|
AUTO-CONHECIMENTO
1, 2, 3... Competir!
Enquanto os atletas vão para as Olimpíadas,
você assume a raia na competição da vida:
a disputa por afeto, respeito e ascensão profissional
nos acompanha em todos os momentos. Mas se o importante é
competir, como diz o ditado, melhor é saber fazê-lo
com ética e cooperação. E o esporte, em
que a disputa é explícita e as regras claras,
nos dá pistas sobre os caminhos que levam à vitória
de cada dia.
É natural. Competir faz parte de todas as fases da vida.
Aliás, só existimos por causa de uma fantástica
competição: milhões de espermatozóides
disputam a primazia de fecundar um único óvulo.
No reino animal, as fêmeas escolhem os machos mais fortes
e viris para garantir os melhores genes para a futura prole.
Até as plantas competem pelos nutrientes da terra e pela
luz. Na floresta fechada, árvores crescem acima das outras
para alcançar os raios solares.
“Uma das formas primordiais de relação é
por meio da competição. Ser amado e respeitado
representa uma de nossas necessidades básicas e, desde
cedo, competimos uns com os outros nessa busca de reconhecimento”,
explica a psicóloga e professora Fela Moscovici, do Rio
de Janeiro, autora dos livros A Organização por
Trás do Espelho e Equipes Dão Certo (ed. José
Olympio).
Em princípio, o espírito competitivo é
uma força positiva que nos impulsiona a evoluir, a crescer
e a satisfazer nossos desejos. “O desafio, porém,
é mantê-lo dentro de limites aceitáveis”,
alerta Fela. Senão corre-se o risco de encarar a vida
como uma contenda sem fim, uma espécie de Jogos Olímpicos
às avessas, em que se perde o objetivo da disputa.
Jogo limpo
Campeonatos esportivos são o exemplo máximo de
uma competição que segue princípios éticos.
O objetivo dos participantes é vencer e subir ao pódio,
mas as regras são claras, explícitas e conhecidas
por todos. “Numa competição leal, exploramos
nossos recursos, como talento, inteligência e experiência,
da mesma forma que o atleta usa a técnica e o preparo
físico”, continua a especialista.
“Também no trabalho ou nos relacionamentos, o jogo
tem que ser limpo. Não pode haver dissimulação,
manobras de bastidores, ardis para prejudicar os outros ou omissão
de informações para obter vantagens”, ressalta
Fela Moscovici.
O mesmo vale para as relações pessoais, em que
também existe a competição. “Pode
ser legítima a disputa pelo coração de
um homem ou de uma mulher ou pela atenção dos
pais. Desde que não se apele para a mentira ou a manipulação
para conseguir afastar os concorrentes e ter só para
si o objeto do amor.”
O trabalho é a área em que aparece mais explícita
a necessidade de administrar essa força instintiva com
a noção de limites. Segundo os economistas, vivemos
em uma época de hipercompetição, em que
a velocidade e a intensidade das transformações
desafiam permanentemente empresas e trabalhadores. Como os atletas
das quadras e piscinas, somos cobrados o tempo todo a exibir
nossa melhor performance.
A eficiência entra em campo
“Em toda profissão, existe a disputa não
com colegas, mas com outras dezenas, centenas de profissionais
qualificados para assumir nosso posto”, salienta Ricardo
Nakai, consultor de saúde, bem-estar e qualidade de vida
em empresas e ex-lutador de kung fu (modalidade em que foi vice-campeão
mundial), de Brasília. “Competimos também
com o relógio, para entregar um trabalho no prazo, e
com os concorrentes, para criar um produto que se sobressaia
aos olhos do consumidor.” Sob o desafio de estar sempre
desenvolvendo e aperfeiçoando talentos e habilidades,
como forma de assegurar espaço, temos que ser tão
eficientes quanto os craques que entram em campo.
