ECOLOGIA

Escolhas com sabor, saúde e consciência

Quando um alimento orgânico sai da prateleira do supermercado para seu carrinho você apostou na preservação do meio ambiente, nos meios de produção que respeitam homem e natureza e, claro, na sua saúde. De verduras a guloseimas, cresce a cada dia a oferta desses produtos.

Que gostoso morder uma maçã suculenta e ter a sensação de que ela acabou de ser colhida e é composta apenas pelas substâncias da natureza! Coisa comum nos tempos de nossos avós, esse é um luxo para quem vive nas grandes cidades. Porém a cada dia mais gente adere aos produtos orgânicos. A procura por frutas, verduras e legumes cultivados sem uso de agrotóxicos e adubos químicos está crescendo de 30 a 50% ao ano.

Fácil entender: além de serem mais saudáveis e saborosos, os alimentos orgânicos são produzidos manualmente, respeitando os ciclos da natureza, em menor quantidade e com o olhar atento do produtor.

Sem aditivos que alteram cor, sabor e formato, são preservados as características originais e os nutrientes de frutas, hortaliças e grãos.

Múltiplas vantagens
Quem opta por esse tipo de alimento faz muito por si mesmo, pela família e também contribui com a proteção ao meio ambiente. “A agricultura orgânica preserva, por exemplo, pássaros e animais, pois eles não comem sementes tratadas com agrotóxicos”, observa Joop Stoltenborg, agricultor e proprietário do sítio A Boa Terra, que comercializa cestas de produtos orgânicos em domicílio, na capital paulista.

“Quando compro um pé de alface, tenho a certeza de que o agricultor teve respeito pela terra”, observa a terapeuta Jacqueline Peret, de São Paulo, que começou a consumir orgânicos em 1982, quando morava nos Estados Unidos.

Para Alexandre Harkaly, vice-presidente do Instituto Biodinâmico (IBD), o aumento da procura desses alimentos – não só por consumidores brasileiros como também pelos de outros países – fez com que o setor se profissionalizasse. Há hoje manejos de solo e técnicas sofisticadas e os produtos estão muito mais atrativos. “Foi-se a época em que um produto sem agrotóxico era mirrado, feio, sem coloração”, enfatiza Leonardo Miyao, diretor de comercialização do Supemercado Pão de Açúcar, de São Paulo.

Vale quanto pesa
Maior procura, menores preços. Longe ainda, no entanto, do ideal. “Um artigo orgânico custa, em média, 25% a mais do que o similar produzido de maneira convencional”, afirma Alexandre. “A conta do supermercado pode subir, mas garanto que a do médico diminui”, conclui.
Mirna Del Ry, mãe de Giulia, 1 ano em meio, e Enzo, 4, não se importa em pagar mais: “Quero o melhor para eles, que gostam mais dos orgânicos.”

Para ter a certeza de que você realmente vai ingerir um produto saudável, compre somente aqueles com selo de certificação. São várias instituições credenciadas pelo Ministério da Agricultura para inspecionar os produtos: entre elas IBD, AAO (Associação de Agricultura Orgânica), OIA (Organização Internacional de Agricultura), Ecocert e Chão Vivo.

Alexandre Harkaly, do Insitituto Biodinâmico (IBD), indica a melhor forma de escolher orgânicos.

Por que consumir produtos orgânicos?
Quem responde é a bióloga e socióloga Rita Mendonça, professora de ética, desenvolvimento sustentável e educação ambiental no curso de pós-graduação em ecoturismo e turismo rural do Senac/São Paulo e consumidora de orgânicos há 15 anos. Defensora da interação consciente entre homem e natureza, Rita representa a Sharing Nature Foundation no Brasil, uma fundação americana de educação ambiental.

“Já não há mais dúvidas: cada um é hoje responsável pela conservação da natureza. Assim como devemos tomar medidas diárias para evitar a acelerada destruição do meio ambiente – reciclar lixo, economizar água e energia etc. –, precisamos ficar mais atentos a nosso corpo. Sem nos darmos conta, ingerimos grande quantidade de ‘materiais não recicláveis’: os agrotóxicos, adubos químicos e conservantes presentes em verduras, frutas e artigos industrializados.”

