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AUTO-CONHECIMENTO
Para varrer do pensamento
Alguns ditados, conselhos e lições
de moral que ouvimos desde a infância tendem a grudar
em nossa mente e, com o tempo, se transformam em bloqueios,
culpa, insegurança. Aprenda a identificar essas palavras
e liberte-se de armadilhas que podem gerar muita angústia.
Pare um segundo e pense: há alguma frase que você
diga ou escute repetidas vezes ou que sempre surge em sua mente
nos momentos de tomar uma decisão ou dar um passo importante?
Alguns dos dizeres que funcionam como uma espécie de
armadilha para a mente: “Seja forte!”, “você
podia fazer melhor!”, “ande depressa!”, “eu
sou assim e pronto!” Essas são frases que podem
atordoar e, com o tempo, minar a auto-estima e bloquear as ações.
Muitas vezes nem notamos que estamos aprisionados, ao fixar
essas afirmações como se fossem certas. “A
linguagem molda nosso comportamento, por isso repetir muito
um tipo de julgamento sobre si mesmo ou sobre outras pessoas
pode influenciar negativamente tanto nossas decisões
como nossos sentimentos”, explica Carlos Bein, psicólogo
junguiano de São Paulo formado pela Universidade Autônoma
de Barcelona, na Espanha, com especialização em
programação neurolingüística (PNL).
Por que fazemos isso?
Segundo estudos da neurolingüística – um método
que estuda a relação entre linguagem e comportamento
–, o cérebro, para guardar na memória as
milhares de informações que recebe, tende a selecioná-las.
Nesse processo, corremos o risco de generalizar, distorcer ou
omitir informações a ponto de não enxergar
novas possibilidades. “Tudo é uma questão
de escolha. Podemos ver o mesmo acontecimento com óticas
diferentes, e isso é salutar. Mas as expressões
verbais podem nos aprisionar num só julgamento”,
considera Cândida Amaral, psicóloga com especialização
em terapia familiar no Instituto Sedes Sapientae, de São
Paulo.
Veja a seguir o significado de oito frases que podem causar
angústia e prejudicar as relações. A orientação
dos especialistas ajuda a varrê-las da mente.
Eu sou assim e pronto!
Essa frase tem grande poder imobilizador. “Quando uma
pessoa acredita que não é capaz de mudar, está
fechando a porta para inúmeras possibilidades em sua
vida”, diz a psicóloga Cândida Amaral. A
frase pode vir adicionada por uma série de justificativas,
que tem a única finalidade de acentuar ainda mais uma
posição irredutível ou um comportamento
que deve ser transformado. A saída é ser flexível,
deixar de lado a rigidez de pensamento e ter coragem para corrigir
a rota das atitudes toda vez que for necessária uma mudança.
Isso poupa muita angústia e teimosia.
Nunca dá tempo para
nada!
“Aí é que não dá mesmo”,
diz sorrindo a psicóloga Cândida Amaral. Variações
do mesmo tema são as afirmações “estou
exausta!” e “nunca consigo fazer o que quero”.
“Quando são continuamente repetidas, elas agem
como freios em uma roda. O mais sensato é olhar para
as causas que as produzem. Se estou realmente muito cansada,
como posso dividir meu tempo e ter uma pausa para descansar?
Ou como posso aprender a relaxar numa vida agitada? Isso funciona
mais do que ficar repetindo a mesma coisa sem tentar nenhuma
mudança”, fala Cândida.
Seja forte, você pode
agüentar!
Essa máxima tanto pode dar estímulo e coragem
como forçar alguém a fazer sacrifícios
além das próprias forças só para
provar que é capaz de superar grandes obstáculos.
“Isso provoca o desejo de querer sempre, mesmo em situações
muito difíceis, ser aplaudido e reconhecido como vencedor”,
adverte Cândida Amaral. “Porém a preservação
da vida e da saúde tem de ser importante em nossos valores
internos. Não precisamos provar que temos uma força
ilimitada para suportar pressões ou situações
insustentáveis ou exigir essa força descabida
de alguém. Estabelecer limites, até de força,
é saudável”, conclui a psicóloga.
Filho de peixe peixinho é...
Antigamente, esse ditado era usado para justificar escolhas
profissionais que se revelavam infelizes. “Ela condiciona
os talentos ou os defeitos a um padrão familiar, estático.
