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ESPIRITUALIDADE
Lugares encantados
Nas profundezas do oceano, no centro
da Terra, na selva fechada da América do Sul, nas altas
montanhas do Himalaia existem lugares envoltos em mistério
e magia. A essas terras e países míticos, habitados
por seres fantásticos, com paisagens exuberantes, só
se chega viajando pela imaginação.
Atlântida existiu? E Avalon,
com suas fadas, feiticeiras e brumas, foi ponto de chegada do
rei Artur? A menina Narizinho morou no Sítio do Pica-Pau
Amarelo? As perguntas ficam no ar, já que esses lugares
são mesmo enraizados no imaginário.
A Terra do Nunca ou o País das Maravilhas, descritos
na literatura e no cinema, ficam na fronteira entre ficção
e realidade e, para visitá-los, o único passaporte
exigido é a imaginação. “Apesar de
alguns terem referência no mundo real – é
até possível localizá-los no mapa-múndi
–, a maioria existe em uma dimensão fora do tempo
e do espaço”, explica Maria Celina Queirós
Cabrera Nasser, professora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC/SP) e especialista
em linguagem dos símbolos.
Chegar até eles nem sempre é fácil. É
preciso caminhar pelas cordilheiras, percorrer labirintos e
se embrenhar na mata. “As entradas que dão acesso
a esses lugares funcionam como ritos de passagem, portais para
outros estados de consciência”, diz a antropóloga
Danielle Perin Rocha Pitta, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar
de Estudos sobre o Imaginário da Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE). “Para chegar à ilha de Avalon,
era preciso usar os poderes mentais para abrir a cortina de
brumas que a encobria”, descreve.
Imagens vivas
Alguns desses espaços mágicos nasceram da inspiração
de escritores e artistas baseados nas próprias experiências
e memórias. O Sítio do Pica-Pau Amarelo dos livros
infantis de Monteiro Lobato reproduz o clima das antigas propriedades
rurais do interior de São Paulo, onde viveu o escritor.
A maioria deles, entretanto, incorpora cenários, personagens
e elementos compartilhados pelas culturas de todas as épocas.
“São imagens do inconsciente coletivo que formam
um patrimônio comum a toda a humanidade, que o psiquiatra
suíço Carl Gustav Jung chamou de arquétipos”,
ensina a antropóloga Danielle.
Assim, gigantes, monstros, sábios, feiticeiros e heróis
vivem em castelos com altas torres que se elevam ao céu,
infinito e insondável, em cavernas escuras que representam
o âmago da mente humana, nos mares que remetem às
emoções profundas e ao inconsciente.
“O El Dorado, terra de ouro abundante, por exemplo, além
de representar a cobiça dos conquistadores espanhóis
do século 16, simboliza a busca pela riqueza interior
do ser humano”, continua a antropóloga. A ilha
de Avalon, habitada por mulheres que cultuavam uma deusa ancestral,
personifica a antiga visão de mundo sob a ótica
feminina, que foi suplantada pelo poder masculino.
Conheça a seguir dez espaços mágicos e
mitológicos, escolhidos entre muitos outros. Ao longo
do tempo, eles fascinam, intrigam e encantam pessoas de todas
as idades.
Atlântida, o continente submerso
mais próspera e avançada civilização
do mundo antigo floresceu há 10 mil anos e submergiu
no oceano em uma série de imensos cataclismos.
O povo atlante, dono de rara beleza e inteligência privilegiada,
alcançou um alto grau de desenvolvimento e erigiu cidades
com edifícios e templos esplêndidos, cercados de
jardins belíssimos, árvores floridas e fontes.
Universidades, bibliotecas, laboratórios e observatórios
astronômicos funcionavam a todo vapor, promovendo um extraordinário
progresso das artes e ciências.
Para alguns, os terríveis terremotos e maremotos que
afundaram Atlântida foram castigo do próprio Netuno,
deus dos oceanos. Outros crêem que os cientistas atlantes
descobriram os segredos do Cosmo e liberaram forças capazes
de destruir toda a humanidade.
Navegantes que estavam fora da ilha, em missões de comércio
e de conquista por terras vizinhas, conseguiram se salvar da
destruição e deram origem a civilizações
posteriores. Arqueólogos e estudiosos procuram incansavelmente
vestígios das terras atlantes. Segundo uma das teorias,
a ilha de Santorini, no mar Egeu, na Grécia, é
remanescente da antiga civilização.
Onde encontrar:
Atlântida e Lemúria, os Continentes Desaparecidos,
de W. Scott Elliott (ed. Pensamento)
Avalon, a ilha das sacerdotisas
A terra sagrada das noviças devotadas à antiga
Deusa, também chamada de Grande Mãe, foi palco
de grandes acontecimentos na saga do Rei Artur e os Cavaleiros
da Távola Redonda. Avalon, a “ilha das maçãs”,
ficava na Inglaterra, em um lago rodeado de juncos, envolta
em uma fechada cortina de bruma. Depois que a neblina se abria,
um barqueiro misterioso conduzia o visitante até o lugar
sagrado.
