ESPIRITUALIDADE

Sim, sim

Quando um casal sela a união diante da família e dos amigos, o amor é envolvido na alegria da celebração. E há maneiras muito originais de criar essa festa. Você vai conhecer Tatiana e Júnior, que misturaram o catolicismo com o animado casamento judaico, e Luciana e Eduardo, que se inspiraram em antigas tradições hindus. Esses casamentos, realizados em São Paulo, ganharam significados especiais e alimentaram a esperança de quem busca um amor.

Tradições unidas

epois de um ano morando juntos, Tatiana Ammar, 27 anos, e Urubatan Salles Palhares Júnior, 24, decidiram se casar. Além de unir seus corações, queriam uma festa que combinasse as tradições de suas famílias: judia e católica. “Na verdade, nunca tinha pensado em me casar da maneira tradicional, mas de repente senti vontade de fazer um rito, de reunir minha família e meus amigos queridos para apresentar a pessoa que eu escolhi, com quem quero viver e ter filhos. Afinal, o casamento é uma celebração em sociedade, entre os que nos servem de referência para você”, explica Tatiana.

Para criar um clima de mistério, os noivos decidiram passar a semana que antecedeu a cerimônia longe um do outro. Cada um voltou para a casa dos pais e curtiu ao máximo sua família. “Nos casamentos tradicionais judaicos, a mulher toma um banho de entrega, com água de chuva, para se purificar. Dá dez mergulhos, faz dez preces e só depois pode dormir com o marido. Quis fazer parte desse ritual, ficando longe do Júnior nos dias que antecederam a cerimônia, para sentir a emoção de vê-lo novamente num momento especial. Valeu a expectativa”, conta a noiva.

Diante do altar

Para celebrar o casamento, eles chamaram um juiz de paz e rechearam a festa com os rituais de cada religião. Tatiana entrou de branco – uma tradição seguida tanto no casamento católico quanto no judeu –, de braços dados com o pai. A música, cantada em hebraico, uniu os noivos em um altar feito no jardim do espaço alugado para a festa, em São Paulo. Perto deles, além da família, os padrinhos – tradição católica que não faz parte dos ritos judaicos.

Foi feita a troca de alianças, que pelas tradições hebraicas precisam ser lisas e sem nada gravado obstruindo o círculo perfeito, e depois o noivo quebrou um copo de cristal com o pé. “Isso lembra que o casamento é algo frágil, que precisa ser cuidado. E também é o momento em que os convidados desejam sorte”, explica Tatiana. Depois do estalo do cristal, os noivos foram levados pelos irmãos e amigos para a pista de dança. “Lá ergueram a gente em cadeiras e nos giraram”, finaliza Tatiana.

O noivo, que nunca tinha imaginado a emoção que é casar, acredita que, depois de passar por uma cerimônia como essa, toma-se consciência de que não se está mais sozinho. “Agora, tenho alguém a meu lado, que acredita em mim, que está comigo para o que der e vier”, diz Júnior, comovido e com as malas feitas para a cuidadosamente planejada lua-de-mel na Itália.

“Minha família é descendente de árabes, então procuramos oferecer pratos convencionais e alguns que estão sempre na mesa de casa, como charutos de uva e arroz marroquino”, conta Tatiana.
Os noivos foram envolvidos em emoção: “Nunca imaginei que ficaria tão ansioso e comovido em meu casamento”, confessa Júnior, que havia ficado uma semana sem ver Tatiana.
Flores brancas, rosas e toalhas lilás deram o tom delicado ao visual criado pela Va Savoir! Festas e Eventos, de São Paulo.
Seguindo as tradições dos casamentos judaicos, logo após a celebração, os amigos e irmãos ergueram os noivos em cadeiras.
Antes, porém, o momento importante em que o noivo pisa em um copo de cristal para lembrar a fragilidade do casamento e para que todos desejem sorte ao casal.
À direita, os bolos com corações.
Detalhes da decoração.
O beijo dos noivos.
Os sapatos da noiva com os nomes dos convidados que desejam se casar inscritos na sola, para dar sorte.

Casamento à indiana
Casar logo depois de um ano de namoro foi uma conseqüência natural do amor que Luciana Lima de Morais, 25 anos, e Eduardo Francisquini de Ataíde, 24, sentem um pelo outro. “Não houve pedido formal. Quando vimos estávamos comprando apartamento e combinando a cerimônia”, conta Luciana. Ela é católica não praticante e ele vem de uma família vaisnava, devota de Krishna, encarnação do deus hindu Vishnu (da preservação) na Terra. Desde pequeno, Eduardo é vegetariano e segue a filosofia hindu. “Como a ligação dele com essa tradição é forte, achei especial a gente fazer um casamento com os símbolos cultuados pelos seguidores de Krishna. E minha família aceitou porque sabia que eu jamais faria um casamento convencional”, diz a noiva.

Em uma sexta-feira à noite, no restaurante indiano da família de Eduardo, Luciana vestiu um sári vermelho, cor da fertilidade na Índia, e esperou o momento de entrar na sala principal do restaurante Gopala, em São Paulo, onde aconteceria a cerimônia. “Nessa hora, senti um pouco de solidão e chamei minha mãe, que me ajudou com a roupa.”

Fogo sagrado

Luciana entrou sozinha e encontrou Eduardo esperando por ela vestido de branco. Entre o casal e o sacerdote, uma fogueira rodeada de frutas e verduras. Os pais e 100 convidados acompanharam o ritual. “O fogo representa o semideus Agni, que é o elemento da purificação. As frutas e os legumes são oferendas a Vishnu e Agni, para que tragam prosperidade”, explica Eduardo.

Na primeira parte da cerimônia, os noivos pingam água nas mãos, como sinal de purificação, enquanto recitam mantras. Depois, o noivo pinta a testa da noiva com uma tinta vermelha chamada kumkum como símbolo de castidade. “Tive medo de que a cerimônia tivesse elementos machistas, mas Eduardo me explicou que, na Índia, as mulheres usam adereços dessa cor para mostrar que são casadas”, diz a noiva.

Para mostrar a união, o casal amarra suas vestes e finaliza o ritual distribuindo a comida. “Foi lindo, mesmo para quem não entendeu os significados. Agora, mais que nunca, Eduardo é meu companheiro no amor, na amizade, no que vamos construir”, diz Luciana.

A noiva Luciana.
Grãos são jogados no fogo como oferenda. Ao término da celebração, os noivos amarram suas vestes e oferecem comida aos convidados, louvando a prosperidade. Abaixo,
O casal Luciana e Eduardo.
Muitas flores e frutas são oferecidas aos deuses no casamento hindu.
A imagem do deus Krishna, a encarnação do deus Vishnu (da preservação) na Terra e de sua esposa, Radha.


Reportagem: Michaela von Schmaedel

Agosto 2004

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