Superar os adversários nos exige a excelência de
um verdadeiro atleta. Melhorar nossa performance não
se resume aos 90 minutos de uma partida ou ao tempo que dura
a seleção para uma promoção dentro
da empresa. Essa é uma meta permanente, como a tocha
olímpica, que arde enquanto duram as disputas.
Como acontece no esporte, tem mais chances de vencer o competidor
que luta não apenas para superar os adversários
mas a si mesmo. “Precisamos ser como o atleta que treina
duro para melhorar sua marca em 1 milésimo de segundo”,
afirma Ricardo Nakai. O sucesso, segundo o consultor, também
é conseqüência de identificar e procurar superar
os pontos fracos. Apesar de todas as suas vitórias, o
piloto de fórmula 1 Ayrton Senna achava que corria mal
na chuva. Sempre que possível, ele treinava com tempo
ruim para melhorar sua performance.
Os verdadeiros vencedores competem focando valores consistentes,
como o sentido de realização interior, de felicidade
por estar fazendo o que gosta, e não simplesmente pensando
na fama, no sucesso ou nas recompensas materiais. “Basta
observar a alegria com que jovens craques do futebol, como Kaká
e Diego, entram em campo. Estão ali por prazer e não
simplesmente para ficar famosos ou fazer fortuna”, lembra
Nakai.
Premiados por dentro
Essa sensação de recompensa interna pode ser mais
gratificante do que a medalha ou a coroa de louros. É
ela o prêmio do cidadão que corre em uma maratona
de rua, lembra o consultor. “Em meio aos 5 mil, 10 mil
participantes, quantos têm chances concretas de vencer?
Não mais que dez, 20. Para a maioria, a grande satisfação
é simplesmente chegar até o final da prova”,
ressalta.
Depois de participar de várias maratonas em São
Paulo e da prova que acontece em Nova York, o administrador
Silvio Ferreira Motta, 39 anos, incorporou os ensinamentos das
pistas para o cotidiano profissional. “Entendi o significado
do esforço e da dedicação sem pensar apenas
na vitória. É a confirmação do velho
ditado que diz que o importante é competir”, diz
Silvio.
Pura adrenalina
Algumas pessoas são mais competitivas do que outras e,
mesmo em situações corriqueiras, se sentem estimuladas
sob o efeito da adrenalina que acompanha os momentos de disputa.
“Quando o instinto de competição é
exagerado, raramente atingir metas ou superar desafios traz
a sensação de realização ou felicidade.
Quem busca vencer a todo custo sofre demais com as derrotas
e quase não saboreia as vitórias”, diz o
consultor Ricardo Nakai.
Diferentemente dos torneios esportivos, em que os atletas descansam
entre dois jogos para recuperar os músculos, a competição
do dia-a-dia quase não nos dá direito a essa pausa
revitalizadora. “É preciso recuperar as energias
gastas sob pressão por meio de atividades relaxantes
e prazerosas”, ensina Nakai.
Praticar um hobby ou uma atividade física, fazer caminhadas
ou meditação são formas de alcançar
o equilíbrio interior para enfrentar as disputas do dia-a-dia,
segundo o consultor. “Quem cultiva o autoconhecimento
tem a verdadeira noção do que precisa para ser
feliz. E dos recursos de que dispõe para competir por
seus ideais. Aquele que sabe que dá 100% de si certamente
é um vencedor”, conclui Nakai.
Espírito de equipe
Em qualquer esporte, os talentos individuais não são
suficientes para produzir resultados se não houver o
entrosamento da equipe. Afinal, o que seria de um time se todos
os jogadores só chutassem a gol, em vez de armar jogadas
e passar a bola para os companheiros? “A competição
não descarta a colaboração”, diz
a psicóloga Fela Moscovici. “O trabalho em grupo
produz resultados mais consistentes e duradouros”, afirma
ela. Quando existe união e espírito de equipe,
as tarefas são realizadas com mais qualidade e satisfação:
“As pessoas gostam de estar juntas, dando o melhor de
si”.