Viviane, a Senhora do Lago, liderava as donzelas que viviam
em retiro devotado à Deusa. Mais tarde, foi sucedida
pela fada Morgana, meia irmã do Rei Artur. Segundo a
lenda, uma mão surgida das águas do lago de Avalon
presenteou-o com sua lendária espada Excalibur.
Onde encontrar:
As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley (ed. Imago), e
Avalon e o Graal e Outros Mistérios Arturianos, de H.
Gerenstadt (ed. Madras)
El Dorado, a terra do ouro
El Hombre Dorado era o chefe de uma tribo que habitava uma ilha
no centro de um lago perdido nos confins da selva da América
do Sul. A cada manhã, os sacerdotes cobriam o corpo nu
de El Dorado com resina e jogavam pó de ouro sobre sua
pele grudenta. No final da tarde, ele se lavava no lago e, à
medida que os séculos se passaram, um grande depósito
de ouro se formou no fundo das águas. Esse tesouro crescia
ainda mais anualmente, durante uma cerimônia em que a
tribo jogava balangandãs de ouro na água, fazendo
milhões de peças se acumularem nas profundezas.
A lenda do El Dorado aguçou a cobiça dos espanhóis
na época das grandes navegações, no século
16. Como as riquezas provenientes das colônias do Novo
Mundo foram se extinguindo, exploradores europeus se embrenharam
na selva em busca do lago dourado. Além de causar a destruição
das tribos locais, esses aventureiros só encontraram
a frustração, ou mesmo a morte. Enquanto a história
simboliza a eterna busca de um tesouro inalcançável,
o El Dorado pode ainda estar sendo diariamente coberto de ouro
em algum lugar da floresta amazônica.
Onde encontrar:
Da Atlântida ao Eldorado, de Willy Lei (ed. Itatiaia).
Centro da Terra, o mundo subterrâneo
O acesso ao território que jaz muitos quilômetros
abaixo da superfície do planeta é feito pela cratera
de um vulcão extinto na Islândia. O caminho, descoberto
no século 16, foi recuperado pelo professor alemão
Otto Lidenbrock, de Hamburgo, que em 1863 empreendeu uma viagem
acompanhado de seu sobrinho Axel e do guia Hans. Descendo até
as profundezas por túneis e cavernas cobertos de estalactites,
chegaram a um vasto oceano, iluminado por uma intensa luz branca
produzida por emanações magnéticas, com
uma praia de areia tammbém branca e conchas pré-históricas.
Em volta, descobriram gigantescos cogumelos e uma floresta de
milhões de anos, repleta de ossos de animais extintos.
Lidenbrock e seus acompanhantes encontraram vivos vários
desses bichos, e chegaram a presenciar uma batalha sangrenta
entre ferozes dinossauros.
Onde encontrar:
Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne (ed. Martin
Claret).
O País das Maravilhas e seus bizarros habitantes
Estranhas criaturas, como um baralho vivo, um Coelho Falante,
um Chapeleiro Maluco, um gato sorridente que ficava invisível,
ratos, cães e uma fauna interminável habitam o
país governado pelo Rei e pela Rainha de Copas, que ficava
em algum lugar perto de Oxford, na Inglaterra.
A entrada era uma toca de coelho e os visitantes (raros) podem
obter informações com uma lagarta que fuma um
narguilé sobre um cogumelo. Um desses turistas foi a
menina Alice, que no século 19 chegou lá depois
de entrar na toca e despencar em um imenso poço. Nele,
viveu experiências como diminuir de tamanho ao beber um
elixir e crescer até virar gigante ao comer um bolo.
Quase se afogou em um rio formado com suas próprias lágrimas,
jogou croqué (o esporte nacional) com flamingos em vez
de tacos e por pouco não foi decapitada por ordem da
Rainha de Copas, que era quem mandava.
Onde encontrar:
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (ed. Ática)
Sítio do Pica-Pau Amarelo:
aqui boneca de pano é gente
No bucólico sítio, que fica em algum lugar do
interior de São Paulo, moravam Dona Benta, sua neta Narizinho,
a negra Tia Anastácia e, de vez em quando, outro neto,
Pedrinho, que passava férias ali. Também viviam
lá Emília, uma esperta e pedante boneca de pano
que fala, e o Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho sábio
e erudito que também ganhou vida.
