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AUTO-CONHECIMENTO
Samurais: guerreiros além da força
Eles não temiam a morte e prezavam,
acima de tudo, a honra e a retidão de caráter.
Os princípios éticos e humanitários que
norteavam sua conduta são lições de autoconhecimento,
que continuam tão atuais quanto no Japão de quase
mil anos atrás e podem ser um reforço para enfrentar
as batalhas de todos os dias.
s armaduras eram enormes e imponentes, feitas de ferro, couro,
madeira e seda. Os capacetes exibiam chifres ou formas de criaturas
medonhas. A aparência dos samurais, guerreiros do Japão
medieval, era amedrontadora. Mais ainda porque vinha precedida
por sua fama. Esses ferozes e exímios espadachins, com
coragem e frieza, lutavam com a firme determinação
de vencer... ou morrer. Mas, fora do combate, exibiam sua outra
face: eram homens altamente espiritualizados e de sensibilidade
refinada.
É uma complexa combinação de bravura e
caráter, de compaixão e implacabilidade, que torna
fascinantes esses lendários personagens. Um encantamento
que hoje estimula a procura pelas antigas artes marciais praticadas
por esses guerreiros e inspira livros e filmes dedicados a esse
tipo de vida e filosofia, como O Último Samurai, com
Tom Cruise.
A era desses guerreiros durou de 1192 a 1868, em que o Japão
esteve sob permanentes conflitos internos de feudos contra feudos.
Os samurais eram responsáveis pela defesa desses territórios,
cada um governado por um senhor – o nome, vem de samburau,
que significa “servir a um senhor”.
Espada, a alma do guerreiro
A arma inseparável de um samurai era a espada, considerada
quase uma extensão do corpo. “Eles eram mestres
da arte do kenjutsu, a luta com a espada”, explica Marcelo
Neje, instrutor de artes marciais e coordenador do Instituto
Cultural Niten, com 30 unidades em todo o país. Chamada
catana, essa arma era a “alma do guerreiro”. Forjada
em ferro, podia ser usada para matar ou fazer justiça.
O mais famoso samurai de todos os tempos, Miyamoto Musashi,
que viveu entre os séculos 16 e 17, criou um estilo de
luta com duas espadas, uma em cada mão.
Mas, por trás do destemor, estavam homens que cultivavam
valores humanitários. “Os samurais seguiam um rigoroso
código de ética e moral, o Bushidô, em cuja
base estavam virtudes como justiça, ética, compaixão,
lealdade, educação e sinceridade”, explica
Marcelo Neje.
Eles não ambicionavam poder ou riqueza. Esse desprendimento
tinha origem nos ensinamentos das três religiões
que coexistiam no Japão – o budismo, o xintoísmo
e o confucionismo – e faziam parte da preparação
psicológica e espiritual dos guerreiros.
Poesia, teatro e arranjos florais
A formação do samurai era complementada pelas
artes, que refinavam sua sensibilidade. “Eles estudavam
poesia (haicai) e caligrafia (shodô), apreciavam o teatro
nô e os arranjos florais (iquebana)”, conta Marcelo.
Além de meditar, praticavam a cerimônia do chá
(chadô). Esse delicado ritual proporcionava momentos de
paz e contemplação, fundamentais para se recuperar
do choque das batalhas. Nele, também acalmavam a mente
e exercitavam a concentração, atributo indispensável
aos combates. A desonra era a pior humilhação.
“Se capturados pelo inimigo, praticavam o haraquiri, suicídio
ritual que consistia em enfiar a espada no próprio ventre”,
conta Marcelo Neje.
Nas guerras, os samurais eram conhecidos não apenas pela
técnica mas também pelo sangue-frio e pela disciplina.
Como naqueles tempos, alcançar isso é hoje uma
das partes fundamentais nos cursos que ensinam o kunjutsu e
outras artes marciais, como o jiujutsu (a luta corpo a corpo),
o jojutsu e a naginata (técnicas de combate com bastões
de carvalho) e o iaijutsu (arte de desembainhar a espada com
precisão e velocidade). “É preciso relaxar
a mente para que haja concentração nos movimentos
do corpo e no manejo da arma”, explica o instrutor Marcelo.
Samurais urbanos
“Como os samurais jamais abandonavam
a luta, aprendi a não desistir facilmente de minhas metas”,
conta o baterista Paulo Mariz, 32 anos, de São Paulo,
que também treina kenjutsu. Nas meditações,
parte inseparável dos treinos, ele pôde desenvolver
a concentração e, principalmente, a calma. “Em
apenas alguns meses, curei uma síndrome do pânico
que tratava com remédios sem sucesso”, diz o músico.
Hoje, as artes marciais dos antigos samurais não são
apenas privilégio masculino: as mulheres também
são bem-vindas em escolas e cursos. Naomi Takeda Arruda,
25 anos, de São Paulo, administradora de empresas, pratica
kenjutsu e descende, por parte de mãe, de uma linhagem
de samurais originária de Chiba, perto de Tóquio,
que remonta ao século 6. “Minha mãe era
neta de samurais”, diz ela.
“Com a prática, além de desenvolver a flexibilidade
e a resistência, aprendi a respeitar o próximo
e, principalmente, a cumprir as promessas, que eram pontos de
honra para os antigos”, afirma a administradora. E não
só: “Os samurais viviam sob o permanente estado
de alerta, pois poderiam ser convocados para a guerra. Com sua
filosofia, comecei a dar valor a cada momento e jamais deixar
nada pendente”.
“Quando agimos perfeitamente concentrados, a margem de
erro é muito menor”, acredita Paulo Mariz. “No
kunjutsu, cada combate dura dois minutos, mas um oponente pode
ser derrotado em questão de segundos, ao receber um golpe
que, se fosse dado com a espada de metal, seria fatal”,
descreve Paulo. Essa postura firme vale para todas as áreas
da vida, completa ele. “Só conseguimos evoluir
e atingir metas quando a mente está 100% focada em nossos
gestos, atitudes e propósitos.” Eis é uma
das lições dos samurais que deverão permanecer
ainda por muitas gerações: a importância
de desenvolver a coragem e a perseverança, de cultivar
a compaixão e, antes de tudo, de ser afiado e justo...
como a lâmina de uma espada.
Para saber mais
Livros
• Musashi, de Eiji Yoshikawa (ed. Estação
Liberdade)
• Bushidô, o Código do Samurai, de Daidoji
Yuzan (ed. Madras)
• O Livro dos Cinco Anéis, de Myamoto Musashi (ed.
Madras)
Internet
• www.niten.org.br (Instituto Niten)
• www.samurai-archives.com (Samurai Archives, em inglês)
Filmes
• O Último Samurai (2003), de Edward Zwick, com
Tom Cruise e Ken Watanabe
• Shogun (1980), de Jerry London, com Richard Chamberlain
• Rashomon (1950), Os Sete Samurais (1954) e Ran (1985),
de Akira Kurosawa
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Coragem. |
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Disciplina e precisão
são atributos para vencer sempre. |
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Ética. |
Texto: Wilson F. D. Weigl
Reportagem Fotográfica: Camile Comandini
Fotos: Eduardo Girão
julhO 2004
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