“Nosso organismo não consegue assimilar essas substâncias inorgânicas, que acabam provocando desconforto e até doenças. Nossas veias tornam-se ‘rios poluídos’. Nossos órgãos, verdadeiros ‘depósitos de lixo’. É o mesmo que ocorre na natureza: as substâncias inorgânicas são despejadas nos solos, chegam aos rios e mares e provocam danos muitas vezes irreparáveis. A água contaminada com agrotóxicos, por exemplo, mata peixes e faz com que várias espécies desapareçam. Ao optar por produtos orgânicos – que têm esse nome exatamente por não conter substâncias inorgânicas –, você está cuidando de sua saúde e, ao mesmo tempo, beneficiando o meio ambiente.

Os motivos, no entanto, não param por aí. Os alimentos orgânicos são mais saborosos e mais nutritivos. Isso porque, no lugar de pesticidas, eles são adubados com produtos naturais, como pó de rocha, farelo de algodão e de mamona, esterco de animais, conchas moídas etc. Além disso, a produção orgânica é quase toda artesanal. Precisa, portanto, de mais mão-de-obra do que a agricultura convencional, que é, em grande escala, mecanizada. Vale a pena pesquisar para encontrar produtos saudáveis e com preços acessíveis. E até, em alguns casos, gastar um pouco mais. Afinal, sua saúde e a natureza merecem.”

Prefira orgânicos com selo de certificação. A qualidade é garantida e as normas de produção respeitadas

Na hora do supermercado
Veja as recomendações de Alexandre Harkaly, vice-presidente do Instituto Biodinâmico (IBD), um dos órgãos responsáveis pela elaboração das normas de certificação dos orgânicos.

• Hortaliças

Na maioria dos supermercados há um espaço para esses produtos orgânicos e a variedade é grande, principalmente de folhas verdes e legumes. Já as frutas são oferecidas em menor quantidade. Prefira produtos da estação, que apresentam melhores preços. Tome cuidado também para não confundir produtos orgânicos (livres de agrotóxico) com hidropônicos (cultivados em solução aquosa). “As hortaliças hidropônicas têm necessidade de receber fertilizantes químicos para desenvolver, pois são plantas que estão fora de seu ambiente natural”, alerta Alexandre.
Prefira especialmente tomates, batatas e morangos orgânicos, pois os cultivados de modo convencional absorvem grande quantidade de agrotóxicos, que não podem ser removidos no cozimento ou na lavagem.

Você encontra nos supermercados também verduras orgânicas já cozidas no vapor. Basta aquecê-las, na própria embalagem, em banho-maria ou no microondas e estão prontas para ir à mesa. A marca Good Light tem disponível mandioca, cenoura, batata, mandioquinha, beterraba.

• Grãos, açúcar e farinhas
Hoje é grande a oferta de arroz integral ou polido, soja, trigo e feijão, entre outros, produzidos sem conservantes. A oferta de farinhas também cresceu: trigo, trigo integral, mandioca, fubá, soja. Há ainda várias marcas de café orgânico em pó e de açúcar, que pode ser claro ou mascavo.

Por ser muito exportado, o café orgânico está sendo fabricado por várias marcas. Além do cultivo sem aditivos e agrotóxicos, os grãos são forrados por meio de um processo não poluente e o produto empacotado sem conservantes. A Native, por exemplo, fabrica café em grãos, torrado e moído e também instantâneo. Já a Astro Café tem o produto em sachês: são 20 saquinhos, embalados em papel reciclado.

• Outras delícias

Sempre há boas surpresas nos supermercados, mas é preciso bancar o detetive porque pouquíssimos estabelecimentos têm prateleiras especialmente para esse tipo de orgânico. Com paciência, é possível encontrar alguns tipos de mel – silvestre, de eucalipto, de eucalipto com própolis, de laranjeira –, molhos de tomate em lata, palmito, geléias variadas, doces, sucos de diversos sabores – goiaba, laranja, manga, maracujá, uva, laranja com acerola.

Os da marca Maraú não apresentam conservantes ou corantes. São ainda produzidos com água desmineralizada e açúcar orgânico. A embalagem é de vidro 100% reciclável. Outra curiosidade são produtos que contribuem para a manutenção das comunidades produtoras, como o mel da Associação Terra Indígena do Xingu. O dinheiro obtido com a venda vai para os índios.

Hortaliças
Grãos
Outras delícias

Texto: Patrícia Negrão
Fotos: Gustavo Lourenção

Outubro 2004

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