |
Desde criança
Christiane Reste, 27, secretária: “Milene e eu começamos
a nos ver com maior freqüência porque nossos pais eram
amigos. Me achava muito mais velha que ela, apesar de termos apenas
um ano de diferença, e isso me tornava uma espécie
de conselheira. Na época, era pra mim que ela contava sobre
o interesse pelos meninos. A vida nos separou. Ela foi morar nos
Estados Unidos, e a amizade de infância se dissolveu. Há
quatro anos, nos reencontramos no mesmo local de trabalho. Dessa
vez, descobrimos nossas afinidades: a mesma profissão e
os mesmos gostos, desejos, vontades. No ano passado, Milene ficou
grávida do namorado. Quando ela recebeu o exame, correu
para me mostrar. Rimos e choramos juntas. Dividimos os medos e
as ansiedades, e eu acabei acompanhando cada passo da gravidez,
desde o despontar da barriga até o nascimento da filha
dela. Senti uma ponta de medo de perder a amiga quando ela casou.
Mas com o tempo percebi que as mudanças de rumo só
mostraram que nossa relação é mesmo muito
sólida”.
Milene Mendes, 26, secretária: “No dia que descobri
que estava grávida, procurei Chris no mesmo instante. Eu
não sabia o que fazer, pois estava com medo e feliz ao
mesmo tempo. Eram muitas dúvidas, mas de uma coisa eu tinha
certeza: minha amiga estava a meu lado. A Chris acompanha muito
esse meu dia-a-dia de mãe e os sentimentos que estão
envolvidos. Quando nossa amizade começou, eu tinha uma
admiração por ela. Nossos pais eram o elo de tudo
isso porque combinavam viagens juntos, marcavam se encontrar no
clube. Não era, de certa forma, uma escolha minha, mas
deles, e acho que foi por isso que a amizade se diluiu com o tempo.
Quando a gente se reencontrou, a escolha foi nossa. E a amizade
que surgiu daí passou a ser diferente. Sem tantos distanciamentos.
Mesmo depois de meu casamento, preservo meus momentos com ela.
Dou um jeito de ajeitar um encontro só nosso, e a gente
conversa sobre trabalho, relacionamento e desabafamos”.
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Milene Mendes
(à esquerda) e Christiane Reste |
Texto: Ana Holanda e Kátia Stringueto
Reportagem: Ana Holanda
Reportagem Fotográfica: Michele Moulatlet
Fotos: Ana Lúcia Mariz
Novembro 2004
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