Josias Cardoso, 40 anos, empresário e músico, pai adotivo de Isabela, 6. Também é pai adotivo de Alex, 22 anos, e pai biológico de Gabriel, 16, e Carolina, 15.
BEM-ESTAR

Amor de pai para filha

Cada vez mais próximos e presentes na vida das filhas, os homens são vistos por elas como amigos e confidentes. Um pouco ranzinzas, exigentes, mas isso faz parte do papel. Nesta reportagem, cinco pais contam como constroem com as filhas relações baseadas em cumplicidade, respeito e intimidade.

primeiro homem da vida de uma mulher é o que ela conhece logo que nasce. É por meio dele que estabelece laços e reconhece modelos masculinos de comportamento que influenciam decisivamente sua vida amorosa e profissional.

Felizmente os pais não são mais aqueles... Foi-se o tempo da figura autoritária, forte e inacessível, quase ausente, que aparecia principalmente para castigar ou para proibir o que a mãe não conseguia – a expressão “seu pai não vai gostar” fez parte da vida de todo mundo que tem mais de 30 anos.

O pai hoje é de carne e osso, tão próximo e presente na vida dos filhos quanto a mãe. Cabe a ele não apenas a tarefa de prover a segurança material mas educar e mostrar caminhos – ainda que aos trancos e barrancos, com acertos e erros, como é natural da condição humana.

Segundo a psicoterapeuta junguiana Lúcia Rosenberg, para a filha o pai é “um espelho mágico, em que ela reconhece as próprias qualidades, como força, coragem, sabedoria, segurança e astúcia”. A aprovação e os elogios paternos permitem à menina desenvolver autoconfiança e auto-estima, ao mesmo tempo em que a preparam para fazer escolhas importantes, como a carreira que vai seguir.

Imagem positiva
O pai carinhoso e capaz de impor limites passa à filha uma imagem realista e positiva dos homens. Essa perspectiva será preciosa para a construção de seus futuros relacionamentos afetivos, com mais aceitação e intimidade. “O pai não intimida e, sim, intimiza. E não precisa tratar a filha como ‘menininha do papai’. Essa idéia de posse não traz crescimento, pois ninguém é dono de ninguém”, salienta Lúcia.

As mudanças na estrutura familiar dos últimos anos trouxeram uma vantagem para as filhas que não podem ou não puderam contar com a presença paterna. Hoje, há por perto outros educadores do sexo masculino que podem suprir lacunas. São padrastos, professores, padrinhos – escolhidos mais por afeto do que por interesse – e os pais das amigas cujas casas elas freqüentam desde pequenas. “É comum uma filha de pais separados pegar o que seu pai ou padrasto têm de melhor”, conclui Lúcia.

A seguir, cinco histórias de pais e filhas, tão ricas quanto a própria vida.

Escolha maravilhosa

(foto de abertura)

Quando os filhos Gabriel e Carolina ainda eram pequenos, Josias e sua mulher, Liliane, adotaram Alex, um menino de rua, na época com 8 anos. Encantaram-se tanto com a experiência que criaram uma instituição, o Ministério Agape, para acolher outras crianças como ele. Foi lá que conheceram Isabela, na época com 3 meses. “Nos apaixonamos por ela e entramos com o pedido de adoção. Demorou, mas conseguimos”, lembra Josias.

Hoje, ele conta que a menina é o xodó da casa e que Carolina havia insistido muito para ganhar uma irmã adotiva. “Mas não ficamos com Isabela apenas para ceder aos pedidos de nossa filha. Junto com a intenção de adotar deve haver o mesmo amor incondicional que se sente pelos filhos biológicos.”

Isabela sabe que é adotada e, muito questionadora, segundo o pai, às vezes pergunta: “Mamãe, eu não mamei no seu peito?”

Josias se considera um pai carinhoso, mas que sabe impor limites. “Mas, sem carinho e afeto, não há autoridade real, apenas obediência”, ensina. Recentemente, Josias negou um pedido de Isabela, que queria ter um cachorro, pois moram em apartamento. “Como ela é emocionalmente muito estável e sabe resolver suas questões, me disse: ‘Quando a gente morar em uma fazenda você compra, né?’” Orgulhoso, ele conta que a filha é inteligente, carinhosa, dona de uma memória prodigiosa e de ótima voz – o que encanta o pai, músico. “Os filhos adotivos ficam mesmo parecidos com os pais. Todo mundo diz que Bebel é a cara da minha mulher.”

Antes cedo do que nunca
Marcos e a namorada Karina praticamente já viviam juntos no apartamento dele quando ela engravidou, aos 17 anos. Resolveram casar e morar na casa dos pais dela. “Tudo na minha vida aconteceu cedo, aos 13 já trabalhava e, aos 14, morava sozinho. Mas sem a ajuda da família não teríamos dado conta”, lembra. O casal viveu oito anos com os pais de Karina até que, no final do ano passado, ele se mudou com a filha para um apartamento próprio. “Acho que foi bom termos ficado lá, pois a avó da Beatriz cuidou bem dela para podermos trabalhar”, conta Marcos.

Desde o começo da gravidez, ele teve certeza de que teria uma filha e de que essa era sua preferência. “Sempre tive paixão por menina, talvez por ser o caçula de seis irmãs, que me mimaram muito. Menino deve ser tão sem graça!”, exclama.