É uma generalização que limita e justifica
as ações dos pais e dos filhos, para o bem e para
o mal”, diz o psicólogo Carlos Bien.
Há casos, sim, que se pode herdar uma boa voz ou o talento
artístico dos pais. “Mas cada um a sua maneira.
Não existem clones ou pessoas iguais”, fala Carlos.
E, lógico, há filhos totalmente diferentes dos
pais. “Nem todo filho de peixe é peixe. Ainda bem”,
assegura ele.
A saída é evitar, sempre que possível,
fazer generalizações desse tipo e considerar que
as pessoas e as situações são únicas.
Coitadinho, tão bonzinho
“Quando você diz essa frase para alguém ou
pensa isso sobre si mesmo, está reforçando a posição
de vítima, o que mina todas as forças para superar
qualquer problema”, diz Cândida Amaral.
Além disso, há uma arrogância implícita
quando classificamos alguém como “digno de pena”.
“Isso quer dizer que o consideramos impotente, incapaz,
nulo, fraco”, salienta a terapeuta.
Essa expressão pode ser complementada ainda por “coitadinho,
tão bonzinho, e não tem sorte...”. “Aí
a situação piora, pois a condenação
é total e a própria pessoa se sente coitadinha,
vítima das situações ou do próprio
destino. Como se a vida pudesse condenar alguém a uma
circunstância infeliz, não merecida. Assim, parece
que a solução está fora de alcance, o que
não é verdade, pois cada um tem de tomar as rédeas
de sua própria vida.
Em vez de dizer “que pena, coitado”, o melhor é
achar uma maneira de ajudar, tratar de igual para igual ou apontar
formas positivas que levem a uma saída.
Não jogo fora porque
pode servir no futuro
Quando essa sentença justifica prateleiras
com livros que não vão ser mais lidos, armários
com vestidos que não vão ser mais usados, caixas
com remédios vencidos, ela quer dizer: “A vida
está atravancada de várias formas. De uma maneira
prática, a casa fica atulhada de coisas geralmente inúteis.
Mas o principal é que a pessoa que diz isso também
pode ter dificuldade de se desfazer de experiências e
sentimentos que não são mais necessários
ou saudáveis, ficando presa ao passado”, diz a
psicóloga Eliane Ramos de Oliveira.
“Descartar faz parte da vida tanto quanto possuir. Quem
não sabe jogar fora tem mais relutância em abrir
espaço para o novo e limita-se na hora de viver novas
experiências”, diz a terapeuta. Use o bom senso,
não guarde objetos desnecessários e perceba que
carregar mágoas e ressentimentos deixa a vida mais pesada.
Tente descartar o que já não é mais necessário
e conversar sobre os sentimentos não resolvidos no passado.
Você poderia ter feito
melhor!
Muitas vezes, essa frase oculta uma
expectativa exagerada por parte de quem a profere. “É
comum ver esse tipo de ditado ser repetido muitas vezes de pais
para filhos, de chefe para subordinados, isto é, de alguém
que está em uma posição superior ou se
sente assim”, afirma a psicóloga Eliane Ramos de
Oliveira. “Quando essa expressão é muito
usada, pode reduzir drasticamente a auto-estima e a autoconfiança
a ponto de provocar bloqueios”, diz ela.
“Se a cobrança não tiver razão de
ser, podemos neutralizar o efeito lembrando que não podemos
deixar nas mãos dos outros a avaliação
de quem somos ou do que fazemos. Além disso, temos de
ouvir nossa voz interna, que pode dizer que demos o melhor de
nós, ainda que possamos nos aperfeiçoar”,
lembra Eliane.
Ande mais rápido!
Se você fala ou repete mentalmente
essa ordem muitas vezes, cuidado com a ansiedade em alta voltagem.
“Na dose exagerada, ela é capaz de provocar muita
resistência em quem escuta e ocasionar o efeito contrário:
insegurança e hesitação”, diz a psicóloga
Eliane Oliveira. “O melhor é analisar as causas
de uma possível lentidão, em vez de pressionar
sem saber o que está ocasionando o atraso”, avalia.
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Ser flexível
ajuda a limpar da mente as expressões que só
fazem mal. |
Texto: Liane Camargo de Almeida
Alves
Ilustração: Ionit
julhO 2004
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