ESPIRITUALIDADE

A ultima viagem

Esta reportagem é dedicada a um tema muito pouco prestigiado: a morte. Quando não está no cinema ou nos jornais, esse assunto – tão amplo quanto profundo – causa, de pronto, aversão. Mas não feche a revista. Você não é o único a sentir o maior dos medos deste nosso tempo. Viver bem é a principal condição para aceitar o fim. Como aponta Contardo Calligaris, psicólogo italiano radicado em São Paulo, nesta entrevista a Bons Fluidos exclusivamente sobre o tema, que envolve felicidade, amor e muito prazer.

Vivemos e depois morremos. Certo? Errado. A morte não vem depois da vida, mas acontece o tempo todo, em conexão simultânea com o prazer de viver e de amar.

Para falar desse assunto tão amplo e profundo, escolhemos o psicólogo italiano Contardo Calligaris por vários motivos. Além de ser psicanalista, doutor em psicologia clínica, colunista do jornal Folha de S. Paulo, autor de seis livros e membro do Instituto de Estudos da Violência de Boston, ele cresceu entre os escombros da Segunda Guerra Mundial. Adolescente, fugiu para a Inglaterra, durante dez anos manteve consultórios em São Paulo, Boston e Nova York (ao mesmo tempo!) e viveu em vários países. Essa história de vida o presenteia com uma visão multicultural muito ágil e uma larga experiência em despedidas.

Durante duas horas, ele falou da morte e dos aspectos que envolvem a última viagem -- dos fatores históricos ao luto, do sexo à genética, do amor à ordem natural dos ciclos.
Calligaris revela o que faria se tivesse apenas um dia de vida e provoca: “O que você não deixaria de fazer se vivesse para sempre?”

Bons Fluidos – Pois é, ninguém quer saber da morte. A história explica esse medo?
Contardo Calligaris – Esse é um fenômeno recente. Talvez desenvolvido nos últimos 200 anos. A partir daquele momento, culturalmente o indivíduo tornou-se mais importante que a comunidade e a morte tornou-se apavorante. Por exemplo, para o homem da Idade Média saber da morte e prepará-la era muito importante e tranqüilo. A pessoa desaparecia, mas o sistema, a família, a cidade, a tradição, tudo continuava. Era confortante, pois a memória estava preservada, não era o fim de tudo. Porém, se hoje eu dissesse você vai morrer, mas São Paulo e a avenida Paulista vão continuar existindo, isso não seria um consolo.

BF – O que provocou a mudança do foco coletivo para o individual?
CC – Ela se preparou ao longo do fortalecimento do cristianismo, porque o deus cristão lida com cada uma das pessoas. Não é o deus de romanos, paulistas, cariocas – é o deus que fala com você. Esse foi um grande impulso para o individualismo. Depois vieram outros fatores, como a descoberta das Américas e as correntes de imigração, pois o imigrante é um desterrado e sempre carrega o sentimento de solidão. Antes disso, os cemitérios eram dentro das cidades, na praça ao redor da igreja central. A idéia de levar os mortos a lugares distantes do mundo dos vivos é moderna e traz inquietação, temor, espanto.

BF – A própria morte virou um fantasma porque ela é a grande niveladora?
CC – Ela é o fim do indivíduo, e esse é o maior medo. Há cada vez mais pessoas que sentem, de maneira aguda e dolorosa, não só a proximidade da própria morte mas também quando o mundo vai acabar.

BF – Mesmo sabendo que isso está previsto para daqui a 15 milhões de anos?

CC – Claro. Tanto quanto a morte individual, essa é uma fonte de angústia impressionante, pois é uma imagem da anulação definitiva. A complicação maior é, então, dar significado à vida como indivíduo, o que conta é o que eu fui capaz de realizar. Deixamos filhos, amigos, marcas, mas a gente não se consola com isso.

BF – É fugaz também, não é?
CC – Sim. Poderíamos nos sentir bem pensando que produzimos em nossos filhos efeitos imponderáveis e muito grandes. E nem sempre são os melhores... (risos) Por piores que sejam, deixamos marcas nos amigos, nos filhos dos amigos, e alguma coisa disso vai passar para os filhos deles. É preciso ter uma sabedoria muito grande para se consolar com isso, o que não é a sabedoria de nossa cultura.

BF – É uma sabedoria oriental?
CC – Sim, oriental. Absolutamente certa, e também uma sabedoria da cultura ocidental de outras épocas.

BF – Você disse que já teve um câncer. Saber que vai morrer ou ter uma doença grave mudam alguma coisa?
CC – Não quero falar de minha experiência pessoal. Detesto essas referências, que reforçam os traços narcisistas a fim de servir de exemplo para alguma coisa. Mas é claro que existe diferença entre o saber vago e geral da mortalidade e uma informação específica sobre a limitação do tempo de vida. Normalmente, estando fora da questão, pensamos que ou nos mataríamos logo ou transformaríamos o resto de vida em uma grande orgia. Mas isso, de fato, não acontece. As pessoas que acompanhei de perto não quiseram deixar de viver. Elas aproveitaram para se preparar (não apenas indo ao cartório determinar quem seriam os herdeiros) e tiveram tempo de se despedir das coisas e das pessoas, de fazer o que achavam essencial. Pode ser triste, mas não tem nada a ver com a depressão. E se foram em paz.

BF – Isso vale para os jovens?

CC – Saber sobre a morte aos 18 anos não é a mesma coisa que aos 80. A velhice traz a sensação da proximidade do fim sem drama, de forma mais natural. Nessa idade, é mais fácil ter acesso a uma espécie de sabedoria que diz: se tenho de aceitar o fato, a única coisa a fazer é alimentar a sensação de ter vivido bem a vida que tive. Já aos 18 anos, a pessoa vai ter mais dificuldade com o real, vai achar que está sendo privada de uma parte importante da experiência e terá de, ao menos, pensar em descer do ônibus bem antes do fim da linha. A morte precoce é mais complicada, mas no fundo o bem-vivido não depende da idade.

BF – Como assim?

CC – A dificuldade é o conceito do bem-viver. Há três ou quatro gerações, isso queria dizer ter criado família, filhos, ter feito o possível para prover e educar. Hoje, não basta. Temos de cumprir o dever de ter sido feliz. Não há nada de babaca nisso. Não quer dizer ficar apenas rindo e evitar os sofrimentos, mas carregar a sensação de que o tempo vivido foi uma experiência com momentos tristes e alegres e, por sua intensidade, valeu a pena.

BF – O que significa esse “valeu a penaR