“Sempre fui uma profissional altamente competitiva e só
percebi o quanto é fundamental que a equipe esteja coesa
quando assumi um cargo de chefia”, conta a representante
comercial Sandra Mendonça, 31 anos, de São Paulo.
“Antes queria fechar negócio com os clientes a
qualquer custo, mesmo que tivesse que invadir as praças
de outros vendedores.” Em seu novo cargo, ela diz ter
aprendido o sentido de cooperação: “vi como
é importante que os representantes troquem informações
e contatos para enfrentar melhor a concorrência”.
Na disputa pelo mercado, até as empresas estão
revendo antigos conceitos baseados na competição
pura e simples. Ao mesmo tempo em que concorrem entre si, muitas
vêm investindo na formação de alianças
e parcerias tendo em vista os interesses comuns, como a compra
de matérias-primas. Essa tendência foi batizada
pelos economistas americanos de coopetição (coopetition),
resultado da soma de cooperação e competição.
Ética em primeiro lugar
Conseguir um emprego, obter uma promoção, conquistar
um amor... São muitas as maneiras como a competição
permeia nossa vida. Veja como encarar a briga de maneira ética
e respeitosa.
• Entre em uma disputa por algo que traga crescimento
ou aperfeiçoamento, não simplesmente por vaidade
ou status.
• Se estiver batalhando por um cargo ou uma promoção,
deixe claro que está na disputa e quais são seus
atributos para concorrer. Não aja na surdina ou faça
manobras de bastidores.
• Adote sempre um comportamento ético e de respeito
às regras.
• A competição profissional exige uma reciclagem
permanente. Procure aprender sempre e perceba quando seus conhecimentos
estão ficando desatualizados.
• Alterne o trabalho com atividades de lazer a fim de
recuperar as forças, como faz o atleta que descansa entre
dois jogos importantes.
• Pratique esportes ou qualquer tipo de atividade física
para extravasar a energia acumulada nas tarefas diárias.
• Práticas que propiciem a interiorização,
como ioga e meditação, ajudam a desenvolver o
autoconhecimento e conhecer quais são suas verdadeiras
metas.
• Ao fim de cada tarefa ou meta cumprida, recupere-se
do esforço antes de planejar a próxima empreitada.
• Saboreie a vitória a cada conquista. Aprenda
a comemorar mesmo os pequenos feitos, como terminar cada dia
com o trabalho bem-feito, em ordem e no prazo.
 |
Os Jogos
Olímpicos nasceram, na Grécia antiga, das
competições esportivas consagradas ao deus
supremo Zeus, em seu santuário na cidade de Olímpia.
A primeira prova documentada da celebração
data do ano 776 a.C. Consideradas festas pagãs, as
Olimpíadas foram proibidas em 392 pelo imperador
cristão Teodósio l. Só voltaram a ser
realizadas em 1896, no mesmo lugar onde nasceram, a Grécia.
O país volta a abrigar os jogos em 2004, quando acontece
sua 28ª edição. |
 |
A tocha, na Grécia
antiga, era usada para conduzir a chama do fogo sagrado,
elemento purificador, de um altar a outro. Nos jogos da
era moderna, a tocha olímpica sai de Olímpia
e passa por diferentes países, transportada por atletas,
celebridades e cidadãos comuns, até o local
da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.
Durante a competição, permanece acesa em uma
pira no Estádio Olímpico até o encerramento
das competições. |
 |
A união gera
a força. |
 |
Em vez de medalhas,
a coroa de louros era o prêmio para os atletas que
venciam as competições nas Olimpíadas
da Grécia antiga. As folhas da própria planta,
considerada sagrada, eram usadas na confecção
do adorno. |
 |
Ser vitorioso é
saber que fez o melhor possível. |
Texto: Wilson F. D. Weigl
agosto 2004
VEJA
MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO
|