Marcos confessa que no começo se sentiu despreparado para criar uma filha, mas acha que se saiu bem. “Desempenho direitinho meu papel. Sou carinhoso, mas pego mais pesado do que a mãe porque quero preparar Beatriz para ser independente e fazer as escolhas certas. Ela me respeita muito.”

Por volta dos 6 anos, Beatriz era mais ligada a Marcos do que à mãe e queria até ser cabeleireira, como ele. Sobre o pai, a menina revela: “A gente se dá bem. Eu brigo muito mais com minha mãe. O que mais gosto é quando ele brinca comigo e faz uma comida gostosa para mim”.

Marcos Shiba, 27 anos, cabeleireiro, pai de Beatriz, 9.

Tal pai, tal filha
Tem pai que gosta que os filhos sigam sua profissão, assim como os filhos sonham em seguir a carreira do pai. Mas só ao completar 30 anos Marina decidiu voltar a estudar e realizar o desejo de infância de trabalhar com advocacia, como Delcio. Até então, formada em psicologia, ela dirigia um bufê infantil. “Ele trabalhava com tanta paixão e prazer que também passei a gostar de direito”, explica a filha, caçula de três irmãos e única mulher.

Mas surpresa: Delcio revela-se apreensivo quanto à escolha profissional da filha, que vai trabalhar com ele. “Não acho bom ela começar sem criar a própria clientela, sem experimentar a competitividade. Afinal, aqui em meu escritório, ela é ‘filha do patrão’”, diz. Marina confessa que sente uma certa pressão: “Ao mesmo tempo em que conforta, também assusta, pois há o peso do nome. Ele sempre me ensinou a procurar ser a melhor em qualquer coisa que fizesse. Agora, isso traz ansiedade”.

A ligação dos dois é forte e evidente. Segundo eles, a mãe dela, de quem Delcio se separou (ele se casou de novo), era muito rígida com os filhos. “Meus irmãos e eu dizíamos ‘oi, mãe’ e beijávamos meu pai. Era no colo dele que eu ficava e, se havia algum problema, eu preferia conversar com ele”, conta Marina.

Delcio retribui, sorrindo, sem censura e com muita ternura: “Sim, ela é a filhinha do papai...”

Delcio Trevisan, 69 anos, advogado, pai de Marina, 35, psicóloga e advogada.

Três não é demais
Toda vez que Ivan e Ana Lúcia esperavam um bebê, escolhiam o nome Pedro para o caso de ser menino. Vieram três meninas, porém o paizão garante que nunca se decepcionou. “Ele vivia nos dando carrinho de presente”, revela a mais velha, Lina. “Elas gostavam. Não eram muito de boneca, não”, justifica-se Ivan, fã de corridas de automóveis – que assiste com as filhas.

Viver entre mulheres virou a sina desse pai, que chegou a comprar um grande utilitário para transportar toda a tropa, juntamente com, pelo menos, uma amiga de cada uma.

Hoje todas estão namorando, e ele jura que não sente ciúmes. “Meu pai só não gostou de um namorado meu que era muito ciumento”, diz Lina. Foi a época dos maiores conflitos entre pai e filha, que agora reconhece o valor dos conselhos paternos: “Ele tinha de me alertar mesmo”.

A saúde e a segurança são as maiores preocupações de Ivan com seu “harém”. O que mais o irrita: “A falta de cuidado com as coisas, não ajudar em casa, achar que nasceram para princesas. Boto todo mundo lavando louça”. As meninas, por sua vez, garantem que o pai sofre quando todas estão na TPM. Mas, para ele, a maior dificuldade é sair com a família completa, principalmente para viajar. “Elas levam horas se arrumando. Só conseguimos sair quando perco a paciência. Depois dizem que sou chiliquento...” Maíra aproveita e dispara, brincando: “Ele é chiliquento mesmo!”

Ivan Idoeta, 47 anos, engenheiro, pai de Lina, 21, Fabia, 18, e Maíra, 16.

Fruto da maturidade
Ter a primeira filha em uma idade em que muitos homens se tornam avôs não está sendo um problema para Claudio Edinger. Ao contrário. “Se eu tivesse sido pai aos 30 anos, não teria curtido um décimo do que estou curtindo agora”, conta ele, entre uma fralda e uma mamadeira. “Desde que ela nasceu, não sei o que é dormir direito”, orgulha-se.

Ana é fruto do segundo casamento de Claudio, com a joalheira Christina Cunalli, – eles estão juntos há dez anos. Depois da emoção de acompanhar a esposa no parto, segurar o bebê e cortar o cordão umbilical, a paixão pela filha foi imediata. Quando Ana estava com 4 meses, Claudio teve de passar dez dias na Amazônia. A saudade foi tanta que alterou a agenda e encurtou a viagem. “Uma menina mexe muito com o coração do homem, que é em geral regido pela razão”, justifica.

Claudio não se preocupa com a diferença de idade – ele estará com 70 anos quando Ana tiver 18. “Acreditar na reencarnação me leva a encarar uma filha como uma árvore que vai dar frutos, e não como alguém que eu vou moldar. E mais: jogo tênis, ando de bicicleta, não fumo, não bebo e vou acompanhar o pique dela. Talvez não consiga praticar esportes radicais, mas acho que isso nenhum adolescente quer fazer junto com o pai”, diz, brincando.

Claudio Edinger, 53 anos, fotógrafo, pai de Ana, 1.


ITexto: Maria Emília Kubrusly
Fotos: Gustavo Lourenção

Agosto 2004

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