No sítio, a rotina tranqüila de jogar conversa fora
na varanda, chupar jabuticaba no pé e saborear os bolinhos
de Tia Anástacia era sempre quebrada por algum acontecimento
maluco, como a visita de personagens do folclore brasileiro
– o Saci, o Boitatá e a Cuca – e da mitologia
e da literatura – como Dom Quixote de La Mancha. Viajando
pelo tempo e espaço graças ao mágico pó
de pirlimpimpim, o grupo viveu infinitas aventuras no Mundo
das Maravilhas, no País das Fábulas e na Grécia
antiga, onde acompanhou os 12 trabalhos do herói Hércules.
Onde encontrar:
Reinações de Narizinho, A Reforma da Natureza
e A Chave do Tamanho (ed. Brasiliense), entre outros volumes
da extensa obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato (1882-1948).
Hogwarts, escola de bruxaria
Obruxinho Harry Potter é o mais célebre entre
os estudantes da escola de magia, que fica em um antigo castelo
repleto de altas torres, no topo de uma montanha na Inglaterra.
Ali, eles aprendem como fazer feitiços, preparar poções
de ervas, ler a bola de cristal e usar a varinha mágica,
entre outras disciplinas. Para tomar o trem para Hogwarts, é
preciso atravessar uma coluna de tijolos na estação
King’s Cross, em Londres. Ao chegar, os alunos novos são
encaminhados para uma das quatro alas da escola – Grifinória,
Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa – depois de passarem pela
seleção feita por um chapéu falante. Animados
torneios de quadribol – esporte aéreo disputado
em vassouras voadoras – divertem alunos e professores.
Onde encontrar:
Nos quatro livros da escritora J.K. Rowlings com as aventuras
de Harry Potter (ed. Rocco) e nos três filmes baseados
nos livros.
Shangri-Lá, onde o tempo
não passa
Nas encostas do monte Karakal, no Tibete, espalham-se os edifícios
da lamaseria, convento budista, sobre um fértil vale
cultivado. O povo vive em paz sob as bênçãos
dos lamas, os sacerdotes do budismo tibetano. Os habitantes
de Shangri-Lá envelhecem em ritmo lento e vivem muito
mais do que os outros seres humanos. Mas basta deixarem o lugar
para o tempo se acelerar. Os visitantes ali são pouco
comuns, já que o acesso é feito somente a pé,
por trilhas estreitas e íngremes.
Onde encontrar:
Horizonte Perdido, de James Hilton (ed. Claridade), e nos filmes
homônimos de Frank Capra (1937) e Charles Jarrot (1973).
Terra do Nunca: adulto não
entra
Nesse lugar de aventuras e eternas brincadeiras, não
existiam adultos para impor às crianças regras
ou horários de dormir e comer. Ali viviam Peter Pan,
o menino que se recusou a crescer, e a fada Sininho. Foi o próprio
Peter Pan quem levou a inglesinha Wendy e seus irmãos
voando para lá. Eles se juntaram aos Meninos Perdidos,
a sereias, índios, e piratas liderados pelo malvado e
inescrupuloso capitão Gancho.
Onde encontrar:
Peter Pan, de James Mattew Barrie, no desenho animado Peter
Pan, de Walt Disney, e nos filmes Hook, de Steven Spielberg,
e Peter Pan, de P. J. Hogan.
Lilliput, o reino do povo miúdo
Sobrevivente do naufrágio do navio Antílope, durante
uma violenta tempestade em 1699, o médico Lemuel Gulliver
conseguiu nadar até uma verdejante ilha, situada em algum
lugar entre a Austrália e a Tasmânia. Lá,
descobriu ser o primeiro visitante do reino de Lilliput, com
uma população de 1 milhão de habitantes
que medem não mais de 15 cm de altura. Quase a metade
deles vivia na capital, Mildendo, que abriga também o
palácio do imperador. A chegada de Gulliver colocou em
sério risco os recursos naturais da ilha – vastos
em quantidade, porém diminutos em tamanho: nada parecia
suficiente para aplacar a fome do gigante. Mesmo depois de desempenhar
um papel fundamental na vitória dos liliputianos contra
a ilha vizinha de Blefescu, o médico caiu em desgraça.
Gulliver poderia ter arrasado Lilliput, mas preferiu fugir para
Blefescu, onde encontrou na praia um barco (de seu tamanho,
é claro). Com ajuda da população, ele recuperou
a embarcação e fugiu das ilhas em 1701, depois
de dois anos de permanência. Não se sabe de mais
ninguém que tenha estado lá.
Onde encontrar:
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (ed. Cia. das Letrinhas)
Para saber mais
• Livro: Dicionário de Lugares Imaginários,
de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (ed. Companhia das Letras).
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Além
do tempo e do espaço |
Texto: Wilson F. D. Weigl
Ilustrações: Artur Lopes
Outubro